
Nas últimas semanas o País tem sido assolado por uma vaga de greves e uma contestação social que há muito não se registava, quiçá, consequência do fim da “geringonça” politica que nos governou até às eleições do início de 2022.
Digo quiçá, porque em bom rigor, os problemas que o País atravessa não são de agora, já antes existiam, mas essa mesma “geringonça” que governou Portugal tinha o condão de adormecer muito alma inquieta que andava, e anda, por aí no movimento sindical.
Assim, vamos ter uma greve na CP que se prolongará até ao carnaval, algo a que os portugueses têm obrigação de estar habituados, na medida em que, pelo menos desde a década de 80 do século passado, que o habitual é haver greves nessa empresa pública de transporte ferroviário, pelo que, os serviços mínimos são a regra da mesma.
Simultaneamente, continuamos com a greve dos professores que reivindicam, legitimamente, melhores condições de trabalho, nomeadamente ao nível das carreiras e da recuperação do tempo de serviço.
Outras paralisações estão na calha de tantos outros setores, tendo como dominador comum o desejo de melhores condições de vida, regadas, aqui e ali, com o ímpeto da crise politica que alguns partidos mais próximos dos sindicatos vão desejando para darem sinal de vida face à maioria do Partido Socialista (PS).
Existe no entanto, uma larga franja de portugueses que olham para estas greves e paralisações, muito ligadas ao Setor Público diga-se em abono da verdade, e que não as entendem e muito menos aceitam, mas que, por razões várias, lá vão dando o benefício da dúvida, nem que não seja, pelo facto de muitos desses até terem um qualquer familiar a trabalhar para o Estado, seja ele central, regional ou local.
Na realidade, ainda é o Estado o melhor patrão, assegurando um vencimento bem acima do que pagam as pequenas e médias empresas, a par de uma carreira com progressão quase automática e onde as avaliações de desempenho ficam muito aquém daquilo que se deseja como princípio da meritocracia.
Percebo perfeitamente as reivindicações dos professores, percebo que a colocação e a efetivação dos mesmos tem que ser um objetivo do Estado patrão, para que assim seja dada estabilidade a estes profissionais, e até percebo a reivindicação da recuperação de tempo de serviço perdido aquando da assistência financeira ao País quando este estava, e talvez ainda esteja, completamente falido.
Contudo, não posso deixar de perguntar: e os outros profissionais que continuam com o respetivo tempo de serviço congelado pelos mesmos motivos?
E os outros portugueses que também não conseguem ter vencimentos para pagar as suas casas em Lisboa e no Porto, face ao aumento de custos exorbitantes com a habitação?
Com efeito, nutrir simpatia por uma causa não nos deve encurtar o olhar para o panorama global do que se passa à nossa volta, e o que se passa à nossa volta é muito mau!
Na realidade, de nada nos servirá discutir problemas e exigir melhores condições de vida se não formos capazes de olhar para os erros do passado, e os nossos erros são muitos, sendo que uma parte desses é devida a cada um de nós e à nossa incapacidade de refletirmos sobre o que realmente desejamos para o nosso País.
Vejam-se os recentes exemplos da TAP, e do Banco Espírito Santo, duas situações em que o Estado injetou o dinheiro dos contribuintes “às pazadas”, sem que se perceba quais os benefícios que daí resultaram para a economia.
No entanto, o populismo que tantos criticam e que facilmente apregoa estes acontecimentos como exemplo da má gestão da coisa pública, não pode depois, ser usado como argumento para qualquer reivindicação profissional.
É bom que nos recordemos que muitos dos que hoje clamam por melhores condições de vida, estiveram na primeira linha a defender a reversão da privatização da TAP e a defender a nacionalização do BES, motivos mais que suficiente para que agora não utilizem esses exemplos, maus por sinal, para suportar as reivindicações legítimas de uma qualquer classe profissional.
Talvez por isso, eu desconfie de partidos políticos que estão na primeira linha das movimentações sindicais, como o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE), exigindo aumentos salariais e reposição de carreiras, quando sabem muito bem a quantidade de dinheiro que foi enterrado na TAP e no BES, com a conivência e apoio dos mesmos.
Essa cegueira de transformar em Estado tudo o que existe na Sociedade deu nisto!
Por exemplo, e aproveitando a greve dos professores, já alguém parou para pensar que o grau de exigência do ensino tem vindo a decair nas últimas décadas, em que passámos, por exemplo, de um modelo que estabelecia o chumbo dos alunos analfabetos, para um modelo que promove a passagem administrativa destes?
Já alguém parou para pensar que Portugal tem vindo a descer posições nos rankings internacionais sobre o ensino?
Com efeito, a discussão sobre as situações dos professores deveria servir também para discutir o modelo de ensino em Portugal e o seu grau de exigência, ou falta dela, coisa que ninguém quer fazer.
Longe vão os tempos em que a figura do professor era respeitada na comunidade, representando uma figura de referência para alunos e pais, com a autoridade que se impunha, quer em sala de aula e quer fora desta, e tudo porque a exigência do ensino era a trave mestre dessa profissão e da vida em Sociedade.
Para quem defende a valorização da profissão de docente, nunca deverá esquecer que essa não pode ser resumida a meras questões financeiras, passará antes e sempre, pela valorização do modelo de ensino, onde o facilitismo não pode ter lugar e a exigência terá que ser uma constante, quer para quem ensina e quer para quem aprende.
Nunca será com modelos de ensino libertários, ou assentes em teorias, mais ou menos radicais, da preservação da liberdade criativa da criança e da escolha desta, que o professor será valorizado e muito menos o aluno.
Infelizmente, o País caiu no ridículo de despender mais tempo a discutir quais as casas de banho que as crianças vão usar, em vez de perceber quais os motivos porque muitos dos jovens de hoje não sabem falar e escrever português, não sabem fazer contas de matemática, desconhecem a nossa história, e não entendem a importância e o papel da geografia.
Defender os professores passará sempre por defender um modelo de ensino que não premeie o facilitismo, mas antes a exigência na aprendizagem.
NUNO GOMES (Director de A COMARCA DE ARGANIL)

