
Começou a segunda volta das eleições presidenciais, algo que não sucedia há 40 anos, e desta vez com o embate entre António José Seguro e André Ventura, que tiveram, respetivamente, 31,11% e 23,52% dos votos expressos.
Perante esses resultados, pode-se dizer que António José Seguro, que conta com o apoio declarado do Partido Socialista (PS), embora algumas das suas figuras mais destacadas tenham tido enormes pruridos em fazê-lo, parte com relativa vantagem.
Contudo, se essa vantagem é real, tendo apenas como referência os votos angariados pelo próprio na primeira volta, não é menos verdade que os candidatos que a direita apresentou, André Ventura, João Cotrim Figueiredo e Luís Marques Mendes, representaram 50,8% do total.
Se a essa percentagem de votos que os candidatos da direita recolheram, somarmos parte dos votantes do candidato Henrique Gouveia e Melo, verificamos que há, indiscutivelmente, uma maioria sociológica do espetro que vai do Centro Direita à Direita mais radical em Portugal.
Tal contexto, permiti-nos dizer que o candidato André Ventura tem alguma possibilidade, matematicamente falando, de poder ser eleito nesta segunda volta da corrida para o Palácio de Belém.
No entanto, não creio que assim seja.
Em bom rigor, e apesar de estarmos perante as eleições para a escolha do Presidente da República, estas representam já o arranque para as eleições legislativas, venham elas a ocorrer no prazo estabelecido de 3 anos, ou daqui a pouco mais de 9 meses, isto é, aquando da discussão do Orçamento de Estado para 2027.
António José Seguro, depois da vitória obtida na primeira volta, passou a congregar a esquerda portuguesa, definindo como estratégia de campanha que a sua candidatura é suprapartidária, procurando recolher votos no campo político do centro-direita, ao mesmo tempo de que será um Presidente para todos os Portugueses, muito numa lógica de inclusão de todos.
Por outro lado, apresentará um discurso e uma atuação assente na defesa das Instituições, uma ideia de um País tendo por base uma ideia do “chão comum” e, acima de tudo, tendo como pilar essencial da sua campanha o conceito de que estarão em discussão duas visões para o Regime, uma mais democrática (ideia a defender por António José Seguro) em oposição a uma outra mais autoritária (que será imputada a André Ventura).
Já do lado de André Ventura a visão que será trazida para a sua campanha radicará na essência de que este será um duelo entre a Direita e a Esquerda, sendo inconcebível (para André Ventura e para muitos dos seus eleitores) de que existindo uma maioria sociológica de direita no País, esta não venha a eleger um Presidente da República oriundo dessa campo politico.
Nesse caso, será promovida uma bipolarização ideológica, em que de um lado estarão os socialistas e do outro os não socialistas, ou pelo menos aqueles que não se revejam nos últimos 52 anos do sistema instalado de rotação do poder político (Centrão).
Para suportar o discurso, recorrerá a um conjunto de valores mais conservadores, designadamente a matriz cristã do Estado Nação Português, a sua longa história nacional, a corrupção que o sistema político nacional alimentou e tolerou, sem esquecer a imigração descontrolada associada ao risco de perda de identidade das comunidades locais.
Assim, de um lado teremos um candidato, António José Seguro, que procurará libertar-se das amarras que a esquerda, inclusive a extrema-esquerda, lhe vai criar, manifestando uma postura institucional de forma a não condicionar, pelo menos nesta fase, o Governo em funções, ao mesmo tempo que se apresentará como defensor da democracia.
Do outro lado, teremos André Ventura, que irá transformar esta disputa numa discussão entre os campos da Direita e da Esquerda, salientando que cabe à tal maioria sociológica de direita eleger uma maioria, um Governo e um Presidente da República, cumprindo assim a vontade de Francisco Sá Carneiro, mesmo que a direção do PSD não lhe assegure o apoio desejado.
Para tal, culpabilizará o socialismo pelo atraso do País e a perda de capacidade da sua afirmação no exterior, alicerçada na retórica de que está sozinho, contra tudo e todos, para mudar o sistema que corroeu o Regime Politico Português.
Se não é certo que António José Seguro venha a ganhar as eleições para Presidente da República, embora seja expetável que tal suceda graças ao apoio da direita mais moderada e crente nas virtudes do Regime, certo será que André Ventura, mesmo perdendo, porventura, a segunda volta destas eleições, será sempre um dos vencedores.
Não apenas porque passou à segunda volta, obtendo mais de 1 milhão e trezentos mil votos; não apenas porque ficou acima da percentagem das últimas legislativas enquanto candidato a Primeiro-ministro; não apenas porque alcançou este resultado apenas 6 anos depois de ter criado o partido CHEGA; não apenas porque é o líder da oposição na Assembleia da República; mas acima de tudo porque se assumiu como o líder da Direita que sairá reforçado para impor ao PSD a discussão e disputa da alternativa ao Partido Socialista (PS).
Importa aqui recordar que, em 1986, a disputa Presidencial possibilitou a clarificação da liderança da esquerda em Portugal, e que a vitória de Mário Soares conseguiu a hegemonia do PS na liderança dessa esquerda a nível nacional por várias décadas.
Já as eleições Presidenciais de 2026 possibilitarão a clarificação da liderança da Direita no País, ficando a hegemonia desse espaço político dependente do que irá André Ventura fazer com os votos que conseguir na segunda volta, e se Pedro Passos Coelho regressará, ou não!
André Ventura, quando menos esperavam e vaticinavam que a corrida a Belém era feita pelo próprio a contragosto, voltou a surpreender colocando a nu de que para uma parte significativa dos portugueses lhe é indiferente se este concorre a Belém ou a S. Bento.
Na realidade, para um número cada vez mais significativo dos portugueses, o que lhes interessa é haver uma mudança, sendo-lhes indiferente quem lidera essa mudança e para onde concorre quem lhes apresenta um discurso de rutura com o existente.
O Governo tem agora de fazer pela vida, ou faz reformas rapidamente, ou será reformado pelo partido de André Ventura, ou chama Pedro Passos Coelho, ou o CHEGA tomará conta do eleitorado do PSD!
O Nó Górdio está feito e são muitos poucos a saber desfazê-lo, cabe ainda a Luís Montenegro essa tarefa, mas até quando?

