
Na tradição religiosa o mês de Maio, em Portugal, é carregado de enorme simbolismo, nomeadamente por força do culto Mariano, marcado pelas diversas peregrinações ao Santuário de Fátima.
Foi no mês de Maio, de 1917, que surgiram as notícias das primeiras aparições aos três pastorinhos e, a partir desse momento, a fé de todo um povo reuniu-se em redor de uma crença que perdura até aos dias de hoje.
Eu próprio, tal como tantos outros portugueses, já percorri os inúmeros KM até ao mais importante santuário do nosso Portugal e não escondo a enorme alegria quando no horizonte, depois de dias a caminhar, se vislumbra a Igreja onde iremos depositar a nossa esperança, ora pagando promessas, ora realizando um tributo a algo maior que vive sob os valores do Humanismo Cristão e nos transcende.
Esta minha crónica começa assim, por uma singela homenagem e sentido reconhecimento a todos aqueles que viajam pelas estradas de Portugal rumo ao Santuário de Fátima, onde apenas uma vela acesa vale mais do que todas as riquezas do mundo quando estamos perante um momento de desespero!
Mas se o mês de Maio é marcado por este culto Mariano aqui no nosso “torrão”, outros eventos aconteceram na história da humanidade que tiveram lugar neste momento do ano, como por exemplo a criação do Reino Unido da Grã Bretanha, em 1707; a abdicação de D. Pedro IV da Coroa de Portugal a favor da filha D. Maria da Glória, em 1826; a criação da Guarda Nacional Republicana, em 1911; o nascimento do escritor e estadista italiano Nicolau Maquiavel, em 1469; a partida de Pedro Alvares Cabral para a India, em 1500; a Amnistia Internacional fundada em Londres pelo advogado Peter Berenson, em 1961, entre tantos e tantos outros acontecimentos.
No entanto, permitam-me os amigos leitores aprofundar os acontecimentos ocorridos no mês de Maio indo para um dia em concreto, neste caso o dia 9 deste mês.
No dia 9 de Maio de 1386 sucedeu a ratificação do Tratado de Windsor, celebrado entre D. João I de Portugal e Ricardo II de Inglaterra, no mesmo dia, mas no ano de 1945, é declarada a vitória da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) sobre a Alemanha Nazi, evocando a morte de mais de 20 milhões de pessoas na antiga União Soviética.
Contudo, também a 9 de Maio, mas do ano de 1954, nesta região onde nos encontramos e mais precisamente na vila de Arganil, é inaugurado o belo e fantástico (Cine) Teatro Alves Coelho, uma obra de arquitetura marcada pela afirmação de um povo que se mobilizou para ter uma casa de espetáculos, e de cultura, que fosse tão aclamada como as mais famosas estruturas deste género existentes na capital do País.
Poucos sabem, ou quererão saber, as inúmeras peripécias no processo de construção até à data da inauguração, momento precedido por uma inspeção das autoridades eclesiásticas locais e que levaram à pintura apressada de uma folha de videira nas partes íntimas de uma figura das telas que ornamentam as escadas interiores do edifício, certamente degradadas face ao abandono das mesmas.
Mas a construção do (Cine) Teatro Alves Coelho tem mais segredos, desde logo todo o processo que conduziu à sua edificação, diga-se arrojada, a começar pela escolha da cor da sua fachada e alçados.
O (Cine) Teatro Alves Coelho foi a afirmação de uma ideia politica marcada pela ideia de liberdade, mas que teve de se manter encapotada face à realidade de uma ditadura vigente que se revia como modelo societário nas conhecidas Casas do Povo.
Embora tenham sido as elites emigradas, especialmente em África, e A Comarca de Arganil a lançarem a ideia de um edifício tão majestoso, moderno e imponente, numa atitude de sobranceria ao edifício da Câmara Municipal (símbolo do Regime), foi o povo que o apadrinhou e subscreveu, homenageando dessa forma um vulto artístico e cultural como foi o Mastro Alves Coelho!
Muito há ainda para dizer sobre o (Cine) Teatro, bem para além de uns poucos que se auguram detentores do conhecimento sobre ele, desconhecendo no entanto as verdadeiras razões que estiveram por detrás da construção deste portento da arquitetura, desde as suas fundações à sua cobertura, verdadeiras obras de engenharia.
Contudo, parece que a reabilitação está condenada ao purgatório das promessas!
Foi em 2008 que a autarquia arganilense recebeu o (Cine) Teatro Alves Coelho com a certeza dada de que seria reabilitado e colocado em funcionamento até 2013. Seria inevitável, pensou quem detinha as chaves do edifício, a sua posse e propriedade. Palavra de Presidente de Câmara era, sem dúvida alguma, a maior garantia para tamanha obra!
Fez-se uma piscina, um auditório e recuperou-se uma fábrica, mas do (Cine) Teatro apenas restava uma promessa, e uns quantos buracos para uns estudos que apenas permitiram a aceleração da degradação do simbólico edifício.
Em 2016, sem pompa e circunstância, o (Cine) Teatro é devolvido ao seu natural guardião, depois da intervenção de Têmis (Themis), muito mais degradado do que foi entregue em 2008!
Nem uma palavra, nem uma resposta aos ofícios, e até as chaves foram devolvidas sem uma presença para acompanhar a entrada do proprietário no edifício. Certamente para não serem confrontados com a triste realidade em que se encontrava o imóvel…bem longe do que tinha sido, e do que se esperava voltar a ser.
No entanto, e quando o guardião do edifício preparava novo pedido junto de Têmis (Themis) para que, pelo menos fosse reposto o que tinha sido degradado desde 2008, logo em 2021 a autarquia de Arganil voltar a receber nas suas mãos o (Cine) Teatro Alves Coelho, com a manifestação de que agora sim, havia um homem na autarquia arganilense que iria cumprir a promessa da sua recuperação.
A data para a conclusão dos trabalhos seria Abril de 2025. Agora sim tudo parecia encaminhar-se para esse desfecho…com anúncios sucessivos de que estaria para breve um investimento tal que o emblemático edifício, finalmente, recuperaria toda a sua glória e projetar-se-ia como uma moderna sala de espetáculos, acolhendo os melhores artistas e as tramas mais emocionantes, dominada por uma agenda cultural de referência na Região. A cultura parecia falar mais alto!
No dia 7 de Setembro de 2024, em pleno Salão Nobre do Município, mais um anúncio público de que já havia dinheiro e muita vontade para tamanha obra faraónica… mas foi “sol de pouca dura”.
O prazo estava demasiado próximo, sem obra adjudicada, sem empreitada iniciada, como seria possível a realização da intervenção no edifício construído por “teimosos e cabeçudos beirões”?
E o relógio marcava 16 de Abril de 2025, quando o prazo teve que ser prolongado por mais 3 anos, ou seja, até 16 de Abril de 2028…
Contudo, no final do fatídico mês de Abril de 2025, ainda não havia vislumbre de qualquer candidatura aprovada, ou verba recebida para a obra de “Santa Engrácia”, apesar das promessas junto do proprietário de que seria expetável um investimento de 5,2 milhões de euros!
Importa, para já, realçar que, no caso das obras de “Santa Engrácia”, ela até foi começada e, passados vários séculos, finalmente terminada.
Acendamos portanto, uma velinha pelo (Cine) Teatro Alves Coelho, para que depois de 72 anos desde a sua inauguração este possa voltar a brilhar…

