
Começo esta crónica semanal por agradecer aos leitores da mesma, designadamente aos Srs. Júlio Quaresma e Carlos Almeida, que em boa hora alertaram este vosso amigo para um lapso na última edição da Nota da Semana, a qual foi dedicada ao escritor Camilo Castelo Branco e ao seu não menos importante bicentenário.
Fruto da lentidão da escrita, face à velocidade do pensamento, atribuí, erradamente, a obra intitulada de “O Crime do padre Amaro” não ao seu legítimo autor, Eça de Queiroz, mas antes ao recordado Camilo Castelo Branco.
As minhas desculpas pelo lapso, sublinhando agora que a estória do Padre Amaro e de Amélia, passada em Leiria em tempos passados e imaginados é da autoria dessa outra incontornável figura da escrita nacional – Eça de Queiroz.
Feito este introito que aproveitei para homenagear também todos os leitores que vão acompanhando semanalmente estes textos, passo agora ao título da presente crónica e que intitulei de “Os Jacarandás do meu bairro”!
E cá estamos em plena política nacional, agora dominada pelos Jacarandás da nossa capital e o seu eventual transplante, abate e substituição de alguns destes espécimes na Avenida 5 de Outubro em Lisboa.
E procurei saber um pouco mais sobre estas árvores, percebendo que são originárias do Brasil e vieram para Portugal no final do século XIX, tendo sido trazidas as suas sementes para a coleção do Jardim Botânico da Ajuda, cabendo a Félix Avelar Brotero, por muitos considerado o pai da Botânica em Portugal, o grande dispersor desta espécie.
O nome do espécime que tem ocupado nos últimos dias o espaço noticioso é conhecido por Jacaranda Mimosifolia, e normalmente é visível no final de Maio, com a sua cor azul lilás. Antes disso liberta-se das suas folhas no final de Abril para dar lugar então às suas flores exuberantes.
No entanto, e apesar de tanta polémica por causa de um parque de estacionamento, há muito contratualizado e com cerca de 400 lugares, por imposição legal, face à construção de novas habitações, a continuidade destas árvores não é pacífica e seguramente pouco consensual, pois muitos dos lisboetas queixam-se do cheiro, mas de igual modo dos detritos que libertam.
Esta árvore que não é autóctone, mesmo que alguns outros lisboetas assim o pensem, é muito afetada por pragas de piolhos e liberta um líquido que mais se assemelha a cola, existindo inúmeras reclamações na autarquia de Lisboa sobre estas plantas.
Nós no interior temos as “mimosas”, lá por Lisboa existem os Jacarandás!
Esta é a comparação mais simples, mas mais eficaz para todos nós percebermos as coisas.
Contudo, o Jacarandá é mais “chique” e mais citadino, permite uma nova causa na defesa dos tais valores ambientais e a promoção de uma agenda climática, especialmente quando esta coincide com o calendário eleitoral que se avizinha.
Seguramente, já muitos estarão esquecidos que o tal projeto que implica o abate de algumas destas árvores nem sequer é da autoria do atual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, mas sim do seu antecessor, Fernando Medina, por sinal do Partido Socialista.
E que tal projeto teve início em 2018 e contemplava o abate de todas as árvores, tendo sido posteriormente alvo de acordo, isto em 2022, entre a Câmara Municipal e o Promotor, que viabilizou a manutenção de parte das árvores, e a plantação de novos elementos arbóreos.
Toda esta intervenção tem como contexto a construção de um parque de estacionamento subterrâneo público, e a requalificação dos terrenos conhecidos pela Feira Popular.
Mas pronto, a polémica está lançada e de um lado temos os políticos e as associações promovidas por estes, que só desejam o amor e uma cabana, de preferência de baixo dos Jacarandás, e do outro estão os insensíveis capitalistas, destruidores da natureza e exploradores das formigas que sobem e descem os troncos dessas árvores.
Infelizmente, no meio fica a maioria dos cidadãos que estão saturados deste tipo de discussão e gostavam, de forma serena, de perceber realmente o que se passa.
Nós por cá, no nosso humilde burgo, temos é mais Sobreiros.
Por sinal árvore protegida há várias décadas, autóctone e bem mais duro e produtivo do que o Jacarandá.
Contudo, parece que os Sobreiros, como não dão umas flores de cor azul lilás que enchem o olho, correm o risco de lá irem fazer companhia aos Jacarandás da Avenida 5 de Outubro da capital.
Só não sei é se os Sobreiros no interior, e já agora os Carvalhos e Castanheiros, são abatidos para fazer estacionamentos subterrâneos como em Lisboa os Jacarandás!
Já outros, têm azar, por sinal muito azar, pois nem têm Sobreiros, nem Jacarandás, em sítios onde não desejam
construção…!

