EMPRESAS | ARGANIL: «Venho dum país onde existe Máfia, mas não estou para aturar mafiosos» assegura o dono da “Ecopipe”

Tommaso Tomaiulo continua a aguardar por uma luz ao fundo do túnel

«Venho dum país onde existe Máfia, mas não estou para aturar mafiosos», quem o afirma é Tommaso Tomaiulo, sócio-gerente da ECOPIPE, uma empresa que fabrica tubagem em aço de grande diâmetro, e que desde há dez anos está a laborar no parque industrial da Relvinha (Sarzedo-Arganil). A “crise” atirou-a para o “lay-off”, situação que acaba no final deste mês. A poucos dias de recuperar o pleno da actividade, o empresário lamenta a falta de diálogo por parte da autarquia num caso que engloba uma parcela de terreno dos 63.000 m2 do lote, ao que tudo indica, vendidos pela Câmara sem autorização da Junta de Freguesia.

O caso arrasta-se (…) «há tempo de mais», começa por vincar Tommaso Tomaiulo, empresário italiano e sócio-gerente da ECOPIPE, ao explicar que desde 2007 que o terreno é propriedade da empresa (…) «adquiri 63 mil metros quadrados de terreno à Câmara Municipal de Arganil, compra que foi efectuada através do presidente da Câmara, Ricardo Pereira Alves, com toda a documentação (registos, bancos) a dar entrada nas competentes repartições», sustenta.

Contudo, por volta de 2010, o empresário foi surpreendido pelo presidente da Junta de Freguesia do Sarzedo, Fernando Simões (…) «informou-me que parte do terreno que eu tinha adquirido [à Câmara] era dele [Junta] e não lhe foi pago», apesar de ter mostrado toda a documentação que comprova a aquisição da propriedade. «Se a Câmara me vendeu um terreno ou parte de um terreno que não lhe pertencia, é um assunto que tem que ser resolvido entre aqueles dois órgãos autárquicos. Parecia-me a resolução lógica, mas, de facto é que isso não aconteceu, e andamos em “guerras” há já algum tempo para se resolver o “problema”». Mais tarde, continua Tommaso Tomaiulo, (…) «vim a saber que existia um contrato com a Portucel para venda de uns eucaliptos, que entretanto ficaram no meu terreno, uma coisa pequena em questões de valor, sejam os eucaliptos seja a terra. O contrato, tanto quanto sei, tinha validade até 2012. Entretanto resolvemos vedar toda a nossa área, mas deixei abertos entre 100 a 150 metros na zona dos eucaliptos», explica.

A situação ganhou proporções que o empresário lamenta, sobretudo no que se refere à troca de correspondência (…) «em todo este período de tempo, a Ecopipe fez uma série de cartas e emails para a Câmara Municipal com o objectivo de reunirmos para tentar resolver o assunto, mas o certo é que nunca recebemos qualquer resposta por parte da Câmara, apesar da nossa insistência em marcarmos as reuniões».

Porque tem que responder a um grupo de sócios, Tommaso Tomaiulo não deixou de insistir com a Câmara Municipal de Arganil (…) «depois da enésima carta, finalmente no início deste ano encontrei-me com o presidente da Câmara, tendo-me informado que “afinal enganámo-nos [na altura da aquisição do terreno]”, pelo que lhe perguntei “então queres indemnizar-me ou indemnizas a Junta?, ou seja, implicava desanexar um pedaço de terreno (300/500 m2) para ser entregue à Junta de Freguesia. Acontece que em termos processuais, isto é, entre os custos de cancelar as escrituras, alterar o registo na Conservatória e nas Finanças, mas sobretudo renegociar empréstimos, é claro que eu não tinha nenhuma conveniência que isso acontecesse, e por isso respondi ao Ricardo Pereira Alves “isso só me vai trazer ‘mil problemas’… indemniza a outra parte”», esclarece.

Quase 10 anos depois da compra e tendo em conta as conversações com o presidente da Câmara (…) «decidimos por fim, vedar todo o lote. Entretanto, há dois meses atrás, o meu engenheiro informou-se que os marcos – que demarcam para o eucaliptal – tinham sido tirados, bem como a rede. Curiosamente fomos encontrar novos marcos, “aparentemente” no nosso terreno, ou seja, naquilo que nos foi vendido e que supostamente seria da Junta de Freguesia».

O caso chegou à GNR, onde apresentou queixa por roubo, invasão de propriedade e vários danos, e apesar de não ter provas para acusar quem quer que seja (…) «tenho suspeitas. Se os meus suspeitos, sublinho, forem uma entidade pública, e se em Arganil pensam que podem tratar as pessoas como se estivessem na Idade Média, se isso for verdade, penso então que aqui em Arganil estão num mundo ao contrário, porque até quando colocaram os marcos, se fossem pessoa de bem, tê-lo-iam feito na presença do proprietário da empresa.

«Se posso considerar que foi a Junta que teve uma acção intimidatória? Considero!»

Que fique claro: Venho dum país onde existe Máfia, mas não estou para aturar mafiosos. Não posso tolerar isso. Faz parte da minha honorabilidade e de todos quantos trabalham comigo. Repito, nós Ecopipe, não aturamos procedimentos mafiosos. Se querem contestar seja o que for, temos a porta aberta: vêm com a GNR, marcam o território deles, e depois cada um pagará o que for devido, até porque convém apurar se se tratou de uma venda falsa. Mas actuarem desta maneira é revelador de uma falta de democracia impressionante e é uma atitude vergonhosa».

