BENFEITA: “Aldeia do Xisto da Paz”

No dia 7 de Maio, a Benfeita voltou a celebrar a Festa da Paz, recordando o fim da Segunda Guerra Mundial com o sino da Torre da Paz a tocar as 1670 badaladas que, segundo diz a tradição, tantas quantas durou o conflito e que, segundo o presidente da Câmara Municipal, Luís Paulo Costa, “este número marca aqui esta nossa aldeia da Benfeita e marca, naturalmente, o nosso concelho”.

E ontem como hoje, não será demais recordar o que A COMARCA noticiava, na sua edição de 8 de Maio de 1945, “o Sino da Paz na Benfeita tocou festivamente (…) para anunciar o fim da guerra na Europa, tocou festivamente durante toda a tarde e parte da noite de ontem, expandindo-se também o povo em manifestações de júbilo. Os sons alegres do sino ecoavam por montes e vales daquela humilde e graciosa aldeia serrana”.

Única no Mundo que com uma torre, um sino e um relógio exalta a paz

E se hoje essas manifestações de júbilo não são tão evidentes por parte do povo, desde então e em cada ano passados que são 81 anos, nesta “graciosa aldeia serrana” continuam a ouvir-se as 1670 badaladas, devendo ser a única no Mundo que com uma torre, um sino e um relógio exalta a paz e “um ano depois de a Benfeita nos ter recebido para a 1.ª edição da Festa da Paz, regressamos para dar continuidade a uma celebração que afirma a memória, a identidade e os valores desta comunidade”, considerou Luís Paulo Costa, acrescentando que “é nesta aldeia do nosso concelho que a paz encontra um dos seus mais belos significados. É daqui que parte, é aqui que ganha sentido, é aqui que se afirma como expressão de uma comunidade que soube transformar a memória em compromisso. (…) Todos os anos, a 7 de Maio, o sino da Torre da Paz faz soar 1620 badaladas. 1620 vezes. Não para contar os dias com exactidão, mas para dar voz à memória. Memória dos dias de guerra, do sofrimento e da destruição, mas sobretudo, afirmação de que a paz deve ser lembrada, cuidada e defendida. Um gesto simples, mas profundamente poderoso. Um gesto que transforma o som em memória e a memória em consciência”.

Classificação da Torre da Paz como um Monumento de Interesse Municipal

“A Torre da Paz é um elemento marcante do património local, mas é também muito mais do que isso. É um símbolo maior, um marco da nossa consciência colectiva. E é precisamente nesse duplo valor, o patrimonial e o simbólico, que assentou também a decisão do Município de Arganil em dar início ao processo de classificação da Torre da Paz como um Monumento de Interesse Municipal”, salientou o presidente da Câmara Municipal, sem deixar de recordar também os responsáveis pela sua construção, Mário Matias e Leonardo Matias, e por referir que “ao longo de 80 anos (…) o mundo mudou profundamente (…) e quando se pensava que havia aqui de facto uma paz prolongada na Europa”, a Europa e o Mundo estão em guerra e, por isso, “celebrar a paz não é apenas recordar o passado, é assumir um compromisso com o presente e com o futuro. (…) É isso que a Benfeita nos ensina, uma lição significativamente importante. Mostra-nos que mesmo a partir de um lugar relativamente pequeno no mapa é possível lançar uma mensagem com alcance universal. (…) Porque a paz não se constrói apenas em grandes decisões políticas ou diplomáticas, constrói-se no quotidiano, nas palavras que escolhemos, nas fontes que criamos, na forma como olhamos o outro. É verdadeiramente uma construção colectiva”, terminando com votos “que estas 1620 pedaladas continuem a ecoar, não apenas nas encostas desta nossa aldeia da paz, mas também em cada um de nós”.

Foram esses também os votos do presidente da Assembleia Municipal, António Cardoso, para considerar depois que “face ao momento que vivemos, é por isso oportuno não olhar apenas para o passado, mas sim fazer um compromisso de acção com o presente e com o futuro, (…) o momento exige de todos nós coragem, diálogo e respeito com vista à conquista da paz, da liberdade, da construção de um mundo mais justo, mais solidário e mais humano, onde não imperem a lei do mais forte”, terminando por deixar o apelo “que nunca deixemos de ouvir o Sino da Paz e reflectir sobre o significado das 1620 badaladas”.

