
Sabemos por conhecimento popular que há diferentes tempos, e estes nem sempre são compatíveis com a velocidade dos acontecimentos.
Os agricultores sabem o tempo do ciclo natural das sementeiras e, posteriormente, das colheitas, os pescadores o tempo de migração das espécies piscícolas, e até os religiosos sabem os tempos dos evangelhos.
Depois, temos o tempo e a forma como este é contado em segundos, minutos, horas, meses, anos, décadas, séculos… milénios, e em cada uma dessas unidades de tempo decorre a nossa vida, em dimensões de tempo, passado, presente e futuro!
Os tempos não são portanto iguais e não se medem da mesma maneira, e muito menos o seu impacto na vida das pessoas, na sua geração, nos seus ascendentes e descendentes. Enfim, o tempo tem importância distinta consoante o momento em que nos encontramos e nas circunstâncias em que existimos.
Razão pela qual, muitas vezes sabemos que o tempo é injusto para muitos de nós, não porque envelhecemos, mas antes, porque em cada momento em que envelhecemos as nossas expetativas podem, ou não, ser correspondidas.
E há um tempo que marca indelevelmente a nossa expetativa sobre a honestidade ou a falta dela, a premiação do mérito, ou a valorização da incompetência, em detrimento das nossas reais capacidades… o tempo é também perverso na gestão dessas nossas expetativas, especialmente se pugnarmos pela seriedade em relação aos outros.
Esse tempo é o tempo da justiça, e quando esta é morosa ou demasiado lenta, alguém será sempre injustiçado na vivência em comunidade.
De entre os humanos, haverá uns mais resilientes, ou teimosos, que fazem apanágio da perseverança, e outros nem por isso, desejando rapidez nas soluções, decisões imediatas e, se possível, reparadoras do mal que sobre eles recaiu sem culpa para isso.
Sucede que o tempo da justiça é falível, imprevisível e mesmo regulamentado, nem sempre corresponde à veracidade dos factos… existem portanto, demasiados sobressaltos oriundos da imprevisibilidade humana, talvez se diga por isso que o tempo da justiça pertence ao tempo dos homens e o tempo do julgamento infalível só acontece no tempo de Deus!
Estou certo que todos nós seremos julgados e esse julgamento será correto, sem falhas ou subterfúgios, mas apenas ocorrerá no mundo divino, já depois dos factos estarem suficientemente acumulados, claros, transparentes e objetivamente irrepreensíveis para uma decisão justa, correta e reparadora, traduzindo-se na condenação eterna dos que perfilharam a maldade, ou na vida sem fim numa dimensão inimaginável de felicidade reparadora infinitamente dos que foram injustiçados.
No entanto, e até lá, permanece a justiça dos homens e o respetivo tempo, para o qual é preciso pugnar corajosamente, mas recatadamente, para que, num Estado de Direito, mesmo que tarde ela possa ocorrer.
Muitas vezes, alguns de nós partem antes desse tempo de justiça ser concretizado, mas outros terão que continuar para que a justiça terrena seja feita cá em baixo, antes de subirmos ao tempo da justiça divina.
E creiam, amigos leitores, que não é fácil seguir as regras dos livros, quando outros não o fazem, ou atalham caminho. É preciso aguentar demoradamente algumas injustiças, respeitar o que os outros não respeitam se, porventura, ainda queremos ter uma consciência limpa antes do tempo da justiça se efetivar… e, mesmo assim, não é fácil, pois nada é garantido.
Apenas alguns pormenores podem distinguir os justos e os corretos, dos injustos e dos vigaristas, é a forma como aguentamos as diatribes dos pequenos demónios que nos espreitam todos os dias ao virar da esquina, com rezas e mezinhas na expetativa de que o tempo nos leve dali para fora, talvez para o tempo divino, sem que se faça a justiça terrena!
É difícil manter a crença na justiça terrena de cabeça erguida, quando o tempo vai passando sem que pouco se saiba dessa justiça, do seu tempo e do que dali possa resultar.
E não serão muitos aqueles capazes de enfrentar os vigaristas e aldrabões que muitas vezes se vitimizam, com ou sem razões fisiológicas, ou aproveitando-se destas para melhorarem o papel que escolheram representar, de tal forma que não é fácil enfrentá-los, talvez por isso a maioria escolha recostar-se no respaldo dado pela expetativa de que, porventura, outros irão resolver o problema.
Infelizmente, há também alguns, que na hora da verdade, cobardemente, esquecem o que antes disseram ou apregoaram, na expetativa de que lhes preservem a memória num qualquer escrito bafiento.
Uma coisa é certa, para além da morte é claro, poderá não ser neste tempo, mas seguramente será no tempo de Deus que todas as maldades serão pagas, já os juros desse pagamento dependerão sempre se, no tempo da justiça terrena, já foram saldados ou não!

