REGIÃO: Vida e obra de José Dias Coimbra foram celebradas no Jardim Condessas das Canas

A Santa Casa promoveu, no dia 4 de julho, no Jardim Condessa das Canas, uma homenagem póstuma a José Dias Coimbra. A cerimónia contou com diversas intervenções, servindo para recordar o percurso do antigo professor primário, presidente da Câmara Municipal e provedor da Misericórdia de Arganil.

A 2 de março de 1934, na Pampilhosa do Botão, no concelho da Mealhada, nasce José Dias Coimbra. Quase 20 anos mais tarde, em outubro de 1955, o recém-diplomado pela Escola do Magistério Primário de Coimbra muda-se para a vila de Arganil, onde inicia a sua carreira enquanto professor. Mais tarde, em 1964, ainda durante a vigência do Estado Novo, é nomeado presidente da Câmara Municipal de Arganil, por parte do governador Civil do Distrito de Coimbra.

Durante o designado “verão quente”, que teve lugar no ano seguinte à Revolução dos Cravos, é preso durante 72 dias. Após esse período conturbado, nos primórdios da atual democracia, o povo arganilense volta a elegê-lo presidente do município, permanecendo no cargo durante os dez anos seguintes, entre 1979 e 1989. Ao longo desta década, fomenta o desenvolvimento cultural, educativo, económico e industrial do concelho. Em 1982, passa a liderar também os destinos da Misericórdia de Arganil, assumindo a provedoria durante os 40 anos que se seguem. A 21 de janeiro de 2024, é comunicada a morte de José Dias Coimbra, à época presidente da Mesa da Assembleia Geral da Santa Casa, partindo aos 89 anos de idade.

José Dias Coimbra esteve envolvido no desenvolvimento do Centro de Formação Profissional Interempresas da Beira-Serra (CINTERBEI), que mais tarde tornar-se-ia no Centro de Emprego e Formação Profissional de Arganil; da Associação Nacional de Municípios Portugueses; da Associação de Informática da Região Centro; do Lions Clube de Arganil; da Academia Condessas das Canas; da Feira Industrial, Comercial e Agrícola da Beira Serra (FICABEIRA); além de ter sido um dos responsáveis pela passagem do Rally TAP – atualmente, Rally de Portugal – pela vila arganilense, pela preservação da Aldeia Histórica do Piódão e pela classificação da Mata da Margaraça enquanto Paisagem Protegida da Serra do Açor, entre outros contributos que deixou no concelho e na região Centro do país.

A 10 de junho 2008, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o então presidente da República Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, atribuiu a José Dias Coimbra o grau de Comendador da Ordem do Infante. Ainda nesse ano, recebeu, por parte da Câmara Municipal de Arganil, a Medalha de Ouro do Concelho, o título honorífico mais elevado no contexto autárquico.

O “homem de convicções” que contribuiu para mudar o paradigma do concelho de Arganil

“Hoje, estamos aqui sem pressas, sem amarras, mas imbuídos de um sentimento partilhado de reconhecimento ao professor José Dias Coimbra e, também, à sua obra”, começou por dizer António Carvalhais da Costa, atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Arganil. Segundo o representante máximo da instituição, para “falar desta personalidade”, importa “perceber” que se tratava de um “homem de convicções”, permitindo-lhe obter um “reconhecimento e uma influência singulares”. Por outro lado, continuou, foi um “amigo” e também um “líder”, colocando em “primeiro lugar a sua missão, fosse como provedor, professor ou presidente de Câmara”.

“Fundou a telescola em Arganil, um rancho folclórico, um clube desportivo” e conseguiu trazer o “ensino público secundário” para o município, além de ter promovido a “ideia do Piódão” e a “preservação da Mata da Margaraça”, afirmou António Carvalhais da Costa. Paralelamente, recordou que Dias Coimbra contribuiu para a abertura da atual “Avenida das Forças Armadas”, no centro da vila, com o intuito de “descongestionar o acesso ao alto do concelho” e “possibilitar a instalação da futura Biblioteca Municipal, do Museu, do Centro de Emprego, do Bairro Social e do Hotel de Arganil” nesta rua.

Enquanto provedor da Santa Casa da Misericórdia, Carvalhais da Costa sublinhou o papel de José Dias Coimbra no lançamento do “Centro de Atividades de Tempos Livres”, do “Centro de Dia” e do “Serviço de Apoio Domiciliário”, colocando estes dois últimos a funcionar “todos os dias da semana”, de modo a assegurar que a população idosa “tinha o que comer ao sábado e ao domingo”. No entanto, a sua obra não ficou por aqui, tendo decidido criar as “piscinas ‘Zé Miguel Coimbra’, um campo de futebol e recuperar a Mata das Misericórdias” que, antes de ser intervencionada, servia de “depósito de lixo do hospital”.

“A homenagem de hoje será incompleta, porque o seu nome ainda não está inscrito na Escola Secundária de Arganil, da qual foi o seu principal responsável. Incompleta, porque ainda aguardamos a recuperação do Cineteatro Alves Coelho (…) incompleta, porque se aguarda a entrada em funcionamento do Hospital de Beneficência Condessa das Canas”, lamentou o atual provedor da Santa Casa de Arganil.

A representar a família esteve Maria Assumpta Coimbra, que elogiou o Jardim Condessa das Canas enquanto palco desta homenagem póstuma ao seu pai. “[Trata-se de] um lugar emblemático para ele”, explicou, acrescentando que se encontra muito próximo da Mata das Misericórdias, também ