NOTA DA SEMANA: O “conflito” entre a Nato e a União Europeia

Criada em 4 de Abril de 1949, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), vulgarmente conhecida entre nós como NATO, tinha, e ainda tem, como principal objetivo a defesa de um conjunto de Estados que se associaram para esse efeito.

Dela fazem parte, atualmente, 32 Países, dos quais 2 pertencem à América do Norte, falo pois dos Estados Unidos da América e Canadá, sendo que a quase totalidade dos seus membros pertencem ao Continente Europeu, e de entre estes, Portugal é membro fundador, algo que não deve ser esquecido.

A existência da NATO antecipou o chamado Pacto de Varsóvia, ou Organização do Tratado de Varsóvia e que foi constituído em Maio de 1955 e que, por seu turno, juntava todos os países a leste da então Alemanha Ocidental, designadamente as ditaduras comunistas sob a esfera de influência e controle da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Com a queda do muro de Berlim, a consequente reunificação da Alemanha, a democratização da Polónia, da República Checa e outros Estados que se libertaram do jugo comunista, não apenas a NATO cresceu com a adesão dos mesmos, entre 1999 e 2004, como a URSS se desintegrou e deu lugar à Federação Russa.

Tal contexto impulsionou e aprofundou o projeto europeu radicado na União Europeia, promovendo o desenvolvimento de um modelo económico direcionado para o bem-estar, e relegando para segundo plano as preocupações com a defesa.

A NATO, cujos dois terços da despesa há muito que eram, e são, assegurados pelos aliados americanos, foi secundarizada, face ao desaparecimento do perigo vindo de leste.

Como uma parte significativa dos Estados Europeus que integram a NATO são também, na sua maioria, membros da União Europeia e com a paz no horizonte desde que a URSS colapsou, estes desvalorizaram a necessidade de promover e manter estratégias para o planeamento de uma defesa comum e assegurar o desenvolvimento do complexo militar.

A União Europeia e a sua extensa malha burocrática reduziram o papel da NATO, e justificaram a concentração dos líderes em questões políticas da chamada moralidade do modelo europeu e da sua suposta superioridade em relação aos “ignorantes” dos seus aliados americanos.

A Comissão Europeia, entidade executiva da União Europeia, chamou a si e criou todo um vasto leque de áreas de atuação, desde a Politica Externa, passando pela política económica, e atrevendo-se a querer gerir a defesa, e neste último caso radicada num discurso assente em meras generalidades no âmbito do politicamente correto.

A NATO deixou de ser prioridade para os países europeus que integram a União Europeia, até ao momento em que os aliados americanos anunciaram que deixariam da financiar a organização do tratado da aliança norte.

Tal situação agudizou-se com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e, volvidos três anos, a União Europeia pouco ou nada conseguiu, ao contrário da NATO que alargou o número de países aderentes com a inclusão mais recente da Finlândia (2023) e da Suécia (2024), que contavam com a expetativa de que fosse assegurada uma defesa conjunta em caso de invasão e ataque russo.

Contudo, e perante a ameaça do corte de financiamento dos Estados Unidos da América ao funcionamento da NATO e, mais importante, a retirada de parte das suas unidades militares da Europa, a União Europeia anunciou um programa de investimento na despesa.

Como é habitual, a Comissão Europeia pretende fazer a quadratura do círculo, neste caso, aumentar a despesa militar, mas sem cortar no chamado modelo de proteção social europeu.

Rapidamente todos perceberam que é tudo “conversa fiada”, pois não há investimento militar sem recursos e estes terão que sair de algum lado!

Importa recordar as razões da queda da URSS, entre outras, a sua desintegração ficou a dever-se à incapacidade económica (face ao modelo estatizado de gestão da economia) para suportar o aparelho militar.

Voltando ao presente, foi necessária uma ação musculada dos americanos no Irão e de apoio ao Estado de Israel, para que todos entendessem que a Europa necessita dos soldados americanos, da tecnologia americana e, mais importante, dos dinheiro americano.

E a solução foi assumir, na recente cimeira da NATO, que vamos investir, até 2035, 5% do PIB nacional de cada um dos países europeus…

Das duas uma, ou Donald Trump sempre teve razão, ou os líderes europeus são meros hipócritas.

Inclino-me para a segunda, influenciada pela primeira.

Donald Trump sempre teve razão ao exigir que os europeus deviam aumentar a sua contribuição para suportar a respetiva defesa, assumindo com isso opções geoestratégicas, mas sabe-se de antemão que não deixam de ser hipócritas porque, na realidade, esses mesmos líderes europeus não querem realizar opções e assumi-las perante os eleitores.

Motivo pelo qual, à boa maneira dos europeus, ou parte destes, já trataram de distribuir as percentagens do investimento, com a inclusão de infraestruturas como hospitais, estradas, etc, como sendo de cariz militar.

Enfim, à boa maneira dos líderes fracos, a Europa já tem uma engenharia contabilística para enganar os americanos, falta perceber se eles vão na conversa.

Resumindo, a NATO foi relegada para segundo plano e apenas interessa quando o receio bate à porta.

A estrutura militar da NATO, que partilha uma linguagem comum, uma estratégia que levou décadas a definir, uma operacionalidade que demorou anos a construir, não tem qualquer correspondência com o modelo de governação definido pelos tecnocratas da Comissão Europeia.

O desafio que se coloca aos europeus é simples, manter a NATO como pilar da defesa da Europa e responsável pela estratégia militar e a União Europeia sua financiadora, ou, em alternativa, ficar à mercê dos desvarios dos russos e outros ditadores que apareçam.

A União Europeia nunca foi um projeto de defesa, mas sim um projeto económico, ao contrário da NATO que foi, desde a sua génese, não apenas um amplo e consensual projeto, mas também, um plano de defesa comum.

Contudo, a leviandade dos tecnocratas da União Europeia que julga saber de tudo, desconhece que na guerra as botas são cardadas, as mãos sujam-se e defender a Democracia implica fazer opções.