
Chegou ao fim mais um ato eleitoral, e neste caso para as autarquias, Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia entenda-se, ficando apenas a faltar a eleição para a Presidência da República e que terá lugar em Janeiro de 2026.
No entanto, importa realçar o sucedido nestas eleições autárquicas, em que os principais Partidos, PPD/PSD e PS, deram sinais de renovação e (re)implantação, recorrendo à nacionalização das decisões locais, perante a ameaça do crescimento do Partido CHEGA.
O PPD/PSD ganhou a maioria das Câmaras Municipais, estancando, ou mesmo invertendo, a perda de eleitorado urbano e retomando a sua posição nas Capitais de Distrito e no litoral, alterando dessa forma a aparente interioridade do seu eleitorado, ganhando por essa via uma nova dinâmica.
A estratégia de Luís Montenegro esteve correta, apostando, com a sua presença constante, o reforço da posição do PPD/PSD no poder local, acrescendo ao maior número de Câmaras Municipais ganhas, o maior número de Juntas de Freguesias conquistadas.
O PPD/PSD voltou a ser o Partido com maior expressão autárquica e de maior implantação local.
No entanto, o PS, ao contrário do que alguns poderiam vaticinar, não desapareceu nem foi varrido do mapa autárquico, perdeu Câmaras Municipais, é verdade, perdeu Juntas de Freguesia é verdade, mas manteve-se na disputa do título de maior partido Autárquico, sabendo-se que parte das suas perdas ocorreram para movimentos independentes, alguns dos quais com maior expressão no Distrito de Coimbra, de dissidentes do próprio Partido (Vila Nova de Poiares, Condeixa e Soure). Nada que não seja sanável no futuro.
José Luis Carneiro pode assim respirar de alívio, tanto mais que herdou a generalidade dos candidatos do seu antecessor, Pedro Nuno Santos.
Quanto ao CHEGA, este prometeu muito e gerou enormes expetativas, e apesar de ter ganho 3 Câmaras Municipais, o que é de relevar, foi penalizado por, em muitas das disputas, ter optado por se “colar” ao PPD/PSD, não apresentando uma alternativa credível e de rutura, parecendo mais ser uma muleta ao poder instalado!
Tal posicionamento, em muitos dos casos seguramente em contraciclo com a respetiva Direção Nacional, não cativou o eleitorado habitual, pois as diferenças de projetos entre candidatos apresentados pelo CHEGA e pelo PPD/PSD esbateram-se.
No Distrito de Coimbra o PPD/PSD ganhou novas Câmaras, como Lousã, Miranda do Corvo e Figueira da Foz, esta última em virtude da inclusão do movimento independente que, em 2021, apoiou Pedro Santa Lopes, mantendo as demais conquistadas nesse ano, mas perdendo a “joia da coroa” – Coimbra.
Algo que poderá também antecipar a discussão da liderança na Distrital de Coimbra do PPD/PSD, e aqui o vencedor – José Miguel Ramos, que assumiu a candidatura a Miranda do Corvo num momento de enorme dificuldade, afigura-se como eventual solução.
Já o PS, para além de ter perdido 5 Câmaras Municipais, 3 delas para independentes oriundos do PS (incluindo simpatizantes), restou-lhe a capital de distrito – Coimbra – que soube a pouco, podendo originar a abertura de um período de reflexão sobre o futuro da Federação do PS.
E nesse período de reflexão os Presidentes dos Municípios de Oliveira do Hospital, Francisco Rolo, e Tábua, Ricardo Cruz, terão, ou deverão ter, uma palavra a dizer, conjuntamente com a renovada estrutura do PS de Arganil e o sempre presente António Sérgio Martins, que vai pairando ao longo do Distrito e gerando simpatias em vários quadrantes da sociedade civil.
E em Arganil, apesar da vitória do PPD/PSD, esta foi bastante encurtada face a 2021, culminando com a perda de 563 votos e 1 vereador.
