ARGANIL: Conferência Nacional destaca projeto de recuperação de 2.500 hectares da Floresta da Serra do Açor

No dia 2 de Outubro, no auditório da Cerâmica Arganilense e sob o tema “Arquitetura e Paisagem – Memória, Identidade e Resiliência”, a Direção-Geral do Território, o Património Cultural, I.P., a Ordem dos Arquitectos e a Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas promoveram, com o apoio da Câmara Municipal de Arganil e do ESPON 2030, a 9.ª Conferência Anual da Política Nacional de Arquitetura e Paisagem (PNAP).

Na sessão de abertura, o presidente da Câmara Municipal, Luís Paulo Costa, depois de referir que “recebemos esta 9.ª Conferência com particular orgulho e com a consciência de que a escolha de Arganil para acolher este Encontro Nacional não foi um acaso nem uma mera opção geográfica, (…) resulta do reconhecimento de um percurso, de uma visão e de um trabalho colectivo que tem procurado afirmar a paisagem como um activo estratégico para o desenvolvimento sustentável do território”, ao mesmo tempo que “encontra uma razão maior na distinção atribuída ao Projecto Floresta da Serra do Açor, vencedor do 6.º Prémio Nacional da Paisagem 2025” e que “projectou Arganil como um exemplo de recuperação, de valorização e gestão integrada da paisagem, demonstrando como é possível transformar desafios ambientais em oportunidades de regeneração territorial”.

“Arganil é um território onde a paisagem não é apenas cenário, é património, é cultura e é identidade”

Por isso e segundo considerou ainda Luís Paulo Costa, “este é um lugar particularmente adequado para reflectirmos sobre o tema que hoje nos reúne, arquitetura e paisagem, memória, identidade e resiliência, um tema que se revê profundamente na realidade do nosso concelho.

Arganil é um território onde a paisagem não é apenas cenário, é património, é cultura e é identidade”, acrescentando que “quer seja nas aldeias serranas, nas encostas moldadas pelo trabalho humano ao longo das gerações, nos rios, nas florestas e nos lugares de memória colectiva, encontramos uma relação íntima entre as comunidades e o território que o habitam”.

“Mas falar de paisagem em Arganil é também falar da resiliência. Ao longo dos anos, temos enfrentado desafios exigentes. Conhecemos os impactos dos incêndios, os efeitos das alterações climáticas e as dificuldades próprias de um território, do interior, se é que se pode falar de um interior em Portugal. Contudo, aprendemos igualmente que as crises podem ser momentos de transformação e de inovação”, disse o presidente da Câmara Municipal, sem deixar de salientar que “a recuperação da Serra do Açor mostra precisamente isso, que a reconstrução da paisagem é antes de mais a reconstrução da esperança, da confiança e da capacidade de projetar o futuro” e, neste contexto, sublinhou que “a paisagem é memória, porque a paisagem é identidade, porque a paisagem é futuro. É a memória do que recebemos das gerações que nos antecederam, a identidade daquilo que somos enquanto comunidade e é futuro daquilo que queremos ligar aos que virão depois de nós”.

“É também particularmente relevante que esta edição da Conferência incorpore a dimensão europeia através da participação do programa Expo 2030 e da discussão dos desafios de resiliência territorial”

E depois de referir que “esta visão exige políticas públicas cada vez mais integradas e ambiciosas. Exige que a arquitetura, o património, o ambiente e o ordenamento do território deixem de ser vistos de forma isolada e passem a ser pensados como partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento. Exige igualmente que os territórios de baixa densidade sejam reconhecidos não apenas como espaços de periferia, mas como laboratórios privilegiados de inovação de forma de sustentabilidade e coesão territorial”, Luís Paulo Costa salientou que “é também particularmente relevante que esta edição da Conferência incorpore a dimensão europeia através da participação do programa Expo 2030 e da discussão dos desafios de resiliência territorial. Os desafios que hoje enfrentamos ultrapassam fronteiras administrativas e nacionais. A resposta terá igualmente de assentar na cooperação, na partilha de conhecimento e na construção de soluções comuns”, terminando com votos “que os trabalhos de hoje proporcionem um debate rico, produtivo e inspirador, (…) que daqui partam novas ideias, novas parcerias e novas respostas para os desafios do nosso tempo” e por agradecer “pela confiança depositada neste Município” para a realização desta 9.ª Conferência Anual da Política Nacional de Arquitetura e Paisagem.

