ENTREVISTA A MIGUEL CARVALHO: “O livro não é contra o Chega, é sobre o Chega”

Miguel Carvalho apresentou o livro na Biblioteca Municipal da Lousã, no passado dia 3 de março

Miguel Carvalho nasceu no Porto, em 1970, e destacou-se no jornalismo como grande repórter. Em setembro de 2025, depois de “quase seis anos de investigação”, publicou: “Por Dentro do Chega: a face oculta da extrema-direita em Portugal”. Obra que tem suscitado vários debates a nível nacional, contendo documentos e entrevistas que visam ajudar a compreender melhor os bastidores deste partido. O jornalista concedeu uma entrevista à A COMARCA, no dia 4 de março, um dia depois de ter estado na Lousã a apresentar o livro, tendo partilhado algumas das conclusões a que chegou com este trabalho.

ACA (A Comarca de Arganil): Quais foram as principais dificuldades que surgiram durante a investigação?

Miguel Carvalho (MC): O autor assume que o “aparelho político principal” do Chega tem colocado obstáculos no seu caminho, procurando “limitar” ou “intimidar” o seu “trabalho”. Aponta como exemplo o “último congresso” do partido, em “2024”, que teve lugar em “Viana do Castelo”, afirmando que o tentaram “impedir de fazer a cobertura” da sessão. Contudo, “na sequência de uma tomada de posição da Entidade Reguladora para a Comunicação Social”, que considerou a “decisão ilegal”, conseguiu entrar no local.

Contrariamente à postura de quem está no “topo” do partido, a “generalidade” dos militantes, dirigentes e eleitores do Chega” estão disponíveis para conversar com o jornalista portuense. Inicialmente, notou alguma relutância, mas “numa fase posterior” – em alguns casos, mais de um ano depois – acabaram por “conversar” com ele e “fazer declarações em ‘on’ [com autorização para serem publicadas]”. Para que tal acontecesse, Miguel Carvalho obrigou-se a estar no “terreno”, a “conhecê-los” e a “conviver” pessoalmente com estes militantes. “A verdade é que, na realidade, os contactos que fiz para o livro são contactos que mantenho”, explica, acrescentando que, “na maioria dos casos”, a relação com estas fontes de informação desenvolveu-se “naturalmente”.

ACA: O Chega é um partido fascista?

MC: “O Chega vai buscar referências para as suas narrativas, e para os seus discursos, que têm muitas semelhanças com as componentes dos mais diversos movimentos fascistas, seja as do fascismo histórico, como de coisas mais recentes”, entende Miguel Carvalho. Segundo o jornalista, a “direção” e o “aparelho político” do partido têm “tiques, posturas e algum tipo de argumentação” que relembram esse “passado sombrio” – com raízes no Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini, fundado oficialmente em 1921.

Desde que começou a acompanhar o Chega e a escrever sobre ele na revista Visão – e, ocasionalmente, no jornal Público -, Miguel Carvalho procurou evitar o conceito “extrema-direita” para definir este movimento político, optando pelo termo “direita radical populista”. Porém, “nos últimos dois anos, sensivelmente, a direção e o aparelho do Chega passaram algumas fronteiras mais”, aspeto que se torna evidente no “desrespeito total pela Assembleia da República e pelos tribunais”, que já não tentam esconder.

“Em Espanha, [André Ventura] disse que, se fosse ele a mandar, enviava Pedro Sánchez [primeiro-ministro desse país] para a cadeia e, em Portugal, se fosse ele a mandar, enviava o presidente da Câmara de Oeiras também para a cadeia”. Por outras palavras, a “separação de poderes” deixaria de estar em “vigor” e as sentenças passariam a ser ditadas por um político, que se substituiria ao poder judicial.  “Isso não significa, e eu tenho sempre esse cuidado, que se deva chamar extremistas de direita ou fachos ao seu universo eleitoral”, sublinha, deixando claro que não acredita que haja “23% [percentagem do partido nas legislativas de 2025] de fascistas que votem no Chega”. De acordo com o entrevistado, é essencial separar as águas entre a direção e os eleitores, pois a “maior parte” desses votantes “ainda é resgatável” para o lado democrático.

