
O Secretário de Estado das Florestas marcou presença nas comemorações do 80.º aniversário da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Lagares da Beira, cuja sessão solene ficou marcada pelas condecorações, promoções e distinções honoríficas, mas também por “uma ou outra reclamação”.
E foi isso que o comandante António Pinto fez, ao aludir aos encargos financeiros com o socorro pré-hospitalar, suportados pela Associação Humanitária, reivindicando junto do vice-presidente do Conselho Jurisdicional da Liga de Bombeiros um (…) «aumento substancial de compensações», porque no panorama actual (…) «os postos de reserva continuam a ser os “parentes pobres”», esclarecendo que a Associação está a pagar (…) «porque nós apenas recebemos os prémios de saída. Não estamos a receber mais do que isso e estamos a fazer o mesmo socorro», afirmou, lembrando a pronta disponibilidade da corporação às “chamadas” do CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes).
A reivindicação foi mais longe, com o comandante dos BV Lagares da Beira a dar nota que para além do seu Corpo de Bombeiros, os Bombeiros de Vila Nova de Oliveirinha (Tábua) e Coja (Arganil) fizeram investimento na ordem dos 80 mil euros/cada, para aquisição de ambulâncias que cumprissem os requisitos exigidos, e continuam à espera de serem ressarcidos. O apoio (…) «acho que não vai chegar. Por isso, temos que desenrascar», augurou.
Visivelmente emocionado, António Pinto anunciou que este seria o seu último aniversário enquanto Comandante (…) «daqui a 5 anos, nos 85 anos desta instituição, eu já não serei Comandante», assegurou. Recorde-se que a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Lagares da Beira festeja a data da sua criação de cinco em cinco anos. «É com esta alegria e também tristeza, ansiedade, que será o meu último aniversário», sublinhou.
A intervenção do Comandante Pinto não terminou sem mais umas achegas. Começando por apontar os “critérios” na atribuição do “Crachá de Cidadania e Mérito” – que haviam sido propostos a dois elementos do comando dos Voluntários de Lagares da Beira – e no caso (…) «porque faltava meio ano, a Liga entendeu que não poderia atribuir. Compreendo, critérios são critérios». Contudo, revelou que a Associação investiu 3.600 euros em medalhas que foram atribuídas no decorrer da cerimónia (ver caixa). «Está bem que a Liga também tem despesas com estas medalhas, mas nós investimos 3.600 euros. Nós ficamos indignados», vincou.
António Pinto exprimiu rasgados elogios “aos seus homens e mulheres” que, no dia-a-dia, tudo fazem para manter vivo o lema dos Bombeiros de Portugal.
«Celebrar 80 anos de vida é muito mais do que assinalar uma data. É celebrar 80 anos de dedicação ao próximo. Oitenta anos de coragem. Oitenta anos de serviço à comunidade. E oitenta anos de uma história, construída por homens e mulheres que escolheram colocar os outros à frente de si próprios». «São heróis pela disponibilidade. Heróis pela coragem. Heróis pela entrega silenciosa».
Sem esquecer as famílias dos bombeiros, António Pinto agradeceu-lhes de forma emotiva. «Muitas vezes são elas as heroínas invisíveis desta missão. São elas que ficam em casa quando a sirene toca. A todas as famílias, o meu mais sincero agradecimento».
A terminar, não esqueceu os apoios que ao longo dos anos as autarquias –Junta de Freguesia de Lagares da Beira e Câmara Municipal de Oliveira do Hospital – (…) «pela colaboração constante que têm com os corpos bombeiros
Consciente dos desafios do futuro que (…) «exige mais formação, mais meios, mais capacidade de resposta», na sua última alocução enquanto Comandante dos Bombeiros Voluntários de Lagares da Beira, António Pinto salientou que, 80 anos depois da sua fundação (…) «os Bombeiros de Lagares da Beira continuam de pé. Continuamos prontos, disponíveis, fiéis ao compromisso assumido perante a população», dando como exemplo de continuidade a Escolinha de Bombeiros. «São vocês que têm a responsabilidade de dar continuidade a este lugar».
