
Estes últimos dias têm sido marcados pela aflição entre as comunidades, especialmente no Centro do País, onde a depressão “Kristin” provocou enormes danos.
Embora os efeitos registados por essa tempestade também tenham ocorrido na Beira Serra, é visível que as maiores consequências ocorreram no distrito de Leiria, com prejuízos superiores a dois mil e quinhentos milhões de euros, afetando não apenas as pessoas e as suas habitações, mas muito em particular instituições e empresas, contraindo dessa forma a capacidade produtiva do próprio País.
Contudo, não posso deixar de registar que a solidariedade dos portugueses é bem mais rápida do que o próprio Estado, e muitos foram os cidadãos de vários pontos do País que acorreram às regiões mais afetadas para ajudarem no que podiam e sabiam.
Invariavelmente lá vêm as críticas do costume, designadamente à incapacidade do Estado para assegurar as respostas que, muitos creem, serem indispensáveis.
Pois bem, permitam-me que vos diga que enquanto estas críticas são feitas pelos cidadãos, especialmente quando diretamente afetados pelos fenómenos ocorridos, elas são perfeitamente naturais, pois cada um sabe o que lhe vai na alma e o sofrimento que sobre a pele lhes recai. As críticas dos cidadãos são assim, não apenas naturais como já referi, mas acima de tudo a expressão da sua vulnerabilidade.
Motivo pela qual criticar o Estado, pela sua incapacidade ou insuficiência de resposta, é o exercício de um direito de cidadania, podendo essas críticas ser justas, injustas, ou mesmo infundadas. No entanto, o cidadão tem esse direito e até essa responsabilidade – exigir que o Estado esteja presente quando realmente dele se precisa.
Outra coisa é quando o próprio Estado se critica a si mesmo!
Pois é caros leitores, há criticas que nos deveriam fazer pensar sobre o que é o Estado.
Com vulgaridade se diz que o Estado somos todos nós, e facilmente esta expressão serve para justificar, no limite, a incapacidade do Estado responder às exigências que lhe são feitas.
Afinal se o Estado somos nós, quando este falha seremos nós todos a falhar – desta forma será mais fácil a culpa morrer solteira!
Mas se o Estado somos todos nós, antes de nós há outros responsáveis no próprio Estado que devem responder perante situações como estas.
Digo isto porque o Estado tem várias dimensões, o Central, o Regional e o Local, mas todos estes níveis são Estado, e todos eles têm dirigentes e responsáveis, embora seja mais fácil passar culpas para o nível seguinte, seja no sentido ascendente, ou seja no sentido descendente.
A descentralização de competências tem destas coisas, e, sinceramente, não gostei das palavras do Presidente de Câmara da edilidade Leiriense, quando apontou críticas ao Estado pela ausência de militares.
Ter-se-á ele esquecido que faz parte integrante do próprio Estado?
Ou ter-se-á esquecido, como responsável máximo pela proteção civil no seu município, de qual a tramitação para solicitar a presença dos militares?
Com efeito, há muito que deveria ser explicado às populações, e cada vez mais isso deverá ser uma preocupação, quais são os níveis de operacionalidade da Proteção Civil, assim como quem são os responsáveis pela ação desta.
Infelizmente, o que temos assistido, é que existem críticas do Estado ao próprio Estado conforme a perceção que as populações fazem das situações de calamidade, sejam durante a época dos incêndios, ou seja agora com as tempestades de inverno.
Os níveis inferiores do Estado criticam os níveis superiores e vice-versa, conforme os interesses sejam locais, regionais ou nacionais.
Agora estamos a lidar com as inundações e tempestades e já toda a gente se esqueceu das respostas que não foram dadas na época dos incêndios, designadamente onde foram investidos os diversos milhões encaminhados para a questão da proteção das florestas e das aldeias, após os incêndios de 2017!
Ou, por que motivo, em 2025, arderam muitas das áreas que antes já tinham ardido em 2017!
Hoje, quando estiver publicada esta crónica, já estaremos a ser fustigados pela depressão “Leonardo” e a azáfama para proteger bens e propriedades será grande, mas a memória rapidamente passará e as soluções continuarão longe de ser implementadas.
Uma coisa é certa, e talvez a única coisa certa, a solidariedade dos portugueses, com exceção de alguns larápios que se aproveitam do mal dos outros para se dedicarem ao furto, tem sido a primeira a responder.
Os cidadãos deveriam perceber que o Presidente de Câmara, seja ele qual for e de que Partido Político for, faz parte do Estado e dentro desse Estado tem responsabilidades, e muitas delas os cidadãos parecem desconhecer. Se assim não fosse, estou certo que muitas das criticas não seriam dirigidas ao Estado Central, mas sim ao Local.
Na realidade toda a gente pugna pela transferência e descentralização de competências, mas na hora do aperto, o outro é sempre aquele que tem mais responsabilidades.