Das conversas que teve com estas pessoas, apercebeu-se de uma grande “diversidade” de opiniões, quer em relação ao país, quer em relação ao próprio movimento. “Se há partido que não pensa todo da mesma maneira, é este”, reforça, sendo possível “encontrar gente que detesta alguns argumentos que André Ventura usa”, que “sabem que ele mente” e “usa todo o tipo de falsidades para tentar fazer vingar os seus argumentos”. Ainda assim, votam no Chega por ser o movimento “mais disruptivo” e para “protestarem o seu desencanto em relação à política”, entre outras razões.

Do que conhece “daquela militância”, apercebeu-se também que há um segmento com o qual é “muito difícil dialogar e que acha que isto [o país] precisa de uma ‘marcha atrás’ em termos de regime”. Pessoas que estavam “mais confortáveis” durante o Estado Novo e, por exemplo, consideram que Portugal deveria “voltar a ter colónias”, além de recorrem a um “discurso profundamente racista e xenófobo”. Embora admita que “não é uma componente desvalorizável” do eleitorado, está convicto que tal visão não é compartilhada pela “maioria das pessoas que votam no Chega”.

ACA: O partido tem uma matriz ideológica?

MC: No que diz respeito à doutrina política do Chega, Miguel Carvalho menciona que o seu “extrato ideológico”, quando confrontado “com aquilo que é a generalidade dos partidos da sua família política”, designadamente no paradigma europeu, é como “comparar a água com o vinho”. O movimento navega ao “sabor da intuição do líder”, André Ventura, que não tem “grande paciência para reflexões e discursos” de cariz ideológico. “Verdade seja dita, tem resultado”, remata o jornalista, indicando que “basta ver o número de deputados que tem [na Assembleia da República] e o lastro mediático que gera”, estando constantemente nas notícias.

O Chega é, “sobretudo”, um movimento de “ação”, ou seja, “muitas decisões ainda são tomadas, desde a apresentação do projeto de lei a outras posições políticas, em função do que diz a rádio ou a televisão de manhã”. Portanto, quando “percebem” que há um “tema” que podem “cavalgar”, por vezes, “anunciam um projeto de lei” e “nem o chegam a apresentar” no parlamento, mas “anunciam” para captar a atenção dos media. O jornalista conclui que se trata de um “partido muito virado para a espuma dos dias”, que a procura “utilizar em seu benefício”, sugerindo o exemplo da greve geral – de 11 de dezembro – enquanto um caso sintomático deste modo de estar na política: “André Ventura, em poucos dias, foi contra e a favor da greve geral, [tendo trocado de posição] quando percebeu que a maré tinha mudado”.

Apesar de existirem pessoas que se juntaram ao Chega por “convicção”, o “frágil escrutínio”, quer “em relação a quem adere”, como a “quem escolhe para as candidaturas [no âmbito eleitoral]”, levou a que o partido tenha “atraído um contingente considerável de oportunistas na vida política portuguesa”, afirma Miguel Carvalho. “Para citar André Ventura, tornou-se num ‘bar aberto’ a esse nível. Até dou de barato que, às vezes, a direção não tenha uma responsabilidade direta nessas escolhas (…) mas não tem uma barreira, suficientemente sólida, para evitar que uma data de oportunistas políticos use o partido como barriga de aluguer”. Alguns dos atuais membros, ex-figuras dos partidos com bases eleitorais históricas, perceberam que mais “rapidamente” conseguiriam um “cargo importante no Chega”, do que nas organizações em que militavam. “Está a provar do seu próprio veneno. Se há partido que tenha atraído, do ponto de vista político, uma série de ‘subsidiodependentes’, é o Chega”, ironiza.

ACA: Quem são os principais financiadores deste movimento?

MC: “Ao longo destes anos, concluí que uma grande parte do seu financiamento, que é considerável, é essencialmente português”, aponta Miguel Carvalho. O Chega recebe dinheiro de “empresários” e “figuras de uma certa elite económico-financeira” que, por exemplo, conseguem aceder a “offshores” com “grande facilidade”. Paralelamente, o partido tem “consolidado a sua relação com dirigentes” e “protagonistas” das mais “variadas famílias políticas a nível internacional”. À medida que os anos passam, tem cimentado a sua presença em eventos que têm lugar noutros países, “sobretudo”, no “Brasil” e na “Hungria” – próximos aos setores bolsonaristas e a Viktor Órban, respetivamente.

