
No momento em que esta Nota da Semana é redigida os resultados finais do ato eleitoral do passado dia 18 de Maio, ainda aguardam pela contagem do circulo eleitoral das nossas comunidades emigradas.
Contudo, é já possível perceber-se que as Legislativas deram origem a uma configuração parlamentar em que a direita obteve a maioria dos deputados, resultado do crescimento de todos os Partidos desse espetro político (coligação AD, IL e CHEGA), em detrimento de todos os outros que se posicionam na esquerda (PS; LIVRE; coligação CDU; BE e PAN).
Notas ainda, para a entrada de um novo Partido, neste caso os Juntos Pelo Povo (JPP), com 1 deputado eleito pelo círculo eleitoral da Madeira, e que se posiciona mais à esquerda, assim como a perspetiva de nova redução do valor da abstenção passando de 40,16% registado nas eleições legislativas de 2024, para 35,62%, com a ressalva de que se aguardam os votos da nossa diáspora.
Longe dos comentadores políticos que pululam pelos diversos canais de televisão, cuja maioria deles deveriam estar calados e em profunda reflexão, e dos erros das diversas sondagens, muitas delas criadas ao sabor de interesses partidários, ou pelo menos dessa fama não se livram, importa perceber os motivos porque a AD ganhou, o PS perdeu e o CHEGA aumentou os mandatos na Assembleia da República, podendo chegar ao número de 60 deputados, mais 10 do que em 2024, passando a ser o segundo maior grupo parlamentar e com isso obtendo o estatuto de líder da oposição.
Comecemos pela coligação da AD.
Neste caso a vitória ficou a dever-se a vários aspetos, desde logo a concretização de diversos processos negociais com várias classes profissionais do Setor Público, designadamente policias, professores, médicos, enfermeiros, entre outros, esvaziando por conseguinte alguma contestação e conseguindo que as greves que decorreram durante a campanha eleitoral, designadamente nos Caminhos-de-ferro, vulgo CP, fossem consideradas por grande parte dos portugueses como sendo vazias de razão e de natureza meramente política.
O segundo aspeto prendeu-se com o facto de que o ataque pessoal à figura do candidato a Primeiro-ministro pela AD, neste caso Luís Montenegro, era descabido. Na medida em que o próprio conseguiu passar a imagem de que, antes da política e para lá da política, tinha a capacidade de ter uma vida profissional que lhe permitia, e permitirá, ser independente.
Também aqui, o caso da Spinumviva tornou-se para a esquerda o único argumento plausível para ganhar eleições, quando os eleitores desejavam que não tivesse havido eleições por algo que pareceu, à vista de parte significativa dos portugueses, como sendo um exagero o seu aproveitamento politico.
Ainda no contexto da empresa familiar, depois de duas moções de censura chumbadas ao Governo, ninguém percebia e percebeu, o chumbo da moção de confiança por uma diferença relacionada com o tempo da duração de uma eventual Comissão de Inquérito. Ou seja, o chumbo da moção de confiança assentou apenas na diferença entre essa Comissão ter 90 ou 120 dias de duração!
Já para não se dizer que uma parte significativa dos portugueses não entendeu o chumbo das duas moções de censura, respetivamente do CHEGA e do PCP, por parte dos Partidos da oposição, mas ao mesmo tempo esses mesmos partidos afirmavam que o líder do Governo era, no mínimo, uma pessoa pouco séria!
No entanto, a maior razão para a vitória da AD radica no simples facto de que as expetativas geradas ao longo dos 11 meses de governação, nomeadamente da possível melhoria das condições de vida dos cidadãos, foram abruptamente interrompidas por estratégias politicas desenhadas nos corredores do poder, e aqui o “zé-povinho” não perdoou.
Já a derrota do PS nas eleições ficou a dever-se a outros aspetos, e um deles foi o facto de ter um líder, Pedro Nuno Santos, conotado com a ligação à “geringonça”, nomeadamente ao processo negocial com o BE, algo que António Costa soube ultrapassar e lhe permitiu ter obtido uma maioria.
Depois, pesou o passado enquanto Ministro socialista, onde as decisões tomadas de forma informal são uma mancha no respetivo currículo que, somadas à incapacidade de fazer passar a mensagem de que as razões da queda do governo nada tinham que ver com a sua liderança, impediram a construção de uma imagem de alternativa credível para o eleitorado.
Por último, e talvez a mais importante, o PS perdeu as eleições pelos erros cometidos no tema da imigração, onde não sobe descolar atempadamente da agenda mediática imposta pelo BE e do discurso da necessidade da vinda de mais imigrantes numa lógica de “portas abertas”.
Quanto ao crescimento do CHEGA, podemos dizer que a reviravolta na campanha sucedeu com os protestos da minoria de etnia “cigana”, tendo André Ventura assumido uma postura de maior combatividade e conflito, partindo da premissa de que aos direitos devem juntar-se os deveres por parte dessa etnia.
Essa postura foi o lastro para a mobilização do seu eleitorado que, associada à questão da imigração e da identidade cultural, levaram a que a abstenção voltasse a diminuir.
Sobre esse particular, seria bom que os outros Partidos se questionassem sobre as razões que levam um País de emigrantes, como é o nosso, a votar no CHEGA.
Muito provavelmente isso ficará a dever-se à forma como os nossos concidadãos se integraram nos países de acolhimento, aceitando as regras e a cultura dominante, algo que na atualidade não vêm suceder no seu País de origem.
Também aqui uma palavra para a questão das perceções, pois na realidade a perceção de insegurança existe na maioria da população, e esta advém da existência de comunidades imigrantes cada vez mais numerosas no espaço público.
Nesse contexto, o Partido CHEGA tirou partido da incapacidade das outras organizações políticas assumirem esse sentimento existente em parte da população nacional, que sente que pouco, ou nada, tem sido feito para ultrapassar essa dita “perceção”.
Por último, e talvez mais importante, o crescimento do CHEGA foi também suportado pelo facto de que uma parte significativa da Sociedade Portuguesa está farta e saturada do discurso mediático sobre a “ideologia de género”, da ocupação de casas, entre tantos outros assuntos, que apenas cabem na agenda do BE e que revelam o pendor extremista da sua líder, Mariana Mortágua.
A mesma líder que sendo natural de Alvito, viu o Partido de André Ventura ganhar nesse mesmo concelho.
Quanto ao número de votos, não é displicente dizer que o CHEGA cresceu por força da redução da abstenção, o que revela a sua capacidade de mobilizar eleitorado que, habitualmente, não vai votar e por essa via o potencial de crescimento deste Partido ainda não terminou.
Quanto à coligação da AD, esta reforçou a sua votação graças à transferência de votos do eleitorado do centro que, por norma é flutuante, passando do PS em 2024, para o PSD (AD) em 2025.
Por outro lado, o PS perdeu votos não apenas para a AD, mas de igual modo para o LIVRE, uma esquerda mais moderada e utópica que, caso venha a ser contaminada pela agenda do BE (esperando-se que não), acabará por ser dissipada em próximos atos eleitorais.
Por fim, a coligação liderada pelo PCP, neste caso a CDU, vai resistindo como faz parte da sua natureza, sem mudar as convicções, concorde-se ou não com elas, apesar de ter perdido pouco mais de 24 mil votos e 1 deputado.
Os tempos vindouros não serão fáceis, mas espera-se que quem elegemos para nos representar na Assembleia da República tenha o bom senso de nos dar descanso, isto no que a eleições diz respeito, pois ainda faltam as autárquicas e as presidenciais que terão lugar entre Setembro de 2025 e Janeiro de 2026.

