
De 10 a 16 de Novembro, assinala-se a Semana da Sensibilização para a Malnutrição, uma iniciativa pioneira integrada na campanha internacional ONCA/ESPEN Malnutrition Awareness Week, que celebra este ano a sua 7.ª edição e cuja abertura foi recebida em Vila Nova de Gaia, presidida pela Ministra da Saúde, Ana Paula Martins.
Organizada pela Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica (APNEP), a Semana de Sensibilização para a Malnutrição que tem como objetivo alertar para a importância da nutrição clínica no tratamento de doenças e na recuperação dos doentes, educando pacientes, cuidadores e profissionais de saúde, decorreu sob o mote “Malnutrição: Não basta diagnosticar, é preços tratar”, numa acção conjunta com o apoio do Ministério da Saúde e de várias Sociedades Científicas Portuguesas, incluindo a Sociedade Portuguesa de Nefrologia e que reforça a importância de detectar, tratar e prevenir a malnutrição em contexto hospitalar, ambulatório e domiciliário.
“Tolerância Zero à Malnutrição”, é o desafio lançado incentivando todos os profissionais de saúde, doentes e cuidadores a estarem atentos ao estado nutricional, essencial à recuperação e qualidade de vida, porque a nutrição é parte integrante o tratamento.
E depois de Vila Nova de Gaia, foi um pouco de tudo isto que, na terça-feira, insígnes médicos especialistas nacionais e internacionais vieram dar a conhecer à Santa Casa da Misericórdia de Arganil, aos convidados, aos técnicos e funcionários da instituição, representantes de instituições, “é um privilégio enorme receber o segundo momento a nível nacional da Semana da Malnutrição aqui neste território arganilense. Esperemos estar à altura do desafio”, disse o vice-provedor, Nuno Gomes, destacando ainda o papel da Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica, “aqui representada pelo Dr. Aníbal Marinho, que ao longo dos últimos anos tem sido incansável na promoção das questões da nutrição para a saúde e bem-estar dos cidadãos. Portugal tem sido um exemplo e uma referência nesta área”.
O director clínico da Santa Casa da Misericórdia de Arganil, dr. Paulo Lopes, começou por agradecer ao provedor e vice-provedor “porque prontamente acolheram este evento e prontamente reconheceram a importância de abordar a malnutrição e a sua prevalência no Lar e na Unidade de Cuidados Continuados”, para salientar depois que “a malnutrição é um problema que afecta cerca de 35% dos utentes que entram no Lar. Portanto, 1 em cada 3 utentes que entram no Lar estão malnutridos”, dando a conhecer que “a malnutrição é uma doença em que há uma perda de peso de forma involuntária, portanto, a pessoa perde peso sem querer, de forma não intencional e principalmente na forma de músculo, (…) a pessoa vai perder músculo” e “isto resulta de doenças que podem surgir com a idade, pode surgir também por causa de uma diminuição da ingestão alimentar, mas também pode surgir simplesmente porque a pessoa é idosa ou tem mais de 80 anos. Isto tudo pode ser causa realmente de malnutrição. Pode acontecer em qualquer faixa etária, desde crianças até adultos até idosos”.
“Quais as consequências da malnutrição?”, interrogou o dr. Paulo Lopes, acrescentando que “tem muitas consequências e daí estarmos a organizar esta Semana, e daí termos esta iniciativa, A malnutrição aumenta o risco de infecções e de outras doenças associadas, portanto, uma pessoa malnutrida vai ter maior prevalência de pneumonia, de infecções urinárias, (…) aumenta e dificulta a cicatrização de feridas, dificilmente vai cicatrizar uma ferida. A malnutrição aumenta as necessidades de fármacos, de tratamentos, de intervenções médicas. Aumenta também o tempo de internamento a nível hospitalar”, causando por isso “também aumentos de custos no sistema de saúde, vai causar aumento da mortalidade, pior qualidade de vida”.
“Isto é um dado muito importante e é importante termos esta noção. E daí estarmos a organizar isto aqui hoje num Lar, numa instituição como esta, que tem uma Unidade de Cuidados Continuados”, considerou o director clínico, sem deixar de acentuar que “a malnutrição é prevenível e é tratável se a formos apanhar atempadamente. (…) Para tratarmos a malnutrição a pessoa tem que comer mais, tem que comer mais calorias, tem que comer mais proteínas e esta necessidade calórica pode aumentar até ao dobro. Pode ser necessário comer o dobro das proteínas de um idoso normal, de peso normal. Outro pilar fundamental do tratamento é que a pessoa tem que ganhar músculo (…) com actividade física, nomeadamente atividade física de musculação. Portanto, são dois pilares fundamentais no tratamento da malnutrição”, terminando por referir que “estamos na Semana de Malnutrição cujo objetivo é sensibilizar para os cuidados nutricionais, especialmente nessas instituições”.
