NOTA DA SEMANA: As escolhas que se avizinham quando os governos estão a prazo

Por Simon Dawson / No10 Downing Street – Number 10 Flickr page, OGL 3, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=150041935

Keir Starmer, Primeiro-ministro Britânico demitiu-se nesta última segunda-feira, e apesar de vários tabloides e outros tantos comentadores de ocasião tentarem associar essa demissão ao eventual desgaste provocado pelo escândalo sexual relacionado com Jeffrey Epstein, os mesmos estão longe da verdade.

O até então líder trabalhista acabou por se demitir pela incapacidade em fazer opções na governação do Reino Unido e essa inoperância em realizar escolhas ficou largamente manifestada quando, em 11 de Junho último, John Healey, Ministro da Defesa, bateu com a porta, criticando o governo trabalhista por ser incapaz de assegurar o financiamento para a defesa do País.

Na realidade, Keir Starmer foi incapaz de realizar cortes no Estado Social para financiar o setor das Forças Armadas, e pior, foi incapaz de explicar aos “súbditos de Sua Majestade” os motivos para isso.

A tão conhecida Royal Navy está em situação calamitosa, quase a fazer lembrar o navio Mondego de má memória para a Marinha Portuguesa, a Royal Air Force para lá caminha e os poucos porta-aviões britânicos já viram melhores dias.

Mas desenganem-se os cidadãos da União Europeia se pensarem que estão livres desse mesmo dilema. Mais do que nunca os europeus terão que realizar escolhas a curto prazo e estas incidirão entre manter o nível de proteção social ou, pelo contrário, realizar cortes nos níveis de proteção para robustecer o pilar da defesa europeia.

Infelizmente, a opção realizada pela larga maioria dos governos europeus tem sido a de evitar a discussão junto dos seus cidadãos, tal como tem sido escondida a discussão sobre o lançamento de impostos europeus para financiarem o orçamento da própria União Europeia.

Em Portugal, o caso mais gritante foi a incapacidade para discutir e aprovar nova legislação laboral. De um lado os obstáculos à mudança do costume, a força imobilizadora de uma parte dos Sindicatos, com realce para as Centrais Sindicais que estão mais interessadas em manter uma série de privilégios do Estado de Direito, e, simultaneamente, seguir a agenda política dos Partidos que as controlam.

Do outro lado, estão uma série de políticos que estão mais entretidos em manter tudo na mesma, marcados pelo imobilismo que assegura que nada mude para que se mantenham na esfera do poder.

Talvez por isso, e apenas por isso, as palavras do antigo Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tenham ficado a ressoar no último Congresso do PSD, tornando-o a figura mais presente do lote de ausentes na reunião desse órgão do Partido Social Democrata.

Em bom rigor, no final da Concertação Social, o texto da nova legislação laboral estava longe de ser sequer uma reforma, quando muito era um puzzle colado com “cuspe” para satisfazer todos os intervenientes, de reforma pouco ou nada já restava.

Especialmente, quando a Inteligência Artificial começa a definir o desenvolvimento económico de alguns países e a consolidar o atraso de outros, e nós, portugueses, ainda caminhamos amarrados à dialética da luta de classes quando discutimos a legislação laboral.

O futuro de Portugal já não se padece com a falta de coragem, e muito menos com o toque autoritário da ignorância. Prefiro autoridade com conhecimento.

As obras faraónicas num país envelhecido e demograficamente a caminhar para a desertificação, nada acrescentam, sendo essencial gerir o que existe e não alimentar aquilo que não terá condições para existir.

Não tardará teremos nova vaga de endividamento, em que terão que ser os cidadãos a pagar essas mesmas obras faraónicas, tal e qual como os estádios de futebol construídos para o Europeu de 2004 e que estão às moscas espalhados por várias regiões do País!

Ninguém sabe quem vai pagar o PRR, e as verbas a devolver, ou quem irá sofrer com a redução do orçamento da União Europeia para os fundos de coesão. No entanto, apregoa-se a solução milagrosa de um Banco financiar tudo isto. O País contará com o Banco de Fomento, a Europa com o Banco de Apoio ao Investimento.

Mas todos esquecem que comprar dinheiro implica pagar juros e, no final, a divida terá que ser paga… assim vai a Europa, e assim vamos nós.

Hoje, vale mais a vaidade de um político em colocar uma placa num edifício cuja manutenção e sustentabilidade não é viável, do que desenhar um plano estratégico de desenvolvimento económico do seu território.

Segue-se agora, dentro de alguns meses, a discussão do orçamento de Estado para 2027, o Governo quer forçar a aprovação, enquanto a oposição, seja ela de esquerda ou de direita, quer forçar o chumbo, mas todos com o objetivo de que a culpa desse desfecho seja sempre do outro.

A expetativa será a de que, com a garantia do Presidente da República, não haverá eleições, antes sim apenas estabilidade, e governar-se-á em duodécimos.

Pura ilusão, pois qualquer uma das soluções é nefasta.

Mas enfim, agora vêm as festas de verão, momentaneamente esquecidas pela época de incêndios que acabará por colocar a nu a incapacidade de gerir os milhões distribuídos por estes territórios e que pouco, ou nada, mudaram.

O todo é mais do que a soma das partes, e as partes nunca farão o todo, mas uma coisa é certa – quando localmente não há rasgo ou audácia, muito dificilmente teremos audácia ou rasgo no País. Triste sina a nossa.