A Directora-Geral do Território, Fernanda do Carmo, depois de enaltecer e reconhecer a visão esclarecida sobre a temática nas palavras deixadas pelo presidente da Câmara Municipal, deu a conhecer a importância das parcerias envolvidas na “política nacional da arquitetura e paisagem, (…) o nosso principal objectivo é sempre promover o debate sobre a qualidade da arquitetura da paisagem e conseguir afirmar estes domínios como competências, componentes fundamentais das políticas públicas”, enquanto o vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, Nuno Nascimento, não deixou de reconhecer também o trabalho que, nesta área, tem sido desenvolvido pelo Município de Arganil, deixando como mensagem que “da parte da CCDRC estamos alinhados com esses objetivos e empenhados em contribuir para que eles produzam resultados efectivos no território”.

E depois seguiram-se as várias intervenções feitas pelos oradores que participaram na Conferência, cujo programa incluiu ainda a apresentação de projetos e experiências que cruzam arquitetura, paisagem, património e resiliência, entre os quais o projecto Guardiãs da Água, distinguido com o Prémio Novo Bauhaus Europeu 2025, a reabilitação da Casa Aristides de Sousa Mendes, iniciativas de apoio à Arquitetura Tradicional e os novos desenvolvimentos do projeto PAISACTIVO – Paisagens Corta-Fogos, um projeto Interreg, que procura reforçar a prevenção de incêndios rurais através da criação e activação de paisagens corta-fogos, promovendo uma gestão integrada das áreas rurais e a valorização das atividades agrícolas, florestais e pastoris, reunindo parceiros portugueses e galegos.

Floresta da Serra do Açor, projecto vencedor da 6.ª edição do Prémio Nacional da Paisagem e integra actualmente a lista de projectos candidatos ao Prémio da Paisagem do Concelho da Europa

Mas um dos momentos centrais do programa foi a apresentação da Floresta da Serra do Açor, projecto vencedor da 6.ª edição do Prémio Nacional da Paisagem e que inclui uma visita ao território onde está a ser desenvolvido. Com uma intervenção prevista em cerca de 2.500 hectares de terrenos comunitários, o projecto implementado na Floresta da Serra do Açor constitui uma experiência de particular relevância no contexto português de recuperação de paisagens afectadas por incêndios e de adaptação às alterações climáticas e resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Arganil, o Grupo Jerónimo Martins, a Escola Superior Agrária de Coimbra e as comunidades locais responsáveis pela gestão dos Baldios.

O projecto envolve um investimento de 5,18 milhões de euros, assegurado pelo Grupo Jerónimo Martins através de mecenato ambiental, com um horizonte de intervenção de 40 anos. Iniciado em 2020, prevê a recuperação e gestão de uma área profundamente afectada pelos incêndios de 2017, apostando na diversificação das espécies, na gestão de combustíveis, na protecção do solo e da água, na promoção da biodiversidade e na criação de uma paisagem mais resistente aos incêndios e mais adaptada às alterações climáticas.

Até ao momento, foram realizadas intervenções em parcelas correspondentes a cerca de 1.265 hectares de área sob gestão, tendo sido instalados povoamentos em aproximadamente 1.017 hectares, através de plantação, enriquecimento e regeneração natural. Mais do que uma intervenção de reflorestação, o projecto assenta numa abordagem integrada de gestão e recuperação da paisagem, procurando conciliar a prevenção de incêndios, a conservação dos recursos naturais, a valorização da biodiversidade e a criação de novas oportunidades para a economia rural, sendo ainda de referir que a Floresta da Serra do Açor integra, actualmente, a lista de projectos candidatos ao Prémio da Paisagem do Concelho da Europa.

No contexto da Conferência, permitiu ainda aos participantes a visita à Floresta da Serra do Açor e acompanhar uma acção prática de controlo de espécies lenhosas invasoras através da técnica de descasque (e na qual puderam colaborar) e, no final de um dia cheio, todos acabaram por levar daqui, com certeza e como se pretendia, “novas ideias, novas parcerias e novas respostas para os desafios do nosso tempo”.