
O desaparecimento da pintura do “mural artístico” que dava as boas-vindas a quem chegava à vila de Penacova está a ser intervencionado pela autarquia, e provocou o desaparecimento da pintura artística que retratava figuras e ofícios do concelho.
A medida fez “estalar a tinta” e provocou de imediato reacções da parte de pessoas ligadas à vida política e cultural do concelho, nomeadamente do antigo vice-presidente da Câmara Municipal, João Azadinho, e de Paula Silva, antiga responsável pela Biblioteca Municipal de Penacova.
Citado pela plataforma digital Penacova Actual, João Azadinho não esconde o seu desagrado perante o desaparecimento da pintura, recordando o propósito e significado da sua criação, pelo que considera que a intervenção agora levada a cabo (…) «representa uma perda para a memória colectiva do concelho».
A posição do ex-autarca – manifestada publicamente – é de que (…) «elementos culturais associados a uma determinada fase da vida municipal não devam ser descartados sem uma reflexão sobre o seu significado para a comunidade».
Já a antiga responsável pela Biblioteca Municipal de Penacova manifestou “surpresa e indignação”. É que (…) «a pintura tinha adquirido um valor que ultrapassava a intenção artística inicial, afirmando-se como um elemento distintivo da paisagem urbana e da imagem da vila», destaca.
Paula Silva considera que o património de uma comunidade não se limita aos monumentos ou aos edifícios históricos (…) «inclui igualmente as tradições, os saberes, as memórias e os símbolos que permitem às populações reconhecer-se num território e transmiti-lo às gerações futuras», pelo que o mural (…) «contribuía para afirmar a identidade de Penacova perante residentes e visitantes», numa altura em que os municípios procuram cada vez mais valorizar os seus elementos diferenciadores e reforçar a atractividade dos territórios.
Admitindo que a pintura pudesse apresentar sinais de degradação, Paula Silva considera, contudo, que se justificaria uma intervenção de conservação ou recuperação, em vez da sua cobertura integral.
Citada por aquela plataforma noticiosa, a ex-responsável pela Biblioteca Municipal propõe que seja encontrada uma solução para devolver ao local uma representação da memória que a obra procurava preservar, através da recuperação do mural ou da criação de uma alternativa que honre o seu significado.
Paula Silva associa ainda a obra ao mandato do então presidente da Câmara Municipal, Humberto Oliveira, sublinhando a importância de reconhecer o trabalho desenvolvido em prol do concelho, independentemente das mudanças políticas e dos executivos municipais.
Mural vai ser substituído por monumento evocativo das tradições locais
Reagindo ao “mal-estar” provocado pela intervenção, o presidente da Câmara Municipal de Penacova, através da sua página do Facebook esclarece que a decisão de retirar o mural do largo Dona Amélia deve-se a dois motivos: «Em primeiro lugar, porque no âmbito da intervenção de urbana em curso, está prevista a colocação de um monumento evocativo das tradições locais.
Em segundo lugar, o mural já apresentava alguns sinais de desgaste, desde zonas grafitadas, a falhas na pintura original, como é possível ver nas imagens».
Na mesma publicação Álvaro Coimbra deixa claro que a intervenção não teve/tem o propósito de (…) «desrespeitar o trabalho artístico, nem a iniciativa do executivo anterior e muito menos as nossas raízes e tradições locais. Trata-se de uma opção estética que deve ser contextualizada à luz da intervenção que está em curso».
O autarca recorda ainda no que respeita à arte em espaço público (…) «o monumento que dedicámos aos Bombeiros Voluntários de Penacova e o mural dos “50 Anos do 25 de Abril”, são a prova inequívoca do trabalho que temos feito nesta área».

