NOTA DA SEMANA: Quando a ignorância americana é mais inteligente do que a inteligência europeia

Algum tempo atrás a questão da Gronelândia estava na ordem do dia, assistindo-se com estupefação à intenção da administração norte-americana de anexar esse território, colocando em situação de impasse o normal funcionamento da NATO.

A Gronelândia, parte integrante do Reino da Dinamarca, com pouco mais de 50 mil habitantes, mas gozando de uma significativa autonomia administrativa, contando com um Parlamento e Governo locais, é um vasto território dotado de significativas riquezas, nomeadamente terras raras, ouro, urânio, e reservas de petróleo.

No entanto, não é apenas fruto das riquezas minerais que a Gronelândia possui que esta é demasiado interessante para o governo dos Estados Unidos da América (EUA), e nem sequer o interesse por esse território é algo de recente, ou sequer da cabeça de Donald Trump.

Na realidade, a vontade de anexação desse território pelos americanos remonta ao século XIX, tendo essa intenção assumido diversas formas, nomeadamente a compra da ilha ou simplesmente a sua ocupação militar, não sendo estranho a isso os factos de que a ilha esteve já ligada, pelo gelo, aos EUA e fazer parte do subcontinente norte-americano.

No entanto, quando o atual Presidente norte-americano assumiu essa vontade, e que faz parte da conceção estratégica que os militares americanos nunca descartaram para a defesa dos EUA, a Europa ficou siderada e logo tratou de apelidar Donald Trump como alguém ignorante, entre outros impropérios.

Contudo, a Gronelândia não interessa aos americanos apenas por razões da sua defesa contra misseis balísticos russos, ou exploração espacial, nem sequer para simples exploração mineral.

A Gronelândia passou a interessar ainda mais aos americanos, em face da perspetiva de abertura de novos canais de passagem para os navios mercantes, resultado do degelo de enormes massas glaciares.

A perspetiva de novas rotas comerciais, apetecíveis aos russos que detêm os maiores e mais potentes quebra gelos nucleares, e aos chineses que ambicionam dominar novas “rotas da seda”, reforçou o interesse dos americanos na maior ilha do Reino da Dinamarca.

Ao longo de décadas foram estabelecidos novos acordos visando a segurança da ilha e o controle militar pelos americanos, tendo sido o mais abrangente o de 1951 que permitiu a abertura e a instalação de diversas bases militares, integrando a rede de defesa norte-americana.

No entanto, se no início era apenas a componente militar que estava subjacente aos interesses americanos, agora a esta juntou-se a componente económica, face ao interesse dos russos e dos chineses nas suas estratégias de expansão comercial.

Infelizmente, a Europa, como sempre, continua na sua redoma moral sem ser capaz de gizar uma estratégia e, resultado disso, no dia 22 de Setembro, nas Nações Unidas, a Administração Norte-americana, o Governo Dinamarquês e o Governo Local da Gronelândia, assinaram um novo tratado.

Esse novo tratado, de natureza perpétua, não apenas reforça e amplia o papel de defesa da Gronelândia pelos americanos, possibilitando a soberania militar sobre a ilha, como ainda permite às administrações dos EUA a supervisão dos investimentos em diversas áreas associadas à segurança e à defesa, à exploração dos recursos necessários a esse efeito e à circulação marítima através da monitorização militar dos navios.

Outro aspeto crucial no novo acordo agora assinado, foi o facto de que este passou a envolver três entidades como já referi, a Administração Norte-americana, o Governo da Dinamarca e o Governo Local da Gronelândia, coisa que nunca antes tinha acontecido em acordos / tratados anteriores, sendo agora assegurada a integração da ilha na NATO e a sua defesa por parte dos americanos, em caso de independência.

Em suma, o novo acordo aumenta as possibilidades da independência da Gronelândia, na medida em que a sua defesa e sobrevivência económica passaram a ser viabilizadas pelos americanos, ao mesmo tempo que permite visualizar no horizonte uma possível integração nos EUA.

Para isso, após a eventual independência da Gronelândia, não será de todo impossível, em eleições livres, a criação de um movimento político pró-anexação pelos EUA.

Donald Trump foi um negociador, pressionou com uma eventual anexação, criou o alarido necessário, e no fim conseguiu o melhor acordo / tratado que alguma vez foi assinado sobre a Gronelândia. Agora, as mentes europeias anunciam que o Presidente Americano falhou na sua pretensão. Mas, afinal, qual era a pretensão de Donald Trump? Invadir ou negociar?

No fim, a ignorância americana foi mais inteligente que a inteligência europeia!