REGIÃO: INCÊNDIOS NO PAÍS E NA NOSSA REGIÃO “Estamos em guerra…”

“Estamos em guerra”, foram palavras do Primeiro Ministro, Luís Montenegro, ao referir-se à situação, calamitosa, dos incêndios florestais que assola o país e a nossa região.

E não deixam de ser as palavras certas, “estamos em guerra” e numa luta que parece não ter fim à vista para vencer a batalha perante um inimigo muito perigo que, à sua passagem e tantas vezes perante a impotência dos combatentes, tudo leva à sua frente destruindo florestas, casas, campos agrícolas, animais e mesmo pessoas, como voltou a acontecer desta vez com um bombeiro da Corporação da Covilhã. Já para não falar nos feridos.

Dramático, verdadeiramente dramático, o que se passou nas últimas semanas no país e há mais de uma semana na nossa região. Referimo-nos aqui e mais concretamente ao nosso concelho, com o incêndio que na quarta-feira, de madrugada, dia 13, começou no Piódão, talvez provocado por uma trovoada seca que se abateu pelo território e que não mais parou.

Da freguesia do Piódão estendeu-se às freguesias de Pomares, da Benfeita, Moura da Serra, andou pela Mata da Margaraça, ultrapassou fronteiras para os concelhos vizinhos de Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, depois Covilhã e Fundão, ameaçou aldeias, destruiu muitos milhares de hectares de floresta. Gritos e mais gritos, momentos dramáticos vividos pelas populações impossíveis de descrever, que pediam meios e mais meios… mas os meios eram poucos, muitos poucos, para acudir a tantas necessidades.

E a dificultar ainda mais tudo isto, os acessos a locais onde era mesmo impossível chegar. Só quem conhece as nossas terras e as nossas serras. Não vamos aqui discutir se eram bem geridos, ou não, os meios disponíveis que havia, ou há, para uma situação de catástrofe como a que se vivia, isso deixamos para os “especialistas” – e tantos são – que num gabinete lá longe e na frescura do ar condicionado, mesmo nas televisões, “debitavam” opiniões, acusavam, mas estavam longe, muito longe, do calor das chamas, daqueles que nestes momentos mais precisavam de ajuda.

Os bombeiros eram poucos, muitos poucos para a dimensão de todos estes fogos. Mas se não fossem os bombeiros, verdadeiros heróis, ajudados pelos meios aéreos, pelas populações, por mutos voluntários, se tragédia é grande muito maior seria. Uma tragédia vivida quase em directo pelas televisões. E também não vamos aqui dar a nossa opinião sobre o trabalho daqueles que, no terreno, deram o melhor de si para levar aos outros o que se estava a passar, mas não podemos deixar de referir a preocupação de alguns em tornar ainda mais trágica a tragédia que se vivia. E isto porque as imagens (tristes imagens) vendem…

Falar de prejuízos, do trabalho de tantos consumido pelas chamas, da destruição da nossa Natureza, é quase impossível, é ver para crer, porque e como ouvimos há muitos anos um grande (e saudoso) comandante de bombeiros, quando um incêndio atinge determinadas proporções é impossível o seu combate por qualquer força humana. Como tem acontecido, sem deixar de haver a preocupação primeira de salvar as aldeias, as vilas, mesmo as cidades, como aconteceu em 2017, com as chamas a entrarem em Oliveira do Hospital.

Mas depois disso, dessa grande tragédia, parece que pouco ou nada se aprendeu e até há quem diga que esta onda dos incêndios é cíclica. Não acreditamos nisso, como não acreditamos que os fogos apareçam por obra e graça, com excepção de alguns como foi o do Piódão. Tantas plantações foram feitas, tanto se falou e alguma coisa tem sido feita em reflorestação, mas o que é facto é que a floresta continua a arder.

E de quem é a culpa? Dos Governos que não tomam as medidas necessárias, de terem ou implementarem uma política que, de uma vez por todas, seja capaz de meter na ordem a desordem que desde há muitas décadas existem na nossa floresta, ou dos proprietários que não limpam, que não cuidam daquilo que é seu e que até seguem o exemplo do próprio Estado? Uma interrogação sem resposta ou difícil de responder.

O que é difícil, muito difícil, é falar no que fica reduzido a cinzas. É falar no drama, nos momentos de aflição das pessoas estão ou correm risco de vida, pela perda dos seus bens, das suas casas, do suor de muitos anos de trabalho e que desaparecem de um momento para o outro sem que haja seguro que as pague. Porque o seguro não paga tudo, pode quando muito atenuar prejuízos, mais uma vez incalculáveis no país e na nossa mártir região.

