
Na passada sexta-feira e depois da cerimónia oficial da partida do Rali de Portugal, em Coimbra, e da super especial na Figueira da Foz, foram os míticos troços de Arganil, Lousã, Góis e Mortágua da 59.ª edição desta prova do Campeonato do Mundo (WRC) que, mais uma vez, trouxeram até nós os melhores pilotos mundiais e muitos milhares de adeptos, nacionais e estrangeiros, para ver passar as “máquinas”, para ver e aplaudir os pilotos.
E se na sexta-feira foi cancelado o troço Arganil 2 por motivos de segurança e situações insólitas (ver caixa), nem por isso o Rali deixou de ser a “festa da velocidade e do povo”, como alguém escreveu (e bem), porque mesmo apesar de ser indiferente para alguns, não deixa de ter os apaixonados que vibram e vivem esta que é a mais importante prova a contar para o Mundial de Ralis.
E além da competição entre os melhores pilotos do mundo, a sempre habitual e concorrida festa (que nem a chuva é capaz de contrariar) espalhada por toda a serra ao longo dos troços, onde não faltam os comes e bebes, a cerveja, de tudo um pouco para o convívio entre pessoas, entre grupos que fazem deste dia o há muito chamado “dia de S. Rali” e que muitos acompanham do princípio ao fim.
E sem saudosismos bacocos, há muitos anos Arganil foi considerada a Capital do Rali. E assim era conhecida em todo o Mundo. Os anos passaram, a segurança foi sendo cada vez mais apertada, as regras foram mudando, até que o Rali deixou estas serras e estas terras, ficando apenas a saudade das grandes noites de Arganil onde alguns dos grandes campeões se sagraram mesmo vencedores da prova. Como a consagrada Michèle Mouton.
E depois de muitos reuniões, muitas exigências, esforços, o Rali voltou para Arganil e para a região. Honra seja feita aos autarcas, sobretudo, que tanto lutaram para que trazer de volta o Rali de Portugal. E o importante é que, anos depois, o Rali voltou. E como diz o povo, “quem o tem chama-lhe seu”, porque como ouvimos em entrevistas mais ou menos inflamadas, era dito que o Rali aqui é melhor, é mais espectacular, os troços têm melhores condições até para o público poder ver passar as “máquinas” e os pilotos.
Não entramos em polémicas dessas, porque afinal e o mais importante de tudo é que o Rali de Portugal além de ter voltado para a sua Capital, não deixou de voltar de novo em grande e em força para Góis, para a Lousã, para Mortágua, para Coimbra e para a Figueira da Foz, num abraço entre concelhos onde, como mais ou menos pessoas, se voltou a vibrar com esta grande festa que é o Rali de Portugal.
No Sub-Paço, em Arganil, um mar de gente para assistir à chegada (e à partida) dos pilotos e das máquinas que ali permaneciam durante algum tempo para uma lavagem, para assistência e que acaba mesmo por se traduzir também numa autêntica “romaria” que, em cada ano, enche aquele espaço da vila, onde as pessoas têm oportunidade de saudar, de pedir autógrafos aos pilotos, de estarem mais perto dos seus ídolos, como o Ogier, que um arreliador furo no seu Toyota Yaris, acabou por o afastar da liderança da prova, cuja vitória acabou por sorrir ao piloto belga Thierry Neuville, ao comando do Hyundai i20, repetindo o feito conseguido pela primeira vez em 2018.
Ogier e Neuville destacaram-se na Lousã
A Mata do Sobral, localizada na fronteira entre a freguesia de Serpins e o concelho de Góis, também foi palco da 59.ª edição do Rali de Portugal. A prova decorreu no dia 8 de maio, num troço novo, debaixo de alguma chuva e com muito público a assistir. Thierry Neuville venceu a primeira passagem no concelho lousanense, mas desceu para a segunda posição na segunda, ultrapassado por Sébastien Ogier.
Os pilotos iniciaram o segundo dia do Rali de Portugal em Mortágua, seguindo-se Arganil e a Lousã, que encerrou a manhã. O barulho dos motores ecoou na Mata do Sobral, pela primeira vez, pouco depois das dez da manhã, e a chuva não afastou o público do local. No final, Thierry Neuville, piloto da Hyundai, teve o melhor registo nesta sexta especial, com um tempo de 4 minutos e 32,5 segundos. Na segunda passagem, apesar de conseguir reduzir para 4 minutos e 31,1 segundos, ficou em segundo lugar.
De tarde, começaram em Arganil com a sétima especial, que sofreu alguns percalços ao nível da segurança e acabou interrompida. Depois deste episódio mais conturbado, os pilotos conduziram até Góis, onde decorreu mais uma prova, antes de chegarem novamente ao concelho lousanense. Nesta segunda passagem, Sébastien Ogier repetiu o feito das duas especiais anteriores, assumindo o primeiro lugar com o cronómetro a assinalar 4 minutos e 30,3 segundos, tendo sido 2,6 segundos mais rápido do que na passagem matinal pela Lousã, na qual ficou em segundo lugar. Terminada esta prova, a última paragem do dia foi em Mortágua.
Como já é habitual, do dia 7 para o dia 8 de maio, muitos aficionados pernoitaram em tendas e caravanas perto do local da prova. Por outro lado, no dia da competição, a Câmara Municipal da Lousã (CML) procurou assegurar o transporte de outras pessoas que queriam assistir ao evento, ainda que não tenha corrido da melhor forma. A afluência superou as expectativas e, ao início da tarde, ainda havia quem esperasse pelo autocarro, ficando impossibilitado de ver a primeira passagem dos pilotos no concelho.
Victor Carvalho, presidente da CML, reconheceu que houve falhas ao nível do transporte. “Não correu tão bem como estávamos à espera. Fomos muito solicitados e tínhamos milhares de pessoas à espera de autocarro”, admitiu. O troço da Lousã, que costumava integrar o Rali de Portugal, foi substituído por um novo e, segundo o autarca, não é tão “acessível” ao público. Por este motivo, o município procurou assegurar a deslocação através de “autocarro”, mas não esperava tanta adesão.
Victor Carvalho está confiante que o Rali de Portugal vai regressar à Lousã no próximo ano
A CML, em linha com o que aconteceu em 2025, investiu “75 mil euros” para receber esta competição, tendo chegado a acordo com o Automóvel Club de Portugal (ACP). “Por muito importante que seja o rali, não podemos comprometer as contas públicas”, explicou o presidente do município, revelando que “não há conversações firmes, mas há uma enorme vontade da Lousã [para] receber” o evento no próximo ano. “Dentro de valores que se considerem justos e equilibrados, a Lousã estará cá para acolher o Rali de Portugal”, concluiu.
“A Lousã tem uma marca histórica relacionada com o Rali de Portugal”, afirmou Victor Carvalho, considerando que é conhecida pelos seus “troços de grande beleza natural”. Sublinhou também a importância desta prova para aumentar a visibilidade do “território”, quer a nível nacional, como mundial, com o intuito de chamar mais turistas ao concelho. “Eu reconheço que, hoje, [para] o nosso comércio e os nossos empresários locais, pouco se reflete o evento que aqui se faz. Mas, o dar a conhecer o território (…) a Lousã ser falada em todo o mundo (…) atrai sempre novos visitantes”, mencionou. Esta aposta, segundo o próprio, pretende alcançar o mesmo objetivo dos “festivais gastronómicos” e das outras “iniciativas culturais e desportivas” dinamizadas pelo município, ou seja, promover o turismo “ao longo de todo o ano”.