Em representação do Chefe de Estado Maior do Exército, general Mendes Ferrão, esteve o brigadeiro-general Pedro Cruz, começando por considerar que a paz “é um tema que nos convoca a todos, porquanto é a missão das Forças Armadas em geral e do Exército em particular, assegurar a defesa militar do nosso país” e, por esse facto, não deixou de congratular “todos os que contribuíram para esta feliz iniciativa e desejar as maiores felicidades. Agradeço aqui que estamos no Município de Arganil, em particular nesta Aldeia do Xisto de Benfeita, que em boa hora nos recorda o valor precioso que é a paz”.

“Este é provavelmente o primeiro momento oficial que estou a ter enquanto presidente da ADXTUR” (Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto), começou por recordar Jorge Custódio (também presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra), e ainda o que tem sido feito por esta Rede “que tem procurado aqui as várias tipologias. É que temos aldeias que são claramente vocacionadas mais para os rios, outras para albufeiras, outras para actividades económicas, outras para a gastronomia, mas curiosamente não tínhamos até agora nenhuma vocacionada para este conceito que é tão importante para todos e que é a paz. Eu quase estava tentado a sugerir que, no próximo ano, seja feita aqui a Aldeia do Xisto da Paz, porque nós sabemos que a Benfeita é a aldeia que comemora a paz. (…) E é esta Benfeita que faz parte desta Europa também, e é com esta Benfeita que eu espero e esperamos todos que, durante os próximos anos, continuem a tocar o sino, com mais ou menos gente, mas que se continue sempre a dar força e enfoque no que é tão importante para todos nós e que é paz”.

A vice-presidente da Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Centro, Cristina Oliveira, começou por referir que “a paz todos os dias é para nós motivo de reflexão, a paz e a guerra, e todos os dias pensamos nos nossos e pensamos que estamos imunes a estes trágicos acontecimentos que nos entram pela casa adentro, mas não estamos”, pelo que “é de facto importantíssimo que se reflita, que se partilhe com os nossos filhos, com os nossos familiares, a importância de termos estabilidade, a importância de também termos forma de nos defendermos nacionalmente e, do ponto de vista da Europa, de nos defendermos de todos estes perigos e, sobretudo, de nos tornarmos todos muito mais fortes. E seremos sempre muito mais fortes se soubermos valorizar o que é nosso. E a Benfeita está a valorizar o que é seu. (…) E este celebrar da paz torna-nos mais portugueses e torna-nos também muito mais europeus, num momento em que a solidariedade europeia é, de facto, um valor a preservar, porque essa solidariedade é que nos fará preservar os nossos valores europeus, a nossa democracia. E se todos nós nos esforçarmos por comemorarmos estes momentos, certamente estaremos mais preparados para nos defendermos”.

Realçando o seu valor histórico e simbólico, foi depois apresentada a candidatura da Torre da Paz a Monumento de Interesse Municipal, “na reunião camarária de 23 de Março deste ano foi deliberado pela abertura deste procedimento” pela importância, por todo o seu historial, ficando votos que “com esta candidatura a Monumento de Interesse Municipal, a nossa Torre da Paz e o seu património associado, material e imaterial, colaborem nos esforços do estabelecimento da paz na mente dos homens e mulheres do mundo e que a paz seja connosco” e, assim sendo, não será demais voltar a recordar o que recentemente foi escrito nas colunas do nosso jornal, “enquanto houver uma comunidade disposta a tocar este sino 1620 vezes, a paz nunca será esquecida. A Benfeita mostra ao mundo que mesmo uma pequena aldeia pode guardar uma grande lição de humanidade”.

No jardim dedicado ao benfeitense Simões Dias e de entre outras actividades, foi depois visitada à exposição internacional “Memória: Totalitarismo na Europa”, que recorda o passado totalitário europeu e presta homenagem às vítimas dos regimes nazi, comunista e fascista ao longo do século XX e que, como disse o presidente da Câmara Municipal, “é uma exposição que nos lembra, de forma clara, a importância de preservar os valores da liberdade, da democracia e da dignidade humana”. E por tudo isto, não podemos terminar sem destacar ainda as bonitas vozes do grupo Canto D’Eira, “Ó gente boa e amiga/Vem à Benfeita e verás,/Junto à capelinha antiga/Ouvir o Sino da Paz”.