
António José Seguro tomou posse no dia 9 de Março, com a marca de ter sido o candidato com mais votos expressos em toda a história da democracia portuguesa, ultrapassando o número de votos obtido por Mário Soares na sua reeleição. Embora, sempre se diga, que o número de eleitores nos diferentes momentos não era o mesmo, e por conseguinte, haverá sempre leituras distintas, na medida em que as percentagens asseguram essas mesmas distinções (66,84% – AJS | 70,3% – MS).
O novo Presidente da República tem uma legitimidade direta da expressão popular, e neste caso em concreto ultrapassando largamente anteriores Presidentes, como foi o caso do próprio Marcelo Rebelo de Sousa, reunindo assim, todas as condições para imprimir um estilo bem distinto do seu antecessor.
E a esse propósito importa dar nota de que o novo Presidente da República parece querer cultivar uma proximidade com o povo português, mas sem que tenha de falar a toda a hora e sobre qualquer assunto, imiscuindo-se onde não deve.
Quis transmitir uma mensagem de estabilidade no discurso da tomada de posse, anunciando que espera três anos sem eleições, tempo para que quem governe implemente as suas medidas, e quem faz oposição apresente as melhores alternativas a essas medidas, findo o qual, governantes e oposição, serão julgados nas urnas.
Contudo, o destaque desta nota da semana é inteiramente dirigido à visita do novo Presidente da República Portuguesa a uma aldeia da nossa região – Mourísia – cumprindo uma promessa feita aquando dos incêndios de 2025, em que assegurava o seu regresso em momento posterior às eleições presidenciais.
E o povo gosta de promessas cumpridas, e esta era importante que fosse cumprida, revelando um sinal importante para o consulado que agora tem início.
Por vezes, não é preciso andar no rasto das “selfies” e no caminho permanente da busca de popularidade para se ser um bom Presidente da República, e muito menos é necessário atropelar as normas que enquadram os lugares institucionais para que se obtenha aprovação do povo.
Muitas vezes, basta a presença, o olhar e o silêncio público, para que depois se fale em privado tendo em vista a resolução de vários problemas, e António José Seguro parece ter optado por este caminho.
No entanto, o novo Presidente da República terá que ter cuidado com os aproveitamentos dos políticos que se vão cruzando no seu caminho, especialmente quando a presença da mais alta figura da Nação, que conta com um perfil e uma legitimidade popular direta, pode ser usurpada pelos que gostam das “selfies” partidárias.
António José Seguro não pode ser a desculpa para que o interior não tenha voz, ou seja esquecido, deve também exigir, e exigir-se, a quem se diz líder do interior que assuma as suas responsabilidades, e muitas vezes essas responsabilidades são remetida para segundo plano pela ambição de se subir na hierarquia partidária.
No País de tantos estudos e diagnósticos poucos são os académicos que divulgam as raízes geográficas dos governantes, e representantes eleitos.
A realidade diz-nos que muitos governantes, atuais e passados, são originários do interior do País, de Regiões muitas vezes esquecidas e ostracizadas, o que não deixa de ser um paradoxo.
Com efeito, o problema do interior do País muitas vezes radica em alguns dos seus representantes que, vociferam contra o centralismo de Lisboa, mas logo que podem partem para a capital e esquecem os discursos reivindicativos antes propalados.
Desconfio sempre de quem grita contra o esquecimento do poder central, quando tantas vezes se “vende” a este para colocar no currículo, pessoal e profissional, um lugar de Deputado na Assembleia da República, uma Secretaria de Estado ou um Ministério.
Tenho para mim que o problema do interior do País não é o centralismo de Lisboa, são antes algumas lideranças locais que preferem os encantos da cidade “menina e moça”, a terem que regressar para a aldeia ou o vilarejo que os viu crescer.
Um bom poder central olha para o País como um todo e projeta neste um desenvolvimento solidário, ao invés de alguns poderes locais que tantas vezes tratam da manutenção dos pequenos poderes e capelinhas, para que se almeje uma cadeira na capital do País e, de quatro em quatro anos, voltam à terra para arranjar os votos necessários à sua continuidade na linda cidade de Lisboa.
Espera-se que António José Seguro esteja próximo do povo português, que escute os seus anseios e defenda o desenvolvimento harmonioso da Nação que representa, mas ao mesmo tempo seja capaz, não apenas de responsabilizar os governantes centrais, mas de igual modo os governantes locais.
Se considerarmos que a Democracia implica o desenvolvimento do País, facilmente percebemos que a defesa da mesma é o único caminho para o crescimento sustentado de Portugal, e isso significa que a preservação do regime democrático não se esgota na Assembleia da República, ela estende-se às Assembleias de Freguesia e às Assembleias Municipais, onde por vezes essa Democracia vai rareando.

