
A Sociedade de Recreio Filarmónica Avoense vai comemorar, a 15 de agosto, no Centro Cultural Doutor Vasco de Campos, 160 anos de vida. O presidente da direção, Bruno Santos, explicou o trabalho que tem sido desenvolvido pela coletividade mais antiga da freguesia de Avô, em Oliveira do Hospital, antecipando também alguns detalhes relativos às comemorações do aniversário desta banda filarmónica.
Bruno Santos faz parte da Filarmónica Avoense há “onze anos”, tendo passado anteriormente pela Sociedade Filarmónica Flor do Alva, a qual integrou entre os “oito” e os “25” anos de idade. Após algumas “desavenças” no interior do grupo arganilense, sediado na União de Freguesias de Vila Cova de Alva e Anceriz, de onde é natural, optou por sair. O interesse pela banda filarmónica da freguesia de Avô, que pertence ao concelho de Oliveira do Hospital, surgiu por causa do seu “primo”, Luís Ricardo Gonçalves, que desempenha funções como “maestro” da Filarmónica Avoense e o convidou para integrar esta associação.
A 26 de janeiro de 2025, na Assembleia Geral que ditou a eleição dos órgãos sociais para o triénio 2025/2027, o grupo avoense confiou em Bruno Santos para assumir a presidência da direção. Para já, prefere não revelar se, no final deste mandato, voltará a recandidatar-se ao cargo que ocupa, mas não esconde o “orgulho” que sente por “presidir uma coletividade” com 160 anos de “história”.
Desde que assumiu a presidência da associação, o maior desafio que enfrentou foi a angariação de fundos para comprar o novo “fardamento” dos elementos da banda. De acordo com o entrevistado, este objetivo foi alcançado com o “apoio da Câmara Municipal [de Oliveira do Hospital] e da população de Avô”. Outras das metas a atingir “este ano”, continuou o dirigente, será a deslocação do grupo a “Espanha”, mais concretamente a “Pliego”, na província de “Múrcia”, estando prevista a realização de um “intercâmbio com uma filarmónica” localizada naquele município.
A Filarmónica Avoense “é a menina bonita aos olhos” da população local, sendo
a “coletividade mais antiga” da freguesia
As informações sobre a Filarmónica Avoense, nomeadamente entre “1866 e 1922”, são quase inexistentes. Inclusivamente, não há “registos sobre as atas” da associação durante este período, como explicou Bruno Santos, o que dificulta o respetivo enquadramento histórico. Quando a associação comemorou “150 anos”, em 2016, o escritor “Rodrigues Gonçalves” publicou a obra “Fotobiografia da Sociedade de Recreio Filarmónica Avoense”, contributo literário que procura traçar a história desta instituição. Apesar da pouca informação disponível sobre os primeiros passos desta coletividade, há dois nomes que aparentam ter sido decisivos na sua fundação: “Bernardo da Costa e Manuel Afonso”.
A grande herança deixada pelas gerações anteriores aos atuais elementos da banda são as “partituras” de músicas antigas, que eram tocadas maioritariamente em “marchas de rua” e “procissões”. Apesar de Bruno Santos reconhecer que raramente são tocadas nos dias que correm, essas composições musicais encontram-se em exposição no espaço museológico da Filarmónica Avoense, assim como retratos, fotografias, estandartes, instrumentos e fardas antigos, entre outros. Atualmente, os membros ainda tocam o Hino da Filarmónica nos aniversários, que foi escrito por Vasco de Campos, e mantêm uma forte ligação à Igreja Católica, participando em celebrações de âmbito religioso.
“Não somos melhores, nem piores, do que ninguém. Cada filarmónica tem a sua essência. Uma das coisas que nos caracteriza é o nosso boné, com o guarda-pó branco”, apontou o dirigente, acrescentando que este elemento distintivo consiste numa “tradição da Filarmónica Avoense”. Por outro lado, quando questionado sobre a importância desta banda para a freguesia de Avô, respondeu de forma clara: “é a menina bonita aos olhos dos avoenses”, desde logo, por ser a “coletividade mais antiga” da freguesia. No entanto, sublinhou que esta é uma “terra de instituições culturais” sem paralelo no “distrito de Coimbra”, com um forte espírito de entreajuda. Aliás, existem pessoas que estão envolvidas em mais do que uma associação, nomeadamente no Rancho Folclórico Camponesas do Alva, na Tuna Cantares de Avô, no Grupo Concertinas e Cordas Princesa do Alva e no Grupo Coral (Choral Poliphónico do Alva). No caso de Bruno, por exemplo, é atualmente presidente da Filarmónica, faz parte do Rancho e exerce funções como tesoureiro na Tuna.
A Filarmónica Avoense ensaia às “sextas-feiras” e incorpora “35 elementos”, o “mais novo” tem “sete anos” de idade e o “mais velho” cerca de “75”. A “maioria” destas pessoas são “jovens” e, algumas delas, vêm de freguesias vizinhas. “O azar de uns é a sorte de outros”, referiu Bruno Santos, explicando que, por exemplo, com o fim da Filarmónica de Pomares, freguesia que pertence ao concelho de Arganil e faz fronteira com Avô, o grupo adquiriu novos membros oriundos daquela localidade. O presidente da direção revelou também que procuram “cativar” os mais novos através da dinamização de algumas atividades, dando como exemplo o “Segundo Estágio da Filarmónica Juvenil”, organizado pela “Escola de Música” da banda avoense, que vai acontecer entre os dias 11 e 13 de agosto.
