MIRANDA DO CORVO: Templo Ecuménico assinalou o 10.º aniversário

No passado dia 11 de setembro, o Templo Ecuménico Universalista comemorou o 10.º aniversário. Localizado em Miranda do Corvo, no topo do Parque Biológico da Serra da Lousã, o espaço que une 15 religiões tem agora uma estrada de acesso pavimentada, que foi inaugurada na mesma data.

“Havia pessoas que queriam visitar o Templo, mas [a estrada] estava em terra batida, tinha muito pó, quando chovia tinha muita lama, e acabavam por não vir”, começou por mencionar Jaime Ramos, presidente do conselho de administração da Fundação ADFP – Assistência, Desenvolvimento e Formação Profissional, entidade que gere o Templo Ecuménico Universalista. Inclusivamente, contou o responsável em entrevista à A COMARCA, houve um motorista de autocarro que se recusou a transportar um “grupo de estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra” na última fase do trajeto até ao Templo, dada a falta de condições na respetiva estrada de acesso. “Agora, isso acabou”, frisou.

A inauguração da estrada recém-pavimentada contou com a presença de elementos do anterior executivo municipal, que iniciou a obra, e do atual, que a concluiu. Marilene Rodrigues, que desempenhou funções, entre 2021 e 2025, como vice-presidente na Câmara Municipal de Miranda do Corvo, destacou que a melhoria neste “acesso” vai atrair “mais pessoas” ao concelho e ao “Templo Ecuménico”, congratulando o novo executivo local por ter “concluído” este projeto. Ana Sofia Vaz, atual vice-presidente do município, apontou que a “pavimentação da estrada do Templo (…) representa um grande salto na valorização turística do território”.

Templo pretende “homenagear” as vítimas do “fundamentalismo espiritual e religioso”

“[Trata-se] de uma obra importante naquilo que significam os valores de uma civilização, naquilo que são os princípios da tolerância e do respeito com quem pensa diferente”, mencionou Jaime Ramos durante o brinde ao 10.º aniversário do Templo, momentos depois da inauguração da estrada. No entanto, o dirigente da ADFP sublinhou que “tolerância” não significa aceitar “radicalismos e fundamentalismos” religiosos, recordando os ataques terroristas que ocorreram a 11 de setembro de 2001. “Faz 25 anos que, em Nova Iorque, houve aqueles atentados nos Estados Unidos, os mais conhecidos [contra] as Torres Gémeas”, referiu, completando que tais acontecimentos “mostram” a “raiva e o ódio” que existem no “planeta”, nomeadamente no que respeita às “culturas religiosas”.

Na perspetiva do principal responsável pelo Templo Ecuménico, é necessário enfrentar a “raiva e o ódio”, tendo o cuidado de “não combater as religiões”. “Precisamos que as pessoas tenham fé e valores ligados à moral (…) as culturas espirituais são importantes para unir e melhorar as comunidades”, realçou o antigo presidente da Câmara de Miranda do Corvo, alegando que as doutrinas religiosas são “todas diferentes” entre si, ainda que se unam na “defesa de valores” como a “justiça, a equidade e a ética”.

Jaime Ramos revelou ainda que o “Templo foi construído para homenagear todas as pessoas que morreram, ao longo de séculos, fruto do fundamentalismo espiritual e religioso”, argumentando que o ateísmo também conduziu a massacres entre povos. “Quando os ateus tomaram o poder, em vários pontos do mundo, fizeram das maiores carnificinas que a história tem em memória”, defendeu. “O Templo existe para recordar todas essas barbaridades que aconteceram (…) e contribuir para que, no futuro, tenhamos povos com valores civilizacionais [assentes] na tolerância e no respeito, sem exageros”, declarou.

A fechar a sua intervenção, o fundador da ADFP relembrou que a instituição está envolvida num processo judicial por, alegadamente, ter “arrancado” alguns “eucaliptos” que se encontravam ao redor do Templo. À margem das celebrações de aniversário, Jaime Ramos esclareceu que a ADFP foi “absolvida”, em primeira instância, pelo Tribunal Coletivo de Coimbra. No entanto, o “Ministério Público recorreu” da sentença e a Fundação encontra-se à “espera de uma decisão final” neste litígio.

Isabel Bello apresentou o livro: “O Templo Ecuménico e a Proporção Divina”

Antes de terminar a celebração do aniversário, decorreu a apresentação da obra “O Templo Ecuménico e a Proporção Divina”, de Isabel Bello, num painel composto por António Simões, Paulo Mendes Pinto e Jaime Ramos. Neste livro, a autora procurou revelar a presença da matemática – área na qual é formada – na arquitetura e no simbolismo cultural do Templo Ecuménico, estabelecendo relações, proporções e significados simbólicos que visam ajudar a compreender melhor os valores que conduziram à criação deste espaço inter-religioso. “A ciência e a espiritualidade, a razão e a contemplação, a objetividade e a sensibilidade encontram aqui um terreno comum de diálogo e enriquecimento mútuo”, escreveu Jaime Ramos no prefácio da obra.

“A matemática é uma forma de compreender o mundo, de descobrir relações, padrões, equilíbrio e harmonia, onde, à primeira vista, vemos apenas formas e estruturas”, começou por referir Isabel Bello. De acordo com a autora, esse “olhar matemático” permitiu-lhe “observar, de uma forma diferente, o Templo Ecuménico”, levando-a a “questionar as suas formas, dimensões, proporções e a relação que poderia existir entre os [seus] diferentes elementos”. Desta forma, ao “investigar, comparar, medir e procurar respostas” para as suas dúvidas, alcançou uma “descoberta fascinante”: a “presença da proporção divina” neste local. Segundo a própria, esta consiste numa “proporção” que se “encontra em diferentes manifestações”, nomeadamente na “natureza, na arte, na arquitetura e na criatividade humana”.

Ainda durante a apresentação do livro, António Simões destacou que a “relação” estabelecida por Isabel Bello “convida a olhar para a arquitetura, não apenas como uma construção, mas como uma forma de expressão de conceitos que atravessam séculos de pensamento humano”. Segundo o orador, a “proporção divina não é, simplesmente, uma forma matemática”, dado que, “ao longo da história”, esteve sempre “associada à harmonia, ao equilíbrio e à beleza”. Paulo Mendes Pinto, por sua vez, salientou que esta publicação resulta numa “aula de geometria” que “ajuda a compreender”, de modo mais pormenorizado, o “Templo”, evidenciando que na “geometria” e na “arquitetura” existe uma regra: “tudo obedece a um plano”. Por outras palavras, nestas duas disciplinas “nada é colocado ao acaso”, existindo sempre uma “lógica que obedece a uma sabedoria divina”.

Terminada a exposição da obra, o Grupo de Ginástica Infantil da Casa do Povo de Miranda do Corvo realizou uma atuação para o público presente no evento, antes de estes seguirem para o Hotel Parque Serra da Lousã, onde teve lugar um jantar tertúlia.

O Templo Ecuménico Universalista foi inaugurado a 11 de setembro de 2016, sendo um espaço destinado à reflexão espiritual de pessoas de diferentes religiões, promovendo valores como a bondade, a moral e a verdade. Também tem as portas abertas a cidadãos sem crenças religiosas, disponibilizando a todos os visitantes factos, dados cronológicos e informação sobre a história de 15 religiões, além de ter um espaço dedicado à intolerância e aos conflitos religiosos

Pedro Cunha – Estagiário