
Sábado último, 4 de Julho, a Beira Serra viveu um momento que merece não ser esquecido e que, por dever moral, mas também afetivo, não posso deixar de registar nesta crónica semanal que tenho a honra de subscrever.
Tanto mais que esse momento deverá perdurar no tempo, para que seja recordado pelas gerações vindouras e, dessa forma, fazer lembrar a todos que, nem todos, apresentam obra para que sejam perpetuados e façam parte da memória coletiva.
Esse momento foi a homenagem póstuma a José Dias Coimbra, mais conhecido por Prof. Coimbra, figura incontornável da História da Beira Serra, da região e com indelével marca nacional. Razão pela qual, no dia 10 de Junho de 2008, em Viana do Castelo, lhe foi atribuída a Comenda da Ordem do Infante, pelo então Presidente da República, Prof. Dr. Aníbal Cavaco Silva.
O Prof. Coimbra, não sendo uma figura consensual no campo da disputa política era, sem dúvida alguma, uma figura consensual no campo das amizades e muitas dessas amizades resultaram desse confronto de ideias políticas onde, aparentemente, não haveria espaço para laços de proximidade mas que, fruto da personalidade do mesmo, elas acabavam por brotar.
Esteve bem António Carvalhais da Costa, atual Provedor da Misericórdia de Arganil, quando, em boa hora e no momento certo, agarrou o desafio de perpetuar, conjuntamente com a Condessa das Canas e Fernando Valle, o nome de José Dias Coimbra no mesmo espaço.
Ao fazê-lo, não apenas mostrou humildade ao homenagear o seu antecessor, como de igual modo sublinhou a importância da palavra lealdade para quem, durante décadas liderou uma Instituição como é a Misericórdia e também por isso, sem atropelos e sem vaidades, guindou ao lugar de timoneiro da mais antiga Instituição do Concelho de Arganil o atual Provedor.
Haverá sempre uns detratores deste género de iniciativa. Ou porque não se gosta do homenageado, ou porque se considera existir um aproveitamento do momento, ou porque, simplesmente, há…ciúme!
E o ciúme dos homens, como dizia o prof. Coimbra, é a pior coisa que pode existir. E meus amigos que “ciumeira” por aí vai!
Desde muito cedo que o Prof. Coimbra sabia que tal iria suceder. Nos últimos anos da sua existência facilmente percecionou a ânsia daqueles que apenas almejavam o lugar que ainda ocupava, adulando-o com aquela hipocrisia tão característica de alguns seres humanos sem coluna vertebral…
Ou daqueles que o procuravam para obter algo, ou até mesmo para fazerem as pazes com o passado…
Contudo, o Prof. Coimbra reconhecia e conhecia-os à légua, e comentava…”estes coirões querem enganar-me” !…
No entanto, para lá da justeza da homenagem, no meu parco entendimento destas coisas, existe algo que deverá ser igualmente valorizado, não apenas a dignidade do ato e do cerimonial da homenagem, mas de igual modo a dignidade que todas as pessoas presentes acrescentaram ao momento.
Estiveram na homenagem não apenas anónimos que se cruzaram com o Prof. Coimbra e que nele reconheceram o mérito e a capacidade, mas acima de tudo a entrega, para resolver um qualquer problema que os afligia, como também marcaram presença diversas entidades e Instituições.
No entanto, há aspetos a destacar como a participação muito significativa de Misericórdias congéneres da Instituição arganilense, bastante revelador do prestígio que esta alcançou sob a liderança do prof. Coimbra.
Prova disso foram as presenças como oradores de António Sérgio Martins, Provedor da Pampilhosa da Serra e Presidente do Secretariado Regional de Coimbra das Misericórdias, assim como Carlos Andrade, representante da Direção Nacional da União das Misericórdias Portuguesas.
Em bom rigor, até penso que a representação institucional, pela emoção e teor dos discursos, foi suplantada pela relação afetuosa com que o Prof. Coimbra era reconhecido e recebido.
A diversidade política, por seu turno, foi extraordinária, com a participação das comissões/Concelhias políticas do PSD, PS e JP, para lá de diversas Juntas de Freguesia. Sem esquecer as coletividades como a Casa da Comarca de Arganil, o Rancho Folclórico Infantil e Juvenil, bem como figuras carismáticas com destaque para Jaime Marta Soares, figura íntima do homenageado, e Gaspar Ramos, amigo de longa data.
Coube a Alexandra Novais, Presidente da Associação Filarmónica de Arganil (AFA), representar o amplo movimento de associações e comissões que o Prof. Coimbra tanto ajudou, e desde logo porque a AFA tem a profícua idade de 173 anos de existência.
No entanto, as presenças dos Presidentes de Câmara de Miranda do Corvo, José Miguel R. Ferreira, e de Oliveira do Hospital, Francisco Rolo, são por si sinónimos da amplitude desta justa homenagem, tanto mais que representam, não apenas uma nova geração de políticos, como também jovens promessas que respeitam o mesmo chão comum que é o Estado de Direito.
Outro aspeto a registar foi a participação dos dois últimos ex-presidentes de Câmara eleitos, Rui Silva e Ricardo Pereira Aves. O primeiro concedeu a medalha de ouro à Santa Casa da Misericórdia de Arganil, em 1998, o segundo a medalha de ouro ao Prof. Coimbra, em 2008.
De igual modo, a Presença do Reitor de Arganil, Padre Lucas Pio, é revelador da ligação e presença da Igreja em momentos significativos da História de Arganil, e do respeito que esta nutria pelo Prof. Coimbra, respeitando as diferenças conceptuais das esferas de influência entre a milenar organização religiosa e o movimento das Santas Casas de Portugal.
Mas permitam-me que vos diga que um dos cunhos que o Prof. Coimbra implementou na Misericórdia de Arganil foi, sem dúvida alguma, a preservação da história desta organização, razão pela qual instituiu um lema, que também é um desejo, que a Misericórdia fosse “Uma Instituição com memória e futuro”.
Pois sem memória nunca poderá haver futuro, razão pela qual tantas são as figuras que a Instituição tem vindo a preservar, como Fernando Valle, Miguel Torga, Armando Dinis Cosme, Parente dos Santos, Lúcia Canales, Vasco de Campos, Alberto Cruz, Ramiro Jorge, estes pela mão do homenageado, bem como, Manuel Barreto Leite, Fernando Valle (neto), Carlos Teixeira, estes últimos já pela mão de António Carvalhais da Costa, entre tantos e tantos outros que não cabem aqui.
Tenho para mim, que algumas ausências, especialmente aquelas sem justificação, terão apenas ficado a dever-se a consciências pesadas…por sinal muito pesadas.
Por último, uma palavra final para a família, na pessoa da sua filha Assumpta Coimbra, a qual deverá ter orgulho no Pai que teve, que, parafraseando Jaime Marta Soares, “foi de Arganil, mas nunca quis que Arganil fosse dele”.

