
Há poucos dias, o mundo acordou sobressaltado com a imposição de tarifas por parte da administração norte-americana a mais de cem países no mundo, com especial incidência ao bloco composto pela União Europeia, à Republica Popular da China, ao Japão, à Índia, ao Canadá e ao México, entre tantos outros.
Essas tarifas chegaram aos dois dígitos, com destaque para a economia chinesa que foi brindada com uma tarifa de 34% e que se veio juntar às anteriores, perfazendo 54%.
No meio de toda esta amálgama de incerteza e turbulência, chegámos ao caricato de escutarmos a República Popular da China a defender o comércio internacional e apelando à serenidade na aplicação destas tarifas, enquanto os comentadores habituais do espaço mediático rotularam, mais uma vez, o Presidente Donald Trump de ignorante, atribuindo-lhe uma completa irracionalidade na imposição destas medidas.
Tenho sérias dúvidas de que a imposição de tais tarifas de forma unilateral, e com a envergadura que assumiram, venham a ter o efeito desejado na economia americana, a qual, muito provavelmente, sofrerá impactos negativos significativos.
No entanto, parece-me abusivo e até redutor da nossa própria inteligência classificar tal decisão do Governo americano como, simplesmente, estúpida e sem lógica.
Antes de tudo deveremos dizer que o desenvolvimento de políticas protecionistas, com base na tributação das importações, não é uma novidade, tendo sido experimentada em diversos momentos da história das nações, com resultados que variaram, consoante os objetivos traçados em cada uma das épocas em que este género de atuação foi adotada.
Contudo, não podemos deixar de frisar que o contexto atual, sendo marcado pela forte globalização da economia, não aconselha a este tipo de políticas, tanto mais que os mercados são demasiado voláteis e a economia vai para onde os consumidores estão disponíveis.
Ainda assim, é importante explicar qual o fundamento da decisão tomada, na medida em que esta tem uma dimensão racional, mesmo que alguns não a queiram assumir e partilhar, vá-se lá perceber porquê.
Importa entender que a economia americana passou, algumas décadas a esta parte, de uma dimensão marcadamente produtora e exportadora para uma dimensão consumidora e importadora.
Tal alteração desse paradigma conduziu a um incremento dos serviços, em detrimento da indústria, tornando-se os Estados Unidos da América (EUA) na maior economia de consumo, fruto do seu elevado Produto Interno Brito (PIB) e da deslocalização da sua capacidade produtiva, nomeadamente para a China e para a Índia.
Um dos objetivos de Donald Trump é inverter esta situação, fazendo retornar a capacidade produtiva ao seu País e retomando uma (re)industrialização em redor de muitos dos produtos tradicionais e que são o suporte de um conjunto de Estados que foram durante muitos anos o seu motor económico, como é o caso do aço.
Por outro lado, outro objetivo passa por reforçar o investimento estrangeiro nos Estados Unidos da América (EUA), através de uma redução de tarifas para quem deslocalizar a sua produção para dentro das fronteiras americanas.
Se numa primeira fase a meta do protecionismo agora imposto visa reconfigurar o consumo interno apenas em produtos nacionais, ao mesmo tempo que pretende reduzir as importações, e com isso alavancar o desenvolvimento da economia, já num segundo momento a aquisição dos produtos de marcas estrangeiras passará a ser feita com base numa produção localizada no próprio País, gerando emprego e impostos.
Para isso, os Estados Unidos contam com a maior economia do mundo, sendo o primeiro importador e o segundo exportador a nível mundial, e com um mercado de 345 milhões de habitantes, o que não é de somenos.
Simultaneamente, tem o maior deficit do mundo, tendo atingido uma dívida pública na ordem dos 124% do PIB, correspondendo a 36 triliões de dólares, isto apesar de ter uma moeda forte, o dólar, e as maiores reservas de ouro que continua a fazer crescer.
Existe ainda um aspeto que se torna crucial na atual visão da administração americana, que é a de reduzir, ou acabar, com todo o financiamento internacional às diversas organizações, na expetativa de que daí resultem poupanças no orçamento federal, para além da necessidade de controlar o tal deficit, mas não só.
A redução desse financiamento, ou mesmo a saída dessas organizações, na visão de Donald Trump, justifica-se na medida em que a República Popular da China passou a ter preponderância nessas mesmas organizações, através do financiamento direto das economias dos Países mais pequenos, e por essa via reunia/comprava os votos suficientes para bloquear as pretensões norte-americanas.
Foi o caso em que, contra tudo o que é racional, no caso dos EUA, quem pagava já não era quem mandava.
Embora o sucesso das medidas tomadas pela administração americana dependa muito da reação dos mercados, da evolução da taxa de inflação interna, do nível de emprego gerado, e claro está do impacto nos bolsos dos respetivos cidadãos dos EUA, não significa que a definição das políticas sejam completamente irracionais, numa ótica protecionista da economia americana.
Confesso, que não gosto de avaliar o impacto das tarifas do lado americano, sem antes perceber o impacto dessas na economia portuguesa e europeia, o que me parece que carece de ser devidamente estudado e analisado de forma clara e transparente.
Em bom rigor, a política da União Europeia de dizer que vai retaliar e impor tarifas mais pesadas não passa, para já, de retórica, cujos impactos ninguém quer falar deles, preferindo atirar para os americanos as perdas e os riscos de tais decisões.
No entanto, Donald Trump e a sua equipa de economistas, sabem que estão a jogar com diversas variáveis.
A primeira é a de que se a Europa quiser apostar na defesa terá que ir buscar dinheiro ao modelo de proteção social, depois, reduzindo os americanos o financiamento das organizações internacionais, implica que a Europa, se quiser manter esses palcos políticos e neles ter alguma influência, terá que as financiar, desconhecendo-se de onde sairá o dinheiro para tal.
E por fim, a reorganização da economia europeia necessita de linhas de crédito, consequentemente um maior endividamento das economias nacionais.
Por seu turno, a Republica Popular da China, perdendo o mercado americano e com a necessidade de redefinição das prioridades europeias, corre o risco de perder também o bloco do mercado europeu, o que conduzirá ao arrefecimento do crescimento do império da ditadura comunista.
Na realidade estamos numa encruzilhada, num mundo virado do avesso e cada vez mais incerto, mas não digam que Donald Trump – empresário – é estúpido, quando muito será imprudente, isto no que diz respeito à economia. Em outras matérias a conversa será outra.

