
Na segunda-feira, a paisagem onde está a ser construído o novo Centro de Saúde já não era a mesma, alguma coisa faltava, era a chaminé da antiga fábrica da resina, em S. Pedro.
Em jeito de brincadeira (ou a falar a sério), não sabemos se foi por causa da tempestade Ingrid ou por outra “tempestade” qualquer, o que sabemos é que em muito pouco tempo, quase de um dia para o outro e sem que as pessoas se apercebessem, a chaminé (da polémica) acabou mesmo por “cair”… e nem os tijolos se aproveitaram!!!…
Mesmo depois dos esforços dos vereadores do Partido Socialista na Câmara Municipal contra o desmantelamento da chaminé da antiga fábrica da resina, mesmo depois de tanta polémica, de tantos comentários nas redes sociais e até na imprensa com as pessoas a manifestarem a sua discordância sobre a demolição desta que foi considerada mesmo um marco da indústria arganilense, nada disso foi suficiente para impedir este “atentado” ao que foi mesmo considerado um património edificado de Arganil.
Não vamos discutir se este património era ou não uma obra de arte, mas não deixava de ser, com certeza, o testemunho de um tempo e de uma indústria que, também ao tempo e pela sua importância, marcou Arganil e o concelho. Durante anos e anos diariamente chegavam à fábrica, vindos de longe e de perto, camions a descarregar a resina recolhida nos pinhais e da qual, depois de um processo de destilação, saíam o pez louro e a água raz com diversas aplicações em sectores industriais e comerciais, nomeadamente na indústria química, de cosméticos de entre outros e que depois, e na sua maior parte, eram transportados, para exportação, para os portos de Leixões e de Lisboa.
Tudo isto (e muito mais haveria a dizer) para recordar apenas que a empresa Mariano Lopes Morgado & C.ª, Lda. foi uma empresa de referência em Arganil, que durante tantos, tantos anos, directa e indirectamente, deu trabalho a tantas, tantas pessoas, contribuiu para o desenvolvimento do concelho e da qual agora nem a chaminé… escapou. Fica apenas na recordação das pessoas mais velhas, porque as mais novas jamais saberão que ali existiu uma grande fábrica de resina, jamais saberão um pouco da nossa história industrial e por isso nos apetece dizer (mesmo apesar de ser uma frase feita) que “sem memória não há futuro”, acrescentando ainda e como alguém escreveu, que “a memória é vista como um pilar essencial para a preservação da sociedade e para a prevenção de erros futuros”.
Nada temos contra o progresso, bem pelo contrário (e pelo qual tanto se bateu o nosso jornal ao longo dos seus 125 anos), mas não podemos deixar de recordar, mais uma vez, um pouco deste processo da chaminé sobre o qual e em reunião do executivo, o vereador Rui Silva manifestava a sua opinião ao dizer que (…) “a bancada do PS na Câmara sempre se opôs à demolição da chaminé e mais, durante o processo sempre defendeu uma intervenção que reforçasse a estabilidade”, acrescentando ainda que (…) “a resposta – por parte do executivo – foi contundente, tudo apontava para a necessidade de demolir a chaminé ao que ripostei estar totalmente em desacordo e que nesta matéria havia solução técnica para salvaguardar a sua estabilidade”.
Na mesma ocasião, através de uma nota de imprensa, o executivo camarário esclareceu que (…) “esta matéria foi amplamente discutida em reuniões de Câmara ao longo do último ano, encontrando-se devidamente registada em actas e documentação oficial. Importa ainda referir que um dos actuais vereadores do Partido Socialista acompanhou todo este processo desde o início, não tendo nunca manifestado qualquer discordância com a solução de demolição por razões de segurança, o que torna difícil compreender a narrativa agora apresentada. (…) Perante a obrigatoriedade de demolição da chaminé — reiterando-se: por razões de segurança de pessoas e bens, num espaço destinado a um equipamento de saúde — subsistem duas opções: construir uma réplica da chaminé existente, ou construir/instalar outra solução diferente que resulte de participação pública. Foi neste enquadramento que o Município decidiu submeter à apreciação da Câmara a demolição da chaminé e, no caso da segunda opção acima referida, a promoção de um concurso de ideias, desafiando arquitectos a apresentar propostas para um novo elemento arquitectónico que marque o espaço e substitua simbolicamente a antiga chaminé, conciliando memória, contemporaneidade e qualidade urbana”.
A nota acrescentava ainda que (…) “nunca foi, nem será objectivo deste executivo destruir o património arquitectónico do concelho. O que não fará é ignorar pareceres técnicos ou colocar em risco a segurança de pessoas e bens. O Município de Arganil continuará a agir com responsabilidade, rigor técnico e respeito pela memória colectiva, colocando sempre o interesse público acima de qualquer outro, sem se deixar condicionar”.
Não sabemos quais os “capítulos” que se seguem deste “episódio”, o que sabemos é que contra factos não há argumentos e o facto… está consumado, sobre o qual e nas redes sociais, sobretudo através do Facebook, os arganilenses (uns contra e outros a favor) vão dizendo de sua justiça e a maior parte não escondem o desagrado com a decisão camarária. O termo mais usado é “vergonha” e “tristeza” pelo desmantelamento da chaminé/património, sendo ainda de recordar que em outras localidades (e até no concelho de Arganil) são vários os exemplos em que aquelas infra-estruturas se mantiveram apesar do seu fim já não ser utilizado, como disso é exemplo também o artigo de opinião de Maria dos Anjos (ver A COMARCA de 22 de Janeiro de 2026).
Mesmo assim e apesar das polémicas, das opiniões, a chaminé da antiga fábrica da resina, em S. Pedro, não passa agora de uma (boa) recordação… à espera que, conforme a nota do executivo camarário, possa vir a ser construída “uma réplica da chaminé existente, ou construir/instalar outra solução diferente que resulte de participação pública”, ou através da “promoção de um concurso de ideias, desafiando arquitectos a apresentar propostas para um novo elemento arquitectónico que marque o espaço e substitua simbolicamente a antiga chaminé, conciliando memória, contemporaneidade e qualidade urbana”.