E as sequelas nefastas que ficam nas pessoas, novas e menos novas, que tiveram de ser evacuadas das suas casas, das suas aldeias, sem saberem o que iam encontrar ao regressarem. Mas as vidas estão primeiro e, mais uma vez, a solidariedade, o trabalho das forças de segurança, das IPSS’s, dos voluntários, que com carinho e generosamente, acolheram e acolhem todos aqueles que precisam. E foram tantos.

É verdade que é sempre muito grande a generosidade também para com os bombeiros, trazendo água, leite, comida e até palavras de conforto para aqueles que, tantas vezes, injustamente, são acusados de situações de que não têm culpa nenhuma. Mas essa generosidade, importante, só não chega. Diz o ditado que “em tempo de guerra não se limpam armas”. E temos vivido tempos de uma autêntica guerra, “estamos em guerra”, como diz o Primeiro Ministro, onde se instala a confusão, onde “todos ralham e ninguém tem razão”, faltando muitas vezes a serenidade para enfrentar o problema, que se vai repetindo, que se continua a repetir, é notícia, faz manchetes, horas a transmitir a mesma imagem, alimenta as redes sociais e se esquece quando começa tudo a estar queimado ou quando acontece o milagre de caírem as primeiras chuvas a apagar as raízes que continuam a arder…  na terra queimada.

É triste e desoladora a paisagem que fica depois dos incêndios. E não é preciso correr muito, basta passar pelo alto concelho de Arganil, pelos concelhos vizinhos de Oliveira do Hospital, de Pampilhosa da Serra, depois da Lousã, chegou a Góis que, pela situação que se vivia, levou mesmo ao cancelamento  (e bem) por precaução da Concentração Internacional de Motos (notícia noutra local da presente edição), ao cancelamento da festa do Mont’Alto, no dia 15 de Agosto, das Festas do Concelho de Pampilhosa da Serra, “o que implica também o cancelamento obrigatório de todas as festas previstas em diversas aldeias do concelho até esse dia”.

Em cada Município, Arganil, Góis, Pampilhosa da Serra, Lousã e outros, mesmo a nível distrital e nacional, foram accionados os mecanismos para situações de emergência, de calamidade e que levam a concentrar todos os esforços e recursos na salvaguarda de pessoas e bens, permitindo também o accionamento dos meios, públicos e privados, necessários para responder às necessidades. E como dizemos acima, não chegaram e não chegam para tantas solicitações. E por isso, eram e foram mais que muitas as críticas de autarcas, das pessoas que não tiveram junto a si um bombeiro. Percebemos a aflição, o que não percebemos é que, como vimos e ouvimos, se façam aproveitamentos políticos e outros da desgraça que se viveu e se vive e não se tirem as devidas ilações que possam um dia senão a resolver, pelo menos a atenuar a tragédia dos incêndios.

Muito mais teríamos para dizer, mas por agora ficamos por aqui, porque é difícil, muito difícil neste momento fazer o balanço de uma tragédia que ainda não chegou ao fim. Sabemos e reconhecemos a dor das pessoas. Sabemos e reconhecemos os momentos de aflição que passaram e estão a passar. Sabemos e reconhecemos a sua impotência perante um inimigo impossível de enfrentar e combater e por isso entendemos não ser necessário, neste momento, ouvir esta ou aquela pessoa, este ou aquele responsável político, apenas não podemos deixar de fazer nossas as palavras de alguém ao enaltecer “o empenho, o altruísmo e o profissionalismo com que, diariamente, milhares de bombeiros em todo o país se dedicam, com coragem e entrega, à defesa das populações e da floresta contra os incêndios” e de pedir às autoridades que mandam no país que não esqueçam todos aqueles que, mais uma vez, ficaram sem nada, que não esqueçam os concelhos onde agora resta apenas… a terra queimada. É o mínimo.

 Basta de fogo, basta de estradas cortadas, basta tantos gritos, basta de tragédia também vivida por tantos dos nossos emigrantes que vieram para passar as suas férias, descansados, para matar saudades e para o reencontro com as famílias e com os amigos e que, afinal, acabaram por se deparar com muitas das suas terras a arder. O Verão ainda está longe de chegar ao fim, mas resta-nos a esperança que S. Pedro seja generoso e abra as torneiras do céu para refrescar o inferno que se tem vivido na terra.