
Estamos na segunda quinzena de Agosto, rapidamente o Verão, ou pelo menos o período de férias, começa a ver encurtado os dias entre o seu início e o seu fim, não tardando a que o País regresse a uma certa normalidade, ou aparente normalidade, de que se resolvem os assuntos.
Até lá, vamo-nos deliciando com as festividades que pululam por todo o País, com maior ou menor grau de entusiasmo dos respetivos participantes, com maior ou menor grau de sonoridade ou religiosidade associadas.
Assim, temos as nossas tradicionais romarias, festas de aldeia e, depois, a festa maior de cada concelho com outra envergadura e projeção mediática.
Em redor dessas últimas floresceu uma indústria de entretenimento, marcada pela contratação de nomes da arte e do espetáculo, com especial incidência no panorama musical.
Entre os concelhos, ou melhor, entre as sedes dos concelhos disputa-se o lugar de qual a Câmara Municipal que apresenta a mais apelativa programação musical, com os nomes do momento e as bandas da atualidade.
Disputa-se a projeção de uma marca para cada um dos territórios, com cantores e apresentadores que alimentam o protagonismo de cada um dos eleitos localmente, muitas vezes desvirtuando a génese e o fim com que cada uma dessas festividades foi criada há décadas, ou mesmo séculos atrás.
Resta-nos a alma genuína das romarias tradicionais, muito marcadas pela espiritualidade e a fé, e a par destas resistem as festas e bailaricos das aldeias do nosso Portugal mais profundo.
Com poucos, ou nenhuns, apoios os chamados “mordomos”, ou as Comissões de Festas, lá vão mantendo as tradições, arranjando as pessoas que levam os andores, fazendo coletas para pagar às bandas filarmónicas, e aos grupos musicais que providenciam o som dos bailaricos.
Os mesmos bailaricos que têm o seu encanto, marcado pela presença dos mais velhos, mas também dos mais novos, que não deixam de dar o respetivo pé de dança, que isto nas cidades não existe por lá!
Penso, cada vez mais, que é dessas gentes humildes, mas devotas ao seu torrão, que muito do nosso interior ainda vai subsistindo, misturando um pouco de turismo de saudade que os nossos imigrantes ainda vão assegurando, por via do regresso aos locais que os viram partir.
Com efeito, no Verão estas nossas aldeias recuperam, por alguns dias, a jovialidade que partiu, a alegria que antes existia, e a fé que muitos já julgavam perdida.
São estes “mordomos”, são estas Comissões de Festas, os verdadeiros heróis pela manutenção de uma identidade que tende a desvanecer-se pela força dos espetáculos e concertos de verão!
São estas festas e romarias que, na atualidade, ainda carregam o significado e sentido das vivências das aldeias e lugares espalhados pela nossa Beira Serra e por tantos e tantos lugares do nosso Portugal.
São feitas sem grandes apoios, sem os orçamentos de muitas das festas concelhias que buscam projetar uma ideia de marca de um certo concelho e território, mas que bebem na cultura dos orçamentos camarários e do acesso a apoios comunitários, mais ou menos disfarçados por uma ideia de promoção de um certo produto, que apresentam as grandes figuras de cartaz do panorama musical.
Um dia, talvez um dia, quando o dinheiro não for suficiente para contratar essas figuras de cartaz, alguém seja capaz de valorizar o trabalho dos “mordomos” e das Comissões de Festas que, ano após ano, arregaçam as mangas para que as tradições não se percam!

