
No passado sábado e integrado no programa comemorativo “Nunes Pereira. Do nascimento ao (re)nascimento”, que decorre até Dezembro deste ano, Fajão foi palco de uma tarde de triplo significado na homenagem à memória artística e cultural de Monsenhor Nunes Pereira que, em livro, em espectáculo teatral e através de um protocolo histórico, “voltou” a Fajão.
E num momento de celebração, cooperação e compromisso com o futuro do legado do ilustre filho de Fajão, estiveram presentes além das entidades parceiras, nomeadamente autarcas em representação dos Municípios de Pampilhosa da Serra, Arganil, Góis, Lousã, Penacova, Montemor-o-Velho, Cantanhede e Coimbra, o presidente da Câmara Municipal, Jorge Custódio; o reitor do Seminário Maior de Coimbra, padre Nuno Santos; Virgínia Gomes, em representação do Museu Nacional Machado de Castro; e o presidente da Junta de Freguesia de Fajão-Vidual, Aurélio de Campos.
E foi com um espectáculo teatral itinerante pelas ruas e espaços da aldeia, protagonizado pelo Teatro Comunitário de Montemor-o-Velho e pela Navio – Companhia de Teatro, que começou o momento de celebração, lúdico e emotivo com o público a acompanhar as personagens em movimento pela aldeia com diversas paragens e representações inspiradas n’”Os Contos de Fajão” e que culminou à entrada do Museu A. Nunes Pereira, onde actores e público se uniram num momento musical entoando, mais uma vez e em conjunto, o hino de Fajão, “Lindo Fajão/Uma terra abençoada /Que eu trago sempre gravada dentro do meu coração/Terra formosa, desta Pátria tão ditosa/Quem és tu vila de Fajão/És o rincão/Mais belo de Portugal”.
Foi de facto uma imagem simbólica de uma comunidade que não esquece quem a tornou singular e que foi destacada depois, no interior do Museu A. Nunes Pereira, onde foi assinado o protocolo para a sua requalificação entre a Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, Seminário Maior de Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro e Junta de Freguesia de Fajão-Vidual, num acto que marca um passo decisivo na valorização deste espaço de memória e identidade, no final do qual e como salientou o presidente da Junta de Freguesia de Fajão-Vidual, “Nunes Pereira deixou-nos um legado que deve ser preservado para gerações futuras. E que nós vamos trabalhar no sentido de preservar esse legado”, considerando ainda que “estamos num momento de virar de página daquilo que vai ser o futuro do Museu do Fajão”, deixando os agradecimentos “a todas as pessoas que estão envolvidas neste projecto, (…) a todos os presentes” e porque “gostamos de receber bem as pessoas”, deixou também o convite “para voltarem mais vezes, porque é importante termos visitas aqui na terra. Passem a palavra também de que o Fajão é bonito e vale a pena vir visitar”.
O reitor do Seminário Maior de Coimbra, referiu depois que “a identidade do espaço é de facto Monsenhor Nunes Pereira e quando perdemos a identidade perdemos força. O que queremos todos é que essa força retome e esta colaboração vai contribuir para isso mesmo”, destacando ainda a importância da parceria para a identidade do espaço e para o reforço da memória colectiva e que “as pessoas de Feijão têm que estar orgulhosas por terem uma pessoa, entre outras, (…) uma figura que, como padre, cumpriu muito bem essa missão, desde a profundidade, ao humor, à simplicidade e à simpatia, (…) e depois como artista que é um lugar onde ele foi capaz de fazer a diferença, em muitas artes, desde logo Os Contos de Fajão, são uma obra especial, muito especial, (…) depois as xilogravuras que ele foi fazendo”, deixando uma palavra de particular apreço para a doutora Cidália dos Santos, “que é o rosto principal da nossa presença neste projecto” , terminando por referir que “a identidade do espaço é, de facto, o Monsenhor Nunes Pereira”.
A representante do Museu Nacional Machado de Castro, depois de referir que “hoje, em Fajão, celebra-se um dia de triplo significado para todos os que se congregam no propósito de homenagear e promover a memória artística de Nunes Pereira”, com a encenação trazida pelo Teatro Comunitário de Montemor-o-Velho e pela Navio – Companhia de Teatro, a reedição da 3.ª edição revista e aumentada de Os Contos de Fajão “graças ao esforço da mulher que é responsável pelo espólio vastíssimo de Nunes Pereira no Seminário Maior de Coimbra, Cidália dos Santos” e pela assinatura do protocolo de requalificação do Museu Monsenhor A. Nunes Pereira, pelo que e como considerou, “manifesta-se aqui, neste momento e neste protocolo assinado pelas quatro entidades, colocar também hoje a obra de Nunes Pereira na vivência e cultura local, regional e nacional”.
O presidente da Câmara Municipal, depois de destacar também o decisivo contributo do presidente da Junta de Freguesia de Fajão-Vidual na concretização do protocolo e o significado deste momento, considerou que “um museu não é um depósito de peças e, por isso, é preciso que este Museu tome corpo, tome alma e que seja capaz de chamar a atenção do público para a magnífica obra de Nunes Pereira, uma figura incontornável, não só pela parte espiritual, mas também pela parte artística, (…) é preciso que este Museu tenha acções diferentes e que todos os meses, pelo menos, seja um motivo de visita”, terminando por referir “as pessoas só partem verdadeiramente quando se deixa de falar nelas e, de facto, não deixa de se falar do Monsenhor não só pela parte espiritual enquanto sacerdote, mas enquanto artista conseguiu fazer uma coisa que eu nem sei se ele próprio alguma vez imaginou, que era com a sua obra todos estes concelhos aqui à volta da região se unirem e se associarem à volta da obra que deixou. E isso é magnífico. (…) E nós temos a obrigação e a responsabilidade de perpetuar o seu nome e perpetuar as suas obras pelo menos durante mais 100 anos”.
A tarde encerrou com a apresentação da 3.ª reedição, revista e aumentada, da obra “Os Contos de Fajão”, da autoria de Monsenhor Nunes Pereira. Esta nova edição é enriquecida com contos recentemente descobertos, com fotografias da viagem de Nunes Pereira à Alemanha — onde recolheu os baixos-relevos dos contos de Beckum — e com matrizes de xilogravuras, reconhecidas como a sua obra maior.
E como salientou Virgínia Gomes, a obra “comemora a cultura intangível da Beira-Serra recolhida da oralidade por Nunes Pereira” — um testemunho vivo de uma identidade cultural que importa preservar e transmitir às gerações futuras.
O programa “Nunes Pereira. Do nascimento ao (re)nascimento” prossegue até ao final do ano, com novas iniciativas que continuarão a afirmar Fajão, no concelho de Pampilhosa da Serra e os concelhos parceiros como territórios de memória, identidade e de cultura.

