NOTA DA SEMANA: A NATO revisitada, com Pedro Sánchez a meter a viola no saco

Depois da morte anunciada da estrutura fundada em 4 de Abril de 1949, e que contou com Portugal como um dos doze Países fundadores, a NATO (OTAN) parece ter renovado a sua existência.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), como é a sua designação em português, parecia não ter grande futuro, e muitos europeus ditavam o seu fim, misturando um certo desejo ideológico desse fim, com a realidade dos factos.

Para já, e depois da cimeira realizada na Turquia, a realidade é bem mais dura do que a ilusão das ideologias e dos gostos, ou desgostos, pessoais relativamente a alguns líderes mundiais.

Donald Trump não é, e duvido que alguma vez seja, o ideal de líder para os europeus. Aparece sempre demasiado truculento, errático, mercador dos seus interesses e com uma visão distópica do mundo.

Mas, o contrário de distópico é utópico, e se todos desejamos que a distopia não seja a realidade, não há duvidas nenhumas de que utopia é, sem dúvida alguma, o que não é real!

Dito isto, importa perceber em que ponto se encontra o nosso planeta, e parece-me, cada vez com maior convicção, de que caminhamos mais para um mundo distópico do que alguma vez caminhámos para uma realidade utópica e perfeita.

Talvez por isso, e apenas por isso, a NATO voltou a ser uma realidade necessária à subsistência do modelo europeu, indispensável à subsistência do nosso comodismo, de preferência sem turbulência no nosso modelo de vida.

Os países que integram a NATO, reunidos em cimeira na cidade de Ancara, aprovaram por unanimidade um comunicado de seis pontos, onde a contribuição de 5% do PIB para o reforço da capacidade militar da organização é uma meta concreta.

No entanto, aprovaram igualmente que a Republica Islâmica do Irão nunca deve, em caso algum, ter capacidade para produzir armas nucleares.

Depois de Donald Trump ter chegado à Cimeira de Ancara, logo de imediato marcou o sentido das negociações, colocando em cima da mesa “as cartas”, e manifestando que os Estados Unidos não estão disponíveis para continuar a sustentar a Europa no campo da defesa.

Nada de novo, pois George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden, já tinham avisado para a insustentabilidade do modelo vigente. No entanto, os líderes europeus simplesmente não ligaram, na medida em que aumentar a despesa com a defesa não trazia votos numa sociedade demasiado ciosa dos seus direitos, preocupada com as causas da moda e habituada às comodidades que as décadas de paz asseguraram, patrocinadas pela NATO ao longo da segunda metade do século XX e parte da primeira metade do século XXI.

Donald Trump, simplesmente colocou de lado a linguagem politicamente correta e partiu a loiça toda, anunciou a retirada de tropas do continente europeu, usou o seu poder militar no médio oriente, e não se preocupando com a retórica do direito internacional, procedeu à extração de um ditador na América Latina, mais precisamente na Venezuela.

Simultaneamente, reconheceu a Federação Russa, liderada pelo “ditador” Vladimir Putin, como um parceiro mais fiável.

E quando isso sucedeu, e apenas depois disso suceder, o resultado foi o aparecimento de um imenso rio de euros destinados ao investimento na Indústria da Defesa, com mais de 50 mil milhões de euros na defesa, a par de um cheque de 570 milhões para a Ucrânia.

No entanto, o número mais extraordinário é o de que os países europeus, com o Canadá incluído, irão gastar, em 2026, qualquer coisa como 555 mil milhões de euros nas suas forças armadas.

Na mesma cimeira, Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, e cujo País integra a NATO desde 1982, aprovou tudo aquilo com que, publicamente, dizia não concordar.

Pedro Sánchez aprovou o aumento da contribuição para a NATO em 5%, conforme exigiam os americanos, aprovou que o Irão não poderá ter armas nucleares, conforme Donald Trump sustentou e justificou para o ataque a esse país árabe… onde está então a frontalidade do líder do governo espanhol?

Assim, que restará aos analistas para discutir no rescaldo da cimeira de Ancara, na Turquia?

Sabemos hoje, que uma parte dos comentadores concluíram que o Presidente Americano continua a existir num mundo paralelo, quando, em bom rigor, este está mais próximo da realidade do que muitos líderes europeus.

Sucede porém, que a discussão que se impõe no imediato em todas as sociedades nacionais dos países europeus é a de saber de onde serão provenientes os fundos para sustentar as despesas da defesa?

Infelizmente, essa questão não se vislumbra ser matéria de interesse para o debate político nos próximos tempos! Temo pois, que em breve seremos surpreendidos com a ocorrência de cortes dos fundos europeus, ou um qualquer imposto comunitário para suportar os gastos com a defesa… infelizmente, apenas Donald Trump, o Joane do auto da barca do inferno de Gil Vicente, fala disso.