O Professor Dr. Jorge Fonseca, uma referência pela investigação e prática clínica em doenças do foro digestivo e metabolismo nutricional, com especial enfoque na avaliação nutricional, começou por referir que “nós estamos desde o século passado a lutar contra a malnutrição (…) e temos muitos, muitos anos disto. (…) Nós éramos empenhados, éramos bons, víamos a medicina a evoluir, tratávamos bem os nossos doentes, cuidávamos deles, estávamos atentos, fazíamos bons exames, bons diagnósticos, boas farmacoterapias, o dr. António Oliveira operava bem os doentes, mas depois olhávamos para eles e eles não melhoravam. E o que nós nos apercebemos, a dada altura, é que os hospitais estavam pejados de umas pequenas criaturas, uma espécie de uns gnomos, uns ninjas, que durante a noite saiam dos buracos do chão (…) e maltratavam os nossos doentes. A gente dava-lhes bons medicamentos, dava-lhes boas cirurgiões e os doentes não melhoravam, porque alguma coisa os maltratava. Esta alguma coisa é malnutrição. Isto é uma doença terrível. Nós falamos de malnutrição, mas não tínhamos uma análise ao sangue, uma radiografia, alguma coisa que possa dizer-nos que este doente está internado porque sofre de malnutrição. (…) Isto era absolutamente terrível. (…) E quando não curamos, sentimo-nos frustrados”, terminando por dar a conhecer que “a maior causa de imunodeficiência do mundo é a malnutrição, (…) uma realidade que há muitas décadas que procuramos reverter” e por deixar o apelo “temos que nutrir os nossos cidadãos. (…) É preciso nutrir a nossa população. É preciso nutrir os idosos mais frágeis”.
E depois do Professor Michael Hiesmayr, médico austríaco, investigador académico, reconhecido internacionalmente como fundador e coordenador do projeto Nutrition Day, uma das maiores iniciativas mundiais de monitorização e sensibilização sobre a malnutrição, ter dado a conhecer a realidade europeia sobre a doença e sobre o seu projecto e toda “a pirâmide de responsabilidades é importante para provar um tratamento adequado e para suportar, (…) nós estamos muito felizes por ter um país tão forte contribuindo para o projecto”, o Doutor António Oliveira, médico especialista em cirurgia geral e uma figura de destaque na nutrição clínica em Portugal, referiu que “nós temos uma pirâmide invertida e portanto temos, obviamente, pessoas cada vez mais doentes, cada vez mais idosas a serem sustentadas com alguns fármacos e com cuidados cirúrgicos”, em que “o cirurgião fez tudo bem, mas a verdade é que o doente não ajudou porque estava desnutrido foi porque alguém não o identificou e não o tratou convenientemente no pré-operatório, não lhe deu a atenção necessária. E, felizmente, hoje em dia nós temos alguns programas de reabilitação e de preabilitação dentro dos hospitais e fora dos hospitais, nestas Misericórdias que tão bom serviço prestam e que estão à espera até de melhoria. (…) Há muitas ferramentas hoje em dia que dá para identificar estes doentes com facilidade e acompanhá-los, que eu acho que é o mais importante”.
O presidente do Secretariado Regional de Coimbra da União das Misericórdias Portuguesas, dr. António Sérgio Martins, depois de considerar “a Misericórdia de Arganil é claramente uma lufada de ar fresco (…) porque protege, cuida, naturalmente, mas ao mesmo tempo reconhece todos aqueles que ao longo destes anos foram sobressaindo nesta notável acção e, ao mesmo tempo, estes temas que são tão atuais, trá-los à primeira linha, na primeira pessoa e trá-los à Arganil”, referiu-se “às enormes dificuldades que nós temos para manter uma estrutura humana o mais polivalente e diversificada possível”, mas o “compromisso do Estado Central que não corresponde àquilo que todos nós desejamos”.
“É uma honra estar aqui porque não estamos numa Misericórdia qualquer, estamos numa Misericórdia que faz aquilo que no seu compromisso há mais de 500 anos está instituído”, disse António Sérgio Martins, deixando uma “palavra de gratidão e satisfação que eu queria referir pela capacidade de trazer à Arganil este vastíssimo conhecimento científico e, sobretudo, num assunto que é tão pertinente e tão actual. (…) E, por isso, é que as instituições com esse grau de responsabilidade e oportunidade foram dotando os seus quadros, cada vez mais, nestas áreas tão importantes (…) não só na área da saúde, mas também das outras, para que todos, em conjunto, possamos combater estas preocupações e estes desafios que diariamente nos entram à porta”.
E depois do vereador da Câmara Municipal, Rui Silva, ter enaltecido a Misericórdia por trazer “esta questão da malnutrição, (…) e nesta preocupação, acima de tudo, cai também a responsabilidade das autarquias”, o Professor Dr. Aníbal Marinho, médico especialista em Medicina Intensiva e uma das figuras mais ativas em Portugal na promoção da nutrição clínica e do suporte nutricional em doentes críticos”, recordou todo o trabalho que tem sido feito para sensibilizar os responsáveis governamentais para o problema da malnutrição que existe no país, “e a verdade é que temos conseguido mudar a realidade portuguesa, (…) é esse o meu grande esforço, é tentar ao máximo mudar esta realidade, (…) nós temos que olhar para estas pessoas. Temos de dar qualidade de vida aos idosos”.
O Professor Aníbal Marinho deixou ainda algumas críticas “estou farto de ver a passadeira vermelha a esse jet set podre que não nos interessa para nada. Interessam-nos é pessoas que queiram mudar a realidade deste país. É pessoas que se ocupam com os idosos”, terminou por referir que “nós estamos aqui para vos ajudar, e vamos tentar ao máximo ajudar-vos, (…) porque eu também estou a ficar idoso e também quero ter qualidade de vida. Muito obrigado”.
O provedor, António Carvalhais da Costa, encerrou a sessão referindo que “para Santa Casa da Misericórdia é um privilégio, é um privilégio para Arganil e para a região receber esta elite de médicos que nos esclarecem no tema da malnutrição”, deixando o apelo aos presentes para levaram “para casa, para o vosso círculo de amigos, aquilo que ouviram hoje, que é importante”, terminando com “o meu obrigado pela luta que fazem em defender a causa desta instituição”.