Os “laços estreitaram-se”, entre o partido português e outros movimentos da mesma família política, podendo ter contribuído para a criação de um “circuito financeiro [transnacional], aparentemente legal, que, de alguma maneira, permita ao Chega ganhar outro tipo de lastro a esse nível”, explica. “Uma das coisas que eu faço no livro é referir dois ou três institutos, duas ou três organizações” que, à primeira vista, não estão ligados ao partido, mas cujos “órgãos sociais têm praticamente só gente do Chega” ou bastante “próxima” dele, continua. Entidades que estabelecem relações com movimentos congéneres, nomeadamente através da dinamização de eventos, em solo português, que contam com a presença de figuras políticas internacionais. “Se isto representa ou não um financiamento encapotado, não pude alcançar, mas creio que as entidades públicas o poderão fazer”, salienta o jornalista.

ACA: Há motivos para temer a relação entre o Chega e as forças de segurança?

MC: O livro tem um capítulo dedicado à ligação entre o Chega e as forças de segurança, resultando de “quase um ano” de investigação. Quando questionado em relação à proximidade entre ambos, nomeadamente se faz sentido temer uma tentativa de derrube do atual regime, Miguel Carvalho é claro: “os golpes de Estado já não se fazem como se faziam”. Apesar de considerar que “não há condições” para tal acontecer, pelo menos, nos moldes em que ocorriam no passado, reconhece que esta ligação é preocupante. “Já houve um período em que corremos o risco de ver as chefias da GNR e da PSP entregues a gente do Chega”, declara, complementando que a “representatividade” do partido ainda é “bastante significativa” nas forças de segurança, embora já tenha vivenciado “melhores dias”.

Entre “2020” e o “princípio de 2023”, em comparação com a “situação de hoje”, o “risco” associado à presença do Chega nas forças de segurança já foi “maior”. O jornalista destaca que “não houve propriamente uma infiltração” do movimento nas polícias, pois muitos dos profissionais já se reviam nos ideais defendidos pelo partido, antes deste ser fundado. “O Chega teve dirigentes que fizeram a ponte com determinados setores, nomeadamente com o ‘Movimento Zero’, mas já havia quem pensasse à Chega antes do Chega, é uma coisa que eles assumem”, esclarece.

Atualmente, há uma “blindagem maior” em relação à influência do movimento no interior das polícias e, inclusive, têm surgido “algumas vozes críticas contra o Chega”. Miguel Carvalho aponta que tal se deve, em parte, porque o partido “assumiu determinadas causas e, para além do discurso, praticamente abandonou-as”, provocando “algum desgaste” na “relação”. Por outro lado, reforça que as “forças de segurança não são todas iguais”, existindo quem tenha “resistido bastante” a esta tentativa de “utilização política” do setor. “Ao mesmo tempo que há gente que pensa à Chega, para simplificarmos, há [também] muita gente que pensa exatamente ao contrário. Houve uma renovação das forças de segurança e há, obviamente, agentes, militares… absolutamente comprometidos com a defesa dos direitos, liberdades e garantias”, realça.

ACA: Quais são os motivos que levam os portugueses a votar no Chega?

MC: “De uma vez por todas, quando [a classe política] promete meia dúzia de coisas, por muito que seja meia dúzia, tem que dizê-las olhos nos olhos e cumpri-las”, entende Miguel Carvalho, sublinhando que o “desencanto pela política” é um dos principais motivos que conduzem ao crescimento do Chega. “Sei que ele mente, que ele aldraba e que o Chega, se calhar, não vai mudar grande coisa (…) mas o Ventura diz aos outros políticos aquilo que eu gostava de lhes dizer”, este é um dos argumentos que o autor ouviu para justificar o voto neste partido.

