NOTA DA SEMANA: As “badaladas” da Benfeita deverão fazer pensar sobre qual o futuro da Europa

Os dias 7, 8 e 9 de Maio são reclamados como os dias que marcaram o fim da Segunda Grande Guerra, e a partir da qual o projeto europeu emergiu, especialmente com o intuito de assegurar a preservação da paz na Europa.

Foi no dia 7 de Maio que foi assinado o Acordo de Reims, ou Remos, localidade que se situa numa comuna francesa, tendo a cerimónia tido lugar numa escola, entrando a rendição da Alemanha nazi em vigor às 23h do dia 8 do mesmo mês, decidindo os Soviéticos celebrar a rendição alemã no dia 9, data originalmente acordada entre os Aliados para os festejos da vitória.

E isso porque as 23h do dia 8 correspondiam já às 24h da hora de Moscovo. No entanto, a ampla divulgação pelos meios de comunicação social dos aliados ocidentais fez precipitar a celebração, e o dia da libertação do jugo nazi passou a ser celebrado pelos Países Ocidentais em data distinta da evocada pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e a agora Federação Russa, sucedânea da ditadura comunista de José Estaline (Josef Stalin).

Quis o destino que na nossa região a aldeia da Benfeita, anualmente, evoque a data do fim da Segunda Guerra Mundial, cingindo-se ao dia da assinatura do acordo de capitulação, ou seja 7 de Maio, e desde essa data, já lá vão portanto 80 anos, sejam tocadas 1620 “badaladas”, tantas quantos dias levou o conflito.

Pelo simbolismo que esta cerimónia encerra, surpreende-me que apenas em ano de eleições locais as badaladas tocadas pela torre sineira da paz tenham a devida projeção e merecida atenção!

O gesto das “gentes” da Benfeita, sita no concelho de Arganil, foi talvez a maior demonstração que um País, marcado por uma neutralidade estratégica nesse grande conflito mundial, podia ter manifestado, especialmente quando falamos de uma comunidade situada nas portas da Serra do Açor, bastante longínqua da cosmopolita Lisboa.

Creio que tal gesto das pessoas simples dessa bonita aldeia não foi ingénuo e muito menos casuístico, algo que merecerá, se vontade houver para isso, um estudo mais aprofundado sobre o que levou alguém a fazer tocar o sino naquele preciso dia 7 de Maio, mesmo que os vencedores do conflito não se tenham entendido sobre a data da celebração do fim da guerra!

O armistício apenas foi assinado em 14 de Agosto de 1945 com a Alemanha, mas a da rendição do Japão apenas veio a suceder em 2 de Setembro desse mesmo ano, datas distintas do acordo que levou à rendição do nazismo, e que é recordado nas datas que referi, 7, 8 e 9 de Maio.

Datas à parte, na atualidade, o dia da Vitória está marcado pela instabilidade internacional e o risco de um novo conflito de maior dimensão na Europa, opondo o regime de Vladimir Putin às democracias europeias.

A celebração, hoje, da rendição da então Alemanha nazi, deverá permitir uma reflexão sobre se o dia da Vitória não vaticinará o risco de colapso do projeto europeu, especialmente quando o novo Chanceler Alemão, Friedrich Merz, recentemente designado pelo respetivo Parlamento, apenas o foi numa segunda volta pelos deputados da coligação que o suportam.

Winston Churchill, a 5 de Março de 1946, no Missouri, Estados Unidos da América, avisou sobre a “cortina de ferro” que se tinha abatido sobre a Europa de leste, o que nos deve fazer recordar que esta está de volta, após o fim da “guerra fria”, mas agora pelas mãos de Vladimir Putin.

Depois de Ronald Reagan, de Margaret Thatcher e até de João Paulo II, parece que os ditadores perderam o receio das democracias ocidentais, as quais antes se sustentavam em lideranças que sabiam claramente a diferença entre ideologias que sabiam o custo da liberdade, e as ideologias que apenas conheciam, e conhecem, as utopias nascidas dessa mesma liberdade.

Que a celebração do dia da Vitória, para além de nos fazer ouvir o “Hino da Alegria”, sirva antes para nos fazer refletir sobre as razões que nos trouxeram à situação atual de conflito iminente e do risco sobre o eventual colapso do projeto europeu.

E para o ano, que voltem a fazer-se ouvir as badaladas na Benfeita, com a mesma pompa e circunstância. O País merece e o mundo também.