
Há uns anos e com o título “Excesso de zelo ou zelo em excesso?”, escrevíamos uma nota a propósito de alguém que, investido de autoridade(!), andava por aí numa famigerada caça à multa que, muitas vezes e tempos depois, chegava pelo correio à casa das pessoas que, tantas vezes estupefactas, não sabiam ou não se lembravam da infracção cometida mas que, contrariadas e de má vontade, acabavam por pagar para não terem mais aborrecimentos.
E isto faz-nos recordar um pouco o que se passa hoje, não com as multas de trânsito, mas com o pagamento de taxas pelo facto de as pessoas não terem pago, em devido tempo, as facturas da água e da luz, do telefone, de um qualquer imposto porque não receberam a carta que foi devolvida e porque, na morada, não constava o número da porta!!!
Mas mais, há pessoas que estão à espera de documentos importantes e necessários que deveriam ter chegado e não chegam, reclamam e ninguém sabe por onde andam, porque falta… o número da porta.
E o que dizer então do nosso jornal? São constantes as reclamações que nos chegam de assinantes a dizerem que há duas ou três semanas não recebem A COMARCA. Indignada, uma assinante dizia-nos pelo telefone que não recebia o nosso jornal há duas semanas, não sabia porquê, o carteiro passava todos os dias à sua porta, era “um escândalo, (…) é vergonhoso”, dizia ela e nós fomos descobrir que afinal na sua morada… faltava o número da porta.
E mais, e mais… E por isso hoje não dizemos “Excesso de zelo ou zelo em excesso?”, mas temos que dizer “Excesso de zelo… ou falta dele?”, porque é no mínimo incompreensível que de um momento para o outro e sem que para isso fossem devidamente informadas, as pessoas deixassem de receber a correspondência porque, na sua morada, falta… o (famigerado) número de porta.
Não sabemos, mas gostávamos de saber, de quem é a culpa, quem são os verdadeiros culpados desta situação. O que sabemos é que no nosso caso, temos de pagar os portes aos Correios para que o nosso jornal seja distribuído, mas mesmo assim isso não acontece com prejuízo não só para os nossos assinantes com a assinatura paga, mas principalmente para nós que, impotentes, não sabemos o que fazer para inverter a situação.
Não temos nada contra a falta de números de porta ou falta de nomes nas ruas, porque sabemos que facilita quem faz a distribuição de correspondência, principalmente para quem é novo neste trabalho, o que estamos contra é esta “revolução” que, sem qualquer informação ou prazo, de um dia para o outro prive as pessoas de um direito há muito adquirido (e pago) de receber em suas casas a correspondência que lhes é dirigida.
Os nomes de ruas, os números de portas, dizemos nós, não são com certeza atribuídos por uma qualquer pessoa, devem ser atribuídos e aprovados pelas autarquias, pensamos nós, agora até que ponto isso decorre da lei, se a lei é cumprida ou não, não sabemos, o que sabemos é que a confusão está instalada sem que encontremos a resposta adequada para resolver uma situação que nos afecta a todos nós. E que pensamos ser incompreensível e até impensável nos tempos que correm.
Mas mais do que a nossa opinião, a opinião (e até revolta) que nos chega através das notícias enviadas pelos nossos assinantes, há dias foi das Medas (Coja), ao dizerem que “todo o correio destinado à aldeia de Medas, tem sido devolvido pelo facto de nesta localidade não existir nome de rua e número de porta.
É de lamentar que esta aldeia, da União de Freguesias de Coja e Barril de Alva, se encontre nesta situação e os CTT terem de agir desta forma tão radical para que algo seja feito.
Solicita-se que com máxima urgência, seja feito o necessário para que os eleitores desta aldeia não continuem sem o tão necessário correio físico”.
Agora uma outra notícia nos chega de André Costa e que diz, “venho, por este meio, informar que várias aldeias da União de Freguesia de Cepos e Teixeira, no concelho de Arganil, desde o início deste mês de Julho, se encontram actualmente sem serviço de correio, por decisão da empresa CTT – Correios de Portugal. Uma vez que os CTT se recusam a assegurar a distribuição postal na zona, alegando o facto de não existiram número de porta atribuídos e nomes de rua, ou seja, uma toponímia oficial. No entanto, durante décadas o serviço foi prestado sem que esta situação fosse problema. Acresce que as populações não são responsáveis por essa situação, pois é da responsabilidade das autarquias a criação da toponímia.
Esta situação está a causar sérios transtornos à população, que é maioritariamente idosa, nomeadamente no acesso a correspondência essencial, como documentos oficiais, faturas e notificações. Trata-se de um problema grave que afeta diretamente os direitos dos cidadãos e compromete o normal funcionamento da vida quotidiana da comunidade.
A Junta de Freguesia só agora é que está a iniciar o processo de definição de uma toponímia para as várias aldeias. Sendo que o atual presidente de junta é autarca nesta freguesia há 28 anos, tendo sido alertado durante anos para esta situação e também o Município de Arganil, que ignora estes territórios mais isolados do concelho.
Dada a relevância e o impacto social desta situação, solicitamos que A COMARCA DE ARGANIL considere a realização de uma reportagem ou notícia sobre o tema, de forma a dar visibilidade ao problema e pressionar as entidades competentes a encontrar uma solução”.
E aqui estamos, como nos compete, a cumprir a nossa obrigação. A denunciar uma situação para que, quem de direito, encontre uma solução, porque ontem como hoje, A COMARCA procurou sempre combater o bom combate na defesa das grandes ou pequenas causas, na defesa dos interesses das pessoas e da região que sempre procurou SERVIR.
A nossa homenagem aos antigos carteiros
E perante esta triste (e vergonhosa) situação e sem deixar de respeitar ou reconhecer o trabalho dos actuais distribuidores, hoje não podemos deixar de recordar e homenagear antigos e saudosos carteiros como foram Artur Marques, Pedro Moreira, Manuel Marques Gama, Manuel José Souto Gama (Zé Lindo), Horácio Ladeira, António Henriques, de entre tantos outros, que a pé ou de bicicleta, à chuva ou ao sol e durante muitos anos, percorreram as nossas terras a levar às pessoas as boas e más notícias. E quer estivessem ou não estivessem em casa, a correspondência não deixava de ser entregue porque as portas, mesmo sem número ou nomes de rua, estavam sempre abertas para o amigo que chegava e em quem podiam confiar.
O carteiro era o amigo que estavam à espera, até um confidente, era um amigo que sem prejuízo da profissão, era capaz de levar ou trazer um recado ou de tratar de qualquer assunto particular porque mais do que a profissão, era uma missão que abraçavam por paixão. Eram um exemplo, infelizmente esquecido, no cumprimento daquele que era um verdadeiro e autêntico serviço público, como e em nossa opinião, deveria ser (e como foi no passado dos melhores do Mundo) o dos Correios de Portugal.