Já o PS aumentou o número de votos, passando de 1946 em 2021 para 2383 em 2025, cresceu em Juntas de Freguesia, obteve mais um vereador, passando de 2 para 3, e aumentou os mandatos na Assembleia Municipal, ao mesmo tempo que aguentou a presença do partido CHEGA.
Aliás, o partido de André Ventura retirou localmente votos ao PPD/PSD, tendo obtido 472 na primeira vez que concorre, sem que tal impedisse o crescimento do PS. Agora imaginem o impacto que teria se, porventura, o CHEGA apresentasse uma mensagem de rutura com o atual executivo!
Contudo, importa destacar que a vitória de Luís Paulo Costa soube a pouco, e a derrota de Rui Silva, soube a muito, graças à Comissão Administrativa do PS, liderada por duas figuras essenciais, neste caso Cristina Figueiredo e Paulo Amaral que reconstruiram um partido moribundo em Arganil, rejuvenescendo-o sem perder de vista a experiência.
Será caso para perguntar, como seriam os resultados se o PS tivesse começado a fazer o papel de oposição construtiva e credível bem mais cedo, em vez de se ter deixado enredar pelo “canto de sereia” de Luís Paulo Costa?
Mas Luís Paulo Costa apenas se poderá queixar de si mesmo, porque permitiu que o discurso de campanha se centrasse nos ataques pessoais, especialmente direcionados e conduzidos pelo recandidato à Assembleia Municipal, António Cardoso.
Esperava-se muito mais de quem recebeu milhões de fundos comunitários e do PRR, quer em ideias e quer na defesa das mesmas, algo que Ricardo Pereira Alves teria usado bem melhor.
Até nisso, o ex-autarca foi capaz de fazer pontes durante estes últimos quatro anos, sabendo estar e marcar presença em eventos de importância significativa para a comunidade, mantendo-se acima da politiquice local, pelo que se espera que a travessia do deserto tenha servido para aprimorar e esclarecer alguns relacionamentos, sejam eles pessoais ou institucionais.
Contudo, três acontecimentos marcaram a noite eleitoral no Concelho, e neste caso os resultados no Piódão, em Arganil e a estrondosa margem com que o PPD/PSD foi batido na União de Freguesias de Coja e Barril de Alva, de onde são provenientes a atual Vice-presidente, Paula Dinis e vereadora eleita, e o atual Presidente da Assembleia Municipal, António Cardoso.
Aliás, foi aí que maior impacto tiveram os discursos negativos e corrosivos do candidato à Assembleia Municipal, tendo a vereadora Paula Dinis sido prejudicada também por isso.
Essa voragem vitoriosa, que incluiu Vila Cova de Alva e Anseriz, apenas não teve maior expressão no alto concelho de Arganil graças ao trabalho de Adelino Almeida na União de Freguesias da Cerdeira e Moura da Serra, assim como de José Pinheiro na Benfeita.
No outro extremo do Concelho concentraram-se os bastiões do PPD/PSD, neste caso S. Martinho da Cortiça e Pombeiro da Beira, mas até quando? Especialmente quando se espreita o regresso de algumas figuras marcantes nessas Freguesias e que muito mal tratadas foram, especialmente por uma certa liderança que os descartou precipitadamente!
Luís Paulo Costa fechará, daqui a quatro anos, um ciclo de 3 mandatos consecutivos, mas a equipa que o acompanha terá que pensar no seu próprio futuro, sabendo de antemão que este dependerá mais do que discordarem do que com o que concordarem em relação ao líder que escolherem…
Com Ricardo Pereira Alves a refletir na Vila de Coja, talvez pensando nos líderes que deixou no PPD/PSD, e o PS que tem tudo para agregar e reforçar a sua posição, desde que evite que alguém mine a atual liderança, vislumbra-se um embate interessante para daqui a 4 anos!
Isto é, se lá chegarmos.

