NOTA DA SEMANA: Presidenciais – os dois perdedores, veja quem são!

António Costa | Marcelo Rebelo de Sousa

Depois de 15 de Fevereiro estará terminado o ciclo eleitoral, pelo menos para já, estimando-se que, nos próximos três anos, o povo esteja a salvo deste calvário que tem sido o caminhar até às urnas, depois de meses de campanha para eleições Regionais, Legislativas e Autárquicas.

Digo calvário, não pelo facto de sermos, no mundo atual, ainda uns “privilegiados” por vivermos em Democracia, mas antes por termos tido num curto período de tempo diversas eleições, fruto da instabilidade que se instalou no nosso regime politico nos últimos tempos.

Razão pela qual o término da disputa para a eleição do Presidente da República, cujo processo apenas será concluído após o apuramento dos resultados com a realização das eleições nos locais que, por razões de calamidade, ainda não o fizeram, trará algum tempo para a estabilização política do País. Pelo menos é o que se espera.

Não obstante os cerca de 37 mil eleitores que ainda não tiveram oportunidade de depositar o seu voto, sabemos hoje que António José Seguro, com larga margem, será o próximo Presidente da República com, pelo menos, 66,8% dos votos, a que correspondeu, para já, à maior votação obtida para o cargo, com cerca 3.482.481 votos, ultrapassando o recorde obtido por Mário Soares em 1991 com 70,35% (3.459.521).

Devemos, apesar de tudo, fazer nesse particular a ressalva que o número de eleitores inscritos em 1991 eram de 8.202.812 e hoje, em 2026, foi de 10.942.173, o que não deixa de ser um pormenor de menos importância para percebermos a capacidade de mobilização de Mário Soares, à data eleito com o apoio do Governo de Cavaco Silva.

Salvaguardado esse pormenor, importa dizer que António José Seguro é o claro vencedor da noite eleitoral para a escolha do próximo Presidente da República, não apenas porque obteve uma parte significativa do eleitorado participante, mas acima de tudo porque começou a corrida para Belém sozinho e acabou na segunda volta com o apoio da maioria do quadrante político nacional.

António José Seguro não era a escolha entusiasta da Direção do Partido Socialista (PS) e terminou a ser a tábua de salvação do mesmo Partido, obrigando-o agora a reconfigurar a sua atuação privilegiando o campo politico ao centro, em vez das derivas mais esquerdistas junto do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista Português (PCP).

António José Seguro começou a segunda volta com o apoio da extrema-esquerda, que somou ao apoio do PS, mas termina eleito com os votos de grande parte do campo político de centro-direita.

Com efeito, António José Seguro partiu sozinho e chegou acompanhado, transformando o “poucochinho” com que foi “despachado” por António Costa, na maior votação que um candidato a Presidente da República obteve na história da Democracia em Portugal.

Espera-se agora que o PS seja capaz de interpretar a votação obtida por António José Seguro, e recordar-se do espaço político que deve ocupar e de onde nunca deveria ter saído por meras razões tacticistas de ocasião e de sobrevivência política de António Costa!

Contudo, se não há dúvidas de que António José Seguro é o vencedor indiscutível destas eleições, e sendo André Ventura o candidato derrotado, devemos olhar também para os resultados obtidos por este.

Assim, ao contrário do que tinha sido projetado, a abstenção subiu, e mesmo que votem todos aqueles que ainda não o fizeram, por motivo dos efeitos das depressões que assolaram o País, ela ficará em 49,8%, ainda assim superior à registada na primeira volta (47,74%), o que significará que mais de 280 mil pessoas não desejaram votar.

Por outro lado, o total de votos em branco ou nulos é, no momento atual, de 4,95%, o que significa mais de 271 mil votos sem distribuição pelos candidatos.

No entanto, e perante este cenário, André Ventura conseguiu aumentar em mais 402.429 votos, passando dos valores registados na primeira volta e que foram de 1.326.942 para 1.729.371 na segunda, crescendo assim mais 30%.

É pois legítimo questionar-se a proveniência destes votos, pois se a abstenção tivesse diminuído e o número de votos brancos ou nulos se tivesse mantido face à primeira volta, poderíamos associar esse crescimento à diminuição da abstenção, mas não será o caso.

André Ventura aumentou a sua votação através dos eleitores designados de moderados.

Ou seja, a candidatura de André Ventura deixou de estar circunscrita apenas ao seu eleitorado de base e, neste momento, recolheu também votos no centro-direita, e muito seguramente no eleitorado da Aliança Democrática (AD – PSD/CDS).

Tal cenário permitiu-lhe atingir um novo máximo de votos, ultrapassando dessa forma os resultados das ultimas legislativas obtidos pelo Partido CHEGA em mais 291.490 votos, passando assim dos então 1.437.881 para os já referidos 1.729.371 da segunda volta das eleições presidenciais.

Obviamente são eleições distintas, obviamente a grande maioria votou António José Seguro e obviamente, enquanto candidato à Presidência da República, André Ventura perdeu clamorosamente.

Mas, de igual modo, os resultados do candidato apoiado pelo Partido CHEGA colocam-no no caminho da disputa da liderança do próximo Governo do País, seja em 2029, ou seja um ano antes. E isto, não apenas porque obteve uma percentagem de 33,18%, superior à percentagem de 31,21% da AD nas legislativas (apesar de em números de votos expressos a diferença ser a favor da AD em 242.187), mas porque conseguiu segurar o seu eleitorado e entrar no eleitorado da coligação que suporta o atual Governo. Algo que se poderá repetir!

Contudo, os grandes perdedores da noite eleitoral foram, sem dúvida alguma, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.

Não apenas porque o candidato eleito, António José Seguro, venceu com uma margem bastante superior ao resultado de 2021 do ainda atual Presidente da República (2.534.745), mas acima de tudo porque o País escolheu um estilo diferente.

A banalização a que Marcelo Rebelo de Sousa condenou a Presidência da República, assim como o espetáculo mediático em que o Palácio de Belém foi transformado, foi agora relegado para um plano inferior com a eleição de António José Seguro.

Os portugueses, ou pelo menos a grande maioria destes, querem a descrição, em detrimento das “selfies”, a sensatez em vez do espalhafato, o recato em vez do “estrilho”.

Os portugueses querem o Governo a governar e o Presidente da República a garantir a estabilidade, algo que Marcelo Rebelo de Sousa foi incapaz de cumprir. Ora dava dicas à governação, ora criava instabilidade!

Mas pior do que isso, será Marcelo Rebelo de Sousa sair em breve de cena com a responsabilidade, conjuntamente com António Costa, de serem os responsáveis pelo crescimento do Partido de André Ventura, muito resultado da inoperância em realizarem as reformas de que o País necessitava e necessita.

Já para não dizer, ou não esquecer, a forma como António Costa correu com António José Seguro, o qual poderia ter sido melhor Primeiro-ministro do que António Costa alguma vez foi!

Em bom rigor, a eleição de António José Seguro, e o resultado de André Ventura, são o acerto de contas da história recente quer para com António Costa e quer para Marcelo Rebelo de Sousa! Cá se fazem, cá se pagam…