À frustração com a classe política, soma-se a insuficiência do papel do Estado, em particular no que toca à sua “presença efetiva e com qualidade” no “território nacional” – além de Lisboa e do Porto. Esta é outra das críticas apontadas ao ‘sistema’ pelos militantes do Chega, que se dizem desiludidos com o esquecimento a que muitas regiões do país estão sujeitas. “As pessoas sentem que o Estado não está lá para elas. A sensação de abandono é muito vincada”, observa Miguel Carvalho, reforçando que se um “líder político”, de “esquerda” ou de “direita”, for ao “encontro destas populações para as ouvir”, dando-lhes esperança que as suas promessas eleitorais vão ser cumpridas, o “Chega começará a perder oxigénio eleitoral”.

ACA: O Chega reúne condições para, no futuro, formar Governo? Quais seriam os principais riscos para a democracia e para as instituições que vigiam o poder executivo?

MC: “É difícil prever a forma como o Chega, sendo Governo, poderia domesticar as instituições que têm o dever de escrutinar e vigiar o comportamento dos Governos”, refere Miguel Carvalho. Segundo o próprio, “num contexto de nova crise política”, que suscite dúvidas sobre a “ética” e a “credibilidade” de um “primeiro-ministro”, o partido tem a “passadeira vermelha para chegar ao Governo”, frisando que os “riscos são enormes” para a “democracia”.

O jornalista apresenta como exemplo uma prática que, “durante dois anos, pelo menos”, estava normalizada no interior do Chega: a circulação de “gravações clandestinas”, quer de “militantes para militantes”, quer de “dirigentes para dirigentes”. As disputas, por determinados cargos ou lugares nas listas do partido, davam lugar à “gravação em barda” de conversas, de forma “ilegal”, com o objetivo de prejudicar a concorrência interna. “Muitas dessas gravações chegaram ao conhecimento da direção e eram incentivadas por dirigentes nacionais, alguns deles deputados”, relata. O recurso a estas captações de áudio foi “prática corrente”, seja com o intuito de expor “aspetos da vida familiar” dos adversários, seja para os gravar a dizer “barbaridades sobre a direção”, com o objetivo de os denunciar aos superiores hierárquicos.

Miguel Carvalho propõe o seguinte exercício: “imagine-se, com estas práticas de relevância criminal, o que seria o Chega ter nas mãos o Ministério mais sensível de uma governação que, como sabemos, é o Ministério da Administração Interna”, tendo à sua responsabilidade as “forças de segurança” e os “serviços de informação”. Caso o partido reunisse os votos necessários para governar o país, tendo sob a sua alçada o Ministério referido, estas “práticas internas” de “relevância criminal” indiciam que, num curto espaço de tempo, teríamos uma “espécie de Big Brother” à escala nacional. Dito de outro modo, a sociedade portuguesa correria o risco de vir a sofrer, por parte do Governo, uma vigilância permanente. “Portanto, acho que isto é significativo para se pensar quais seriam os riscos do Chega para a democracia”, finaliza.

ACA: O que esperar de Miguel Carvalho nos próximos tempos?

MC: O autor considera “muito difícil” o seu regresso a uma “redação” no futuro. “Até há poucos anos, ainda acreditava numa espécie de luz ao fundo do túnel, [mas] como diz um amigo meu: ‘agora, a luz ao fundo do túnel é o próximo comboio’”. Apresenta-se “bastante descrente” quanto a essa possibilidade, dada a falta de meios que “devem ser as bases de uma redação”, ou seja, não têm “recursos económicos, humanos e técnicos” que lhe permitam “fazer um jornalismo” com o qual se identifica.

No entanto, sublinha que não vai “largar este tema relacionado com a entrada dos extremismos na sociedade portuguesa”, admitindo que se esforça “bastante” para “estar atualizado também a nível internacional” sobre este fenómeno. Pretende “manter, tanto quanto possível”, a “ligação” com os “órgãos de informação” que tem “colaborado mais regularmente”, mas reitera que o seu “futuro já não vai passar por uma redação”.

Para já, encontra-se focado nas sessões em torno do livro que escreveu sobre o Chega. “Ao contrário do que eu pensava em determinada altura, que poderia ter sido um tiro no escuro sair da Visão, a verdade é que a sociedade, e o que eu fui fazendo, me devolveu uma realidade que há muito procurava”, conclui. Até 2027, o jornalista tem a agenda cheia e vai continuar a percorrer o país, admitindo que está satisfeito com esta nova etapa da sua vida.

PEDRO CUNHA – Estagiário