No que respeita às iniciativas que a banda realiza ao longo do ano, Bruno indicou que “a maior parte” consistem em “festas religiosas”, tendo admitido que são fundamentais para a associação “sobreviver” financeiramente, além de participarem em alguns “concertos” e “intercâmbios” com bandas congéneres. Ainda no âmbito económico, quando questionado sobre quais as principais dificuldades que a Filarmónica Avoense enfrenta, Bruno Santos respondeu que “financeiramente” não estão “mal”, embora lamente que o trabalho que desenvolvem nem sempre seja valorizado.
“As pessoas querem as Filarmónicas à borla (…) as comissões de festas não ligam [se as bandas têm] muitos [elementos] ou se têm poucos, se são boas ou más. Querem as coisas quase dadas e não pode ser”, criticou o presidente da associação avoense. Por outro lado, constatou que, enquanto uma “filarmónica” poderá receber entre “800 ou 900 euros” por atuação, as mesmas entidades “são capazes de dar dois ou três mil euros por um artista ou por um conjunto [de músicos]”, algo que na sua perspetiva é injusto. No entanto, reconheceu que, muitas vezes, são forçados a atuar por valores mais “baratos”, dado que precisam de aproveitar as oportunidades que surgem para tocar em público. “[Se bem que], às vezes, mais vale ficarmos em casa porque não compensa”, sublinhou.
Outro dos problemas que a banda enfrenta, e que poderá colocar em causa a sua continuidade, é o “envelhecimento” da comunidade local e a falta de oportunidades na vila, forçando muitas pessoas a sair em busca de uma vida melhor. Continuamente, de ano para ano, a freguesia de Avô tem perdido população, o que representa um perigo para a sobrevivência futura da instituição, lamentou Bruno Santos. Por este motivo, segundo o atual presidente, até 2066, ano em que a associação comemorará 200 anos, a principal missão do grupo será “manter a Filarmónica”, atraindo elementos para que esta continue viva.
Recorde-se que, de acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística relativos a 1991, Avô tinha uma população residente de 762 habitantes. Dez anos mais tarde, o número reduziu para 633. No ano de 2011, passou para 595. Finalmente, os Censos relativos a 2021 indicam que a comunidade local ficou reduzida a 473 pessoas. Portanto, a freguesia está a sofrer um decréscimo populacional, tendo perdido 289 habitantes entre 1991 e 2021, o que corresponde a uma redução de cerca de 38% da população residente durante este período.
O programa comemorativo do 160.º aniversário vai arrancar pelas 9 horas e terminar ao fim da tarde, com a execução do Hino da Filarmónica
Contrariamente ao que estava previsto, a Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro, do Montijo, não vai comparecer nas comemorações do aniversário da Filarmónica Avoense. “Queria ter uma banda filarmónica cá no nosso aniversário. Estava tratado desde dezembro ou janeiro”, começou por dizer Bruno Santos. Contudo, a cerca de “15 dias” das celebrações, a associação do Montijo cancelou a sua presença. Para colmatar tal ausência, o dirigente está a tentar encontrar “um grupo” com disponibilidade para atuar “durante a tarde” do dia 15 de agosto, mas à data da entrevista não dispunha de mais informações sobre este tema.
O programa arrancará pelas 9 horas, com o hastear da bandeira e a interpretação do Hino da Filarmónica. Seguir-se-á a arruada pelas ruas da vila e a romagem ao cemitério de Avô, onde vão tocar a “Marcha Fúnebre” em homenagem aos antigos dirigentes, executantes, maestros sócios e amigos da filarmónica. Por volta da 13-30 horas, serão recebidas as entidades convidadas e terá início o almoço de aniversário no Centro Cultural Doutor Vasco de Campos. A sessão solene realizar-se-á depois, pelas 16-30 horas, e as celebrações encerrar-se-ão pelas 18 horas, com a execução do Hino da Filarmónica Avoense. De acordo com a instituição, será um dia celebrado com “música, amizade e tradição”.
Bruno Santos agradeceu à Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, à Junta de Freguesia de Avô e aos associados, frisando que o apoio que fornecem à Filarmónica Avoense é muito importante no seu dia a dia. Por outro lado, deixou ainda um “louvor” a Luís Ricardo Gonçalves, maestro da banda, e a Ângelo Miguel Santos, professor da Escola de Música, pois no seu entender têm sido peças essenciais para a evolução musical do grupo.
A Sociedade de Recreio Filarmónica Avoense conta com algumas participações em eventos internacionais. Além da deslocação a Espanha, que deverá acontecer este ano, a banda já esteve em França e no Luxemburgo, em 1986. Mais tarde, em 1998, regressou a França para participar no Festival Europeu de Música (Europeade) e, também no âmbito deste evento, esteve presente na Dinamarca, no ano 2000, e em Espanha, em 2001.
Pedro Cunha – (*) Estagiário

