NOTA DA SEMANA: O discurso do estado da des(UNIÃO)

FOTO: CC-BY-4.0: © European Union 2023– Source: EP

Ursula Von der Leyen realizou no Parlamento Europeu o discurso do estado da União Europeia, momento cada vez mais mediatizado, seguindo o modelo e a tradição americana, feito mais para consumo mediático, do que propriamente sobre a realidade da Europa e do mundo, neste caso em particular.

Durante cerca de hora e meia a Presidente da Comissão Europeia apresentou um diagnóstico e uma série de objetivos e iniciativas que visam, aparentemente, a afirmação do bloco europeu no cenário internacional.

Nesse discurso existem três aspetos que aqui quero destacar, como exemplos da realidade alternativa em que a Europa parece viver, designadamente a questão da eletrificação da europa, como solução para a dependência energética do bloco europeu, a pretensão em regular o acesso e desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), e o incremento dos gastos com a defesa.

A somar a isso, a responsável máxima da Comissão Europeia apresentou ainda o Canadá como “membro associado”, não se sabendo ainda bem o enquadramento desta nomenclatura nos tratados da União Europeia!

Em relação ao tema da eletrificação da Europa como solução para a crise e dependência energética, não posso deixar de recordar que o número de carros elétricos atualmente comprados no mercado europeu são, cada vez mais, de proveniência chinesa, aspeto que associado à agenda climática, colocaram em grave situação a indústria automóvel, levando a que, por exemplo, a Volkswagen tenha anunciado despedir cem mil trabalhadores.

A grave crise que a indústria automóvel atravessa no continente europeu, contribuiu decisivamente para a existência de um deficit na balança comercial com a República Popular da China e que é de mil milhões de euros/dia pelas mais recentes estimativas!

Por outro lado, a Comissão Europeia esquece que as centrais a carvão têm vindo a ser desmanteladas, assim como as centrais nucleares tiveram um interregno ou suspensão do seu funcionamento em países como a Alemanha.

Já para não falar de que a produção hidroelétrica está cada vez mais relacionada e dependente da gestão de um bem cada vez mais fundamental que é a água, assumindo as barragens uma função predominantemente de reservatórios desse elemento e controle de caudais, relegando para segundo plano a produção de energia elétrica.

Quanto à produção com base em outras energias renováveis, através do aproveitamento da luz solar ou dos ventos, a questão do armazenamento da energia produzida, ou a continuidade ao longo do dia/noite da produção com base nestes recursos, não têm ainda solução que possibilite uma autonomia energética plena.

Assim, a eletrificação da Europa terá de ser suportada, novamente, ou por centrais nucleares ou por via dos recursos fósseis… o que põe a nu a utopia da transição energética que os responsáveis europeus encetaram e que nos conduziu à presente situação de crise.

Já no que se prende com a Inteligência Artificial (IA), a Europa no seu melhor apresenta como prioridade a regulação do desenvolvimento desta, aliás regulamentos é o que de melhor faz a Comissão Europeia, não cuidando que o desenvolvimento desta componente está demasiado atrasada no bloco europeu, relegada para segundo plano quando comparada com a realidade dos Estados Unidos da América e da China.

A regulação, neste momento, apenas servirá para atrasar o desenvolvimento da IA no contexto da Europa, colocando, mais uma vez, a economia europeia dependente dos americanos e chineses.

Depois, Ursula Von der Leyen anunciou o crescimento do investimento da Europa na defesa, esquecendo que este aumento está relacionado com as exigência decorrentes da própria NATO, e das exigências dos americanos para que seja atingida a meta dos 5% do PIB por cada membro associado da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Aliás, a grande questão a que a Comissão Europeia deveria responder, nomeadamente a sua Presidente, era qual a proveniência dos fundos para esse investimento na defesa.

Será que ocorrerão cortes nos fundos comunitários? Serão relegadas para segundo plano as áreas da proteção social, saúde ou habitação? Sobre isto nada foi dito e explicado.

Outro aspeto crucial a explicar neste campo, recai sobre o tipo de investimentos/despesas a realizar na defesa, nomeadamente em infraestruturas. Este esclarecimento é tanto mais importante na medida em que se fala em realizar investimentos e despesas em serviços públicos e equipamentos como hospitais, e outras estruturas, justificadas com necessidades do âmbito da defesa!

Ou seja, a Europa passa a aumentar a despesa e o investimento na defesa, mas na realidade essa despesa, ou esse investimento, consoante os casos, não se prendem com a aquisição de equipamento militar, ou despesa claramente militar, mas antes passará a ser classificada como tal, mesmo que o seu fim principal esteja longe disso.

Por último, o anúncio do Canadá como membro associado da União Europeia foi o “coelho tirado da cartola”, mas sem que se perceba o seu enquadramento no campo legal que regula a relação entre os membros que a compõem…

Para Ursula Von der Leyen, e já agora também para António Costa, o mundo fora das sedes faraónicas dos organismos europeus está demasiado distante para que percebam que o projeto europeu deixou de ser uma realidade para se transformar, irremediavelmente, numa utopia.

Hoje, o principal pilar do projeto europeu, a Alemanha, está em profunda crise económica e social, caminhando a passos largos para uma crise politica que poucos querem perceber.

A Alemanha, motor económico do projeto europeu, reabriu as feridas das duas grandes guerras, sofre pelas desigualdades que se mantêm após a queda do muro de Berlim, e agoniza com uma “guerra” cultural que se instalou entre fronteiras, fruto da imigração descontrolada!

O discurso de Ursula Von der Leyen foi o discurso do estado da desUNIÃO, outra suposição é apenas pura ilusão e demagogia.