«Que os próximos anos sejam de crescimento, de união e de sucesso. E que nunca nos falte a coragem para continuar a cumprir a missão que herdámos daqueles que nos antecederam. E temos de honrar», porque, acredita (….) «enquanto existir um bombeiro disposto a servir, esta história continuará a ser escrita», concluiu.
Nas respostas, Luís Sousa, presidente da Federação Distrital dos Bombeiros, “alinhou” com as “reclamações”, reconhecendo que (…) «os Bombeiros estão fartos de ouvir discursos bonitos», e por isso, os mesmos (…) «têm de dar lugar a acções». Luís Sousa – que é também comandante dos BV de Vila Nova de Poiares – salientou que (…) «não é bombeiro quem quer, é bombeiro quem tem realmente vocação, quem tem força de vontade e também disponibilidade», defendendo a carreira de Bombeiro, que mais não é do que (…) «um reconhecimento que vocês merecem», assunto que mereceu já conhecimento por parte do Primeiro-ministro e Secretário de Estado da Protecção Civil. «Vamos acreditar que desta vez é que vai. E a Liga e a Federação, posso vos dizer, que tudo faremos para que realmente isso aconteça», assegurou.
Acutilante, o presidente da Federação Distrital dos Bombeiros foi peremptório: «Os bombeiros não se podem substituir a tudo. Os bombeiros não são silvicultores. Os bombeiros têm uma missão. Deixem os bombeiros fazerem a sua missão. E essa missão é ajudar as populações. É combater incêndios. As outras missões que queiram dar, deixem para os outros. Deixem para as várias instituições que têm que fazer o seu trabalho». «Não ponham os bombeiros a fazerem aquilo que eles não querem, não sabem, e que vão desvirtuar as missões dos bombeiros», clarificou.
Para o representante da Liga dos Bombeiros Portugueses, a estabilidade financeira das Associações Humanitárias de Bombeiros, deve ser uma prioridade inequívoca. «Os bombeiros não podem continuar a viver de promessas», até porque (…) «num tempo em que tantas instituições vivem dificuldades para mobilizar pessoas, para encontrar dirigentes, as Associações Humanitárias continuam a ser uma das maiores expressões de cidadania organizada que Portugal conhece. E isto não acontece por acaso», reconheceu Carlos Amaral.
Ainda segundo o dirigente (…) «os bombeiros não são uma despesa do país», pelo contrário (…) «são uma das maiores garantias de segurança, coesão territorial e solidariedade nacional», pelo que (…) «a questão é saber se o país está disposto a cumprir aquilo que deve aos seus bombeiros», deixou no ar.
Também alinhado com a Liga, esteve o Comandante Nacional da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, ao começar por reconhecer que os Bombeiros (…) «são hoje um dos últimos bastiões do verdadeiro espírito de serviço», destacando a organização, a disciplina dinâmica, a vontade de bem-fazer, a escola de cadetes (com 32 elementos) dos Bombeiros de Lagares da Beira, manifestando ao Comandante Pinto o (…) «profundo reconhecimento pelo trabalho que fez, pela forma como organizou este corpo de bombeiros e pelo exemplo que deixa».
E é pelos exemplos que vai constatando que Mário Silvestre defende mais investimento, formação, planeamento estratégico e valorização dos operacionais e das Associações Humanitárias.
Com o Verão à porta, o Comandante Nacional apontou que (…) «a exigência cresce, o risco muda, a população espera de nós mais e nós podemos, devemos, estar à altura e vamos estar à altura se caminharmos juntos, porque a nossa missão é proteger vidas e portanto, e tudo começa connosco».
A concluir, Mário Silvestre parafraseou o antigo Primeiro-Ministro Britânico, Winston Churchill, para definir a acção dos Bombeiros de Portugal: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
Ainda antes da intervenção final, o presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Hospital, começou por recordar que o pai (…) «foi bombeiro nesta casa durante mais de 40 anos», exaltando (…) «a dedicação ao voluntariado e à protecção civil» de todos os bombeiros de Lagares da Beira, bem como palavras (…) «de grande apreço e gratidão às suas famílias».
Considerando o Secretário de Estado das Florestas (…) «um parceiro activo do município e das instituições», José Francisco Rolo referiu o empenho em transformar o concelho de Oliveira do Hospital (…) «num território mais resiliente», apontando diversas acções no terreno (…) «como a execução das oito Operações Integradas de Gestão da Paisagem» – que se encontram em curso -, assim como a implementação de novos condomínios de aldeia, a título de exemplo.
Mas também para reafirmar que (…) «temos uma Carta de Perigosidade de Incêndio Rural completamente desajustada da realidade» do concelho (…) «e até da Região de Coimbra», fazendo notar que as Áreas Prioritárias de Prevenção e Segurança (…) «criarão sérios entraves ao desenvolvimento e ao investimento, inclusivamente das áreas da agricultura, do turismo e da própria floresta».
O autarca revelou que nos últimos cinco anos, a Câmara Municipal investiu cerca de 800 mil euros nos Bombeiros de Lagares da Beira – em logística e em obras. «Não digo estes números para que, por outra razão que não seja a pública prestação de contas e perceber onde é que o Município investe o seu dinheiro no apoio aos bombeiros». «Ainda no final do mês de Maio, aumentámos em 20% o subsídio anual às duas corporações de bombeiros, também numa lógica de ajudar a mitigar as consequências da Guerra do Médio Oriente, sobretudo ao nível da escalada dos preços dos combustíveis e de outros bens essenciais», acrescentou.
A concluir, José Francisco Rolo assumiu que a Câmara Municipal irá apoiar os Bombeiros de Lagares da Beira na concretização de uma das principais aspirações da corporação, a transformação do actual posto de reserva em Posto de Emergência Médica. «Estamos aqui para ajudar. Sempre», deixou claro.
331 milhões de euros
na floresta e reforço
dos meios de prevenção
No uso da palavra, o Secretário de Estado das Florestas – que presidiu as celebrações do aniversário dos BV Lagares da Beira – começou por dar conta que o Governo (…) «está a realizar um forte investimento na prevenção dos incêndios rurais», mas também na transformação da paisagem – através das OIGP (Operações Integradas de Gestão da Paisagem) – e no reforço dos meios da Protecção Civil. «É uma prioridade»
De acordo com Rui Ladeira, já foram investidos 311 milhões de euros – que correspondem a 100 mil hectares – (…) «para as pessoas transformarem a paisagem e terem apoio a 25 anos»; para além do Estado já ter também disponibilizado 50 milhões de euros – na aquisição maquinaria pesada – para reforçar a capacidade operacional dos municípios e entidades locais na prevenção dos incêndios».
Ainda com a memória dos incêndios de 2017 – recorde-se que no passado dia 17 de Junho assinalaram-se 9 anos do incêndio de Pedrógão Grande – o Governante apelou à mobilização colectiva para enfrentar os próximos meses – há previsão de um Verão quente e seco, propício à propagação de fogos.
«Temos de proteger pessoas, património e o nosso país», alertou Rui Madeira, reconhecendo e aplaudindo o trabalho de todos os operacionais, em especial o dos Bombeiros.
Recorde-se que no decorrer da cerimónia, onde foram condecorados bombeiros e entidades civis, o presidente da Direcção da Associação Humanitária homenageou os fundadores e todos os que fazem parte da “família bombeiro” de Lagares da Beira.
Álvaro Herdade reforçou que a Associação, para além de dinheiro, precisa de (…) «pessoas e meios», aludindo à criação de um Parque de Máquinas (…) «de apoio à prevenção dos incêndios, e ao Posto de Emergência Médica.
”Herdeiro” do pesadelo dos fogos de 15 e 16 de Outubro de 2017, onde, só no concelho de Oliveira do Hospital foi destruído 90% da floresta, para além da perda de pessoas e bens – registo de 13 vítimas mortais – o presidente da Assembleia Geral da Associação Humanitária foi breve e incisivo na sua intervenção, começando por recordar os “momentos difíceis” dos Bombeiros ao longo da sua história, dirigindo palavras de homenagem aos operacionais falecidos nestes 80 anos. «Para haver futuro tem que haver passado», frisou José Carlos Alexandrino.
Recorde-se que durante o dia de aniversário, as ocorrências foram asseguradas por elementos das corporações dos Bombeiros de Oliveira do Hospital e de Vila Nova de Oliveirinha (Tábua).

