NOTA DA SEMANA: O regresso à Lua e o seu real significado no contexto mundial

Já passou mais de meio século desde que o homem colocou os pés na Lua, na longínqua data de 20 de Julho de 1969, quando o Apolo 11 permitiu a alunagem do módulo lunar Eagle, e de onde “desembarcaram” os astronautas  Neil Armstrong e Buzz Aldrin, enquanto Michael Collins aguardava no vaivém Columbia.

Ao fim de quase mais de 57 anos a agência espacial NASA retoma o regresso à exploração da Lua, com o programa Artemis, através das missões Artemis I (não tripulada), realizada em 16 de Novembro de 2022, e Artemis II, esta última agora em curso através do lançamento realizado no dia 1 de Abril de 2026.

Importa agora realçar que a missão Artemis II é tripulada, composto por quatro astronautas, e marca o regresso do homem à exploração espacial.

Trago este acontecimento a esta Nota da Semana pelo simbolismo que representa e que relança o tema da exploração espacial e da descoberta de novos destinos.

Durante décadas, e talvez pelo fim da “guerra fria”, a competição entre as duas potências mundiais para a exploração do universo, a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos das América (EUA), esfriou originando uma desvalorização dos investimentos no espaço.

No entanto, o regresso agora ao espaço marca o reforço da mudança geopolítica mundial, sabendo-se que a exploração planetária é a confirmação da nova ordem mundial.

Não será da Europa que sairá a nova missão de exploração da Lua, e também não parece que seja da Federação Russa que ela possa partir, não apenas porque o investimento económico para a realização dessa iniciativa seja astronómico, mas porque, acima de tudo, não há uma visão estratégica de afirmação de uma nação perante o mundo.

Muito provavelmente, a próxima missão dirigida à Lua partirá da República Popular da China, em resposta à iniciativa americana, cujo sistema político repressivo chinês colocará a falta de liberdade aí vigente, ao serviço de um programa de exploração espacial, destinado à afirmação da nova potência emergente, face ao domínio norte-americano nesta área.

Ao longo das últimas décadas o desenvolvimento tecnológico da recolha de informação em tempo real tem sido liderado pelos EUA, através do lançamento de um vasto número de satélites civis e militares, a par do desenvolvimento de avançados sistemas de análise de dados, onde a Inteligência Artificial (IA) assume importância vital.

E também aqui apenas dois países continuam a liderar, os EUA e a República Popular da China. O primeiro para o desenvolvimento da economia do digital, a segunda para controle dos seus habitantes.

Duas visões antagónicas que convergem para o mesmo objetivo, a afirmação no cenário geopolítico e a conquista do espaço, no qual este último representa a nova fronteira a explorar e a trazer riquezas.

Apesar do contexto de instabilidade, marcado pelos conflitos bélicos, dos quais sobressai a guerra que decorre no Médio Oriente, são muito poucos os países, e as elites políticas, que percecionam o impacto do regresso à Lua.

O investimento subjacente ao retorno à exploração espacial, sendo algo extraordinariamente oneroso, recorde-se que só o programa Artemis representa 93 bilhões de dólares (80,68 mil milhões de euros), até ao final de 2025, subindo para 100 bilhões de dólares até 2030, não está ao alcance de todos.

Para termos uma ideia, apenas o lançamento da missão no dia 1 de Abril do corrente ano, custou 4,2 mil milhões de dólares (3, 47 mil milhões de euros), sendo que todo o programa Artemis ultrapassou já largamente o anterior programa Apollo.

A participação da Europa no programa Artemis existe, e traduz-se no desenvolvimento do European Service Module (ESM) que integra a nave Orion, nomeadamente no apoio à sobrevivência dos astronautas.

Contudo, o ESM foi fornecido pela Airbus Defense e Space, mediante contrato de fornecimento desse projeto por parte da NASA, sendo que o poder público americano lidera um consórcio onde se integram os privados, muito relacionado com a lógica da economia americana. Neste caso, o “Estado” estimula o desenvolvimento e o envolvimento dos privados na estratégia geopolítica.

O regresso à Lua marca a confirmação de uma nova liderança mundial e a existência de duas novas potências económicas e militares, os EUA e a China, desenhando-se uma nova guerra fria que vai definindo os blocos em confronto.

Nesta nova etapa da humanidade na exploração espacial impõe-se a seguinte questão: onde está posicionado o bloco Europeu? Se é que ele realmente existe!