
Estamos a poucos dias das eleições presidenciais, e, volvidos quase 52 anos de vida da democracia portuguesa, nunca os cidadãos eleitores estiveram, aparentemente, tão divididos na entrega dos respetivos votos.
Diariamente, com especial incidência nos últimos dias, somos bombardeados pelas sondagens, agora revestidas com um estrangeirismo que as apelida de “Tracking Poll”, por via da qual assistimos a um empate técnico entre cinco dos candidatos, e pela leitura das mesmas, qualquer um desses pode vir a ser eleito Presidente da República Portuguesa.
André Ventura, António José Seguro, Henrique Gouveia e Melo, João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes, disputam entre si, com maior ou menor distância, a passagem à segunda volta, pois parece que nenhum será eleito com mais de 50% dos votos no próximo dia 18 de Janeiro. Sinais dos tempos!
Contudo, nestas eleições presidenciais não são apenas cinco os candidatos, são antes onze (11) e teremos ainda um boletim de voto com catorze (14) nomes para eleger, dos quais três (3) foram excluídos mas ainda constam nesse papel. Sinal da habitual capacidade de organização e planeamento dos portugueses. Na realidade, sempre fomos melhor a improvisar!
No entanto, não posso deixar de fazer uma reflexão prévia, antes de me alongar nesta Nota da Semana e essa é a de que para aqueles comentadores que acham engraçado e interessante a presença de um candidato, legítimo entenda-se, como o Manuel João Vieira, não podem depois queixarem-se de que existem partidos ou políticos populistas.
Com efeito, Manuel João Vieira, depois de reunir as 7500 assinaturas necessárias, e depois destas terem sido validadas pelo Tribunal Constitucional, tem toda a legitimidade para se apresentar às eleições.
Contudo, já não há legitimidade, por parte de alguns comentadores políticos da televisão pública (RTP), para lhe ser atribuída uma análise benevolente e simpática, quando esse mesmo candidato representa o descrédito de todo o sistema político nacional e o expoente máximo do mais básico populismo, encoberto por uma capa de humor! Ou pior, disfarçado de uma alegada intelectualidade artística que tudo justifica nas propostas descabidas que apresenta!
E digo isto, porque quando um comentador, pago com dinheiro dos contribuintes (RTP), vem defender tal candidato, não pode, em momento algum, referir que partidos com assento na Assembleia da República, ou políticos desta são, ou têm, propostas populistas, quando logo a seguir se defende uma figura como o referido candidato! Há pois que manter coerência nas análises feitas.
Mas adiante!
Agora, gostava de partilhar uma reflexão bem mais importante com os amigos leitores e esta é a de que pelo menos quatro candidatos fizeram referência a duas figuras incontornáveis no panorama político nacional, uma que há muito nos deixou fisicamente, Francisco Sá Carneiro, e uma outra mais recente, Pedro Passos Coelho.
A referência a essas duas figuras revela, acima de tudo, a importância das mesmas na nossa história política nacional e a capacidade mobilizadora que as mesmas ainda possuem para a passagem de uma mensagem destinada a, alegadamente, captar votos para as eleições.
Desde André Ventura e João Cotrim Figueiredo, passando por Henrique Gouveia e Melo, e terminando em Luís Marques Mendes, todos estes fizeram referências a duas personalidades que, por coincidência, ou não, fazem parte da memória coletiva não apenas de um Partido, neste caso PPD-PSD, mas de igual modo do próprio País, independentemente das opções ideológicas de cada um de nós.
Bem andou António José Seguro que preferiu apenas referir que tinha também apoios de pessoas da direita.
Mas voltando ao cerne da questão. Francisco Sá Carneiro, pela dimensão que incorpora, não é apenas uma referência de um Partido, é antes uma referência de uma ideia para o País, razão pela qual, fazendo parte do património histórico do PPD-PSD, é também parte integrante do património coletivo de Portugal, tal como figuras como Mário Soares, Ramalho Eanes, Adelino Amaro da Costa, Álvaro Cunhal, Fernando Valle, e tantos outros.
Identificar qualidades e atributos nessa figura, para além de sinal de respeito, é acima de tudo reconhecer ainda, a falta de desígnios nacionais que devem mobilizar os portugueses para a construção de um futuro melhor. E a melhor declaração de Francisco Sá Carneiro, apesar de morto fisicamente, é a de que ao ser revisitado está-se a recordar que o País, infelizmente, ainda não cumpriu a sua história.
Por outro lado, Pedro Passos Coelho, por muitos odiado e por outros admirado, desempenhou uma missão que foi essencial e que hoje, em tempos de incerteza, se percebe melhor o impacto da sua ação aquando da presença da “TROIKA” em Portugal.
Sendo neste caso em particular, bastante ruidosa a sua ausência na campanha do PPD-PSD, e é pelo silêncio (pelo menos até ao momento em que redijo esta nota) que tem feito a sua maior declaração politica.
Pedro Passos Coelho aí está, como sempre esteve nos últimos anos, presente através de um silêncio que gela grande parte da máquina partidária do PPD-PSD, especialmente aquela que navega sob os auspícios políticos do chamado “centrão”.
Apesar de ter optado pelo afastamento do mundo politico, Pedro Passos Coelho sabe que esse mesmo mundo não se afastou dele, e muito menos se afastou dos cidadãos eleitores, pairando como se soubéssemos todos que, mais dia, menos dia, terá que regressar! Tenho para mim, e apenas para mim, que Pedro Passos Coelho não se identifica com nenhum dos quatro candidatos que a ele se referiram… a seriedade do mesmo empurra-o para outro lado! Estranho? Nem por isso, a seriedade diz tudo.