Ofendido, o empresário não tem dúvidas quanto ao procedimento a ter. «A GNR só tem que fazer uma pergunta à Junta: “foram vocês?” Repito, não estou a acusar ninguém, mas não deixa de ser uma hipótese, que para mim, sublinho, é quase concreta. Se as minhas suspeitas tiverem consistência têm-na, se não tiverem peço desculpa».

Tommaso Tomaiulo chega a admitir que a Junta de Freguesia queira ver anulada a venda daquele pedaço de terreno, (…) «mas tem que ser pelos meios legais» ou seja (…) «tem que resolver o assunto com a Câmara, que foi a entidade a quem adquiri o terreno. Se venderam o que não era deles, esse é um assunto que não me diz directamente respeito. Aqui, a vítima sou eu e são os trabalhadores da Ecopipe.

Eu comprei de boa-fé, mas se há um erro e se há lesados, a resolução não pode, nunca, ser feita desta forma, tanto mais que, sendo representantes do povo, não podem agir assim. Somos cidadãos, não somos súbditos. Não aceito este procedimento, seja de quem quer que o tenha feito».

«Lamento que a Câmara não tenha sido capaz de, em dez anos, resolver um assunto tão simples quanto este»

«Senti-me e sinto-me muito mal tratado. O grande problema aqui é o método e a intimidação. Sempre acreditei que tudo tem que ser submetido à Lei, e no caso tenho todos os registos. Se houve um erro, então foi um erro clamoroso», sublinha.

Sem nunca ter conseguido uma reunião a três [Ecopipe, Câmara e Junta] para esclarecer o assunto (…) «e no caso estamos a falar de uma parcela cujo valor é “miserável”», o empresário lamenta a falta de vontade das outras partes em resolver o assunto (…) «a conclusão a que chego é que a Câmara não fez um bom trabalho. Resta-me saber se a culpa é do presidente ou dos serviços da autarquia. Lamento que a Câmara não tenha sido capaz de, em dez anos, resolver um assunto tão simples quanto este. Mais grave, também não foi capaz de resolver o assunto com a Junta de Freguesia, e colocou-me no meio desta embrulhada».

Nas declarações que proferiu à A COMARCA Tommaso Tomaiulo lamenta por isso a passividade da do Executivo da Câmara Municipal de Arganil (…) «que se limitou a “assistir” e não tentou resolver o problema que estava em cima da mesa. E não posso estar satisfeito com a Junta de Freguesia nem com o trabalho da Câmara».

«Nunca me passou pela cabeça poder haver este tipo de atitude, digna de trogloditas. Desta forma leva-me a acreditar que existe um salto cultural invertido. Parece que retrocederam 400 anos, mas eles não são os “senhores da terra”. Estão ao serviço dos cidadãos», acrescenta ainda o empresário, que se socorre dum adágio italiano para dizer o que lhe vai na alma. «Na minha terra há um ditado que diz: “A pensar mal faz-se pecado”.

«Deixo para o vosso juízo quem é o maior culpado desta situação. Se me perguntarem se fui bem servido? Não! Se posso considerar que foi a Junta que teve uma acção intimidatória? Considero! Se considero que não existe este tipo de acção em qualquer parte do mundo que não seja da Máfia? Considero! Só que a Máfia actua de noite, às escondidas».

A concluir, Tommaso Tomaiulo só quer que o próximo Executivo da Câmara encare este tipo de problemas (…) «com mais legalidade e acima de tudo que sejam mais democráticos, e não faça como o actual, que nunca obtive qualquer resposta de Ricardo Pereira Alves para solucionar o assunto»

“Crise” atirou ECOPIPE para o “lay-off”

A ECOPIPE constrói tubagem de grande diâmetro em aço, cuja utilização passa pela condução de água, consolidação de terrenos e/ou fundações de pontes e portos, entre outras aplicações.

A produção é direccionada ao mercado português, e embora a localização da fábrica permita abranger o mercado da Península Ibérica, Tommaso Tomaiulo salienta que a crise condicionou de sobremaneira a produção, estando actualmente a trabalhar (…) «onde se pode», apesar de reconhecer que a “centralidade” de Arganil pesou na decisão da instalação da unidade fabril.

O empresário italiano lamenta a perda dos benefícios fiscais para a interioridade que na altura da instalação da fábrica existiam (…) «mas que foram cancelados», com as imposições da “troíka” ao Governo de Passos Coelho, admitindo que perdeu muito com essa situação, obrigando a empresa a entrar em “lay-off” (redução temporária do período normal de trabalho), situação que Tommaso Tomaiulo garante terminar este mês. «Em Outubro teremos mais trabalho», permitindo recuperar a actividade. E ainda que a actual situação económica de Portugal seja favorável, o empresário é prudente, e com alguma ironia afirma que (…) «já não acredito nada. Fico à espera», sublinha.

«É preciso criar condições para que novas empresas se instalem»

Na última sessão da Assembleia Municipal de Arganil – da actual legislatura autárquica -, o ainda presidente da Câmara admitiu que a “desertificação” que se regista no concelho não se deve ao desemprego, mas sim à diminuta natalidade.

Ricardo Pereira Alves assegurou aos deputados municipais que (…) «o nosso problema tem a ver com a questão do saldo natural, já que nasce muito menos população em relação aos óbitos registados, mas também a capacidade de retenção», disse, aludindo ainda que, e à semelhança do que se passa em Arganil, houve 200 concelhos no país que perderam população entre 2001/2011.

Em jeito de “recado”, o autarca que é primeiro candidato à Assembleia Municipal pelo PPD/PSD nas eleições do próximo domingo, dia 1 de Outubro, reconheceu que para combater o despovoamento (…) «é preciso criar condições para que novas empresas se instalem, para que novos investimentos possam surgir». «Este é o problema que é preciso corrigir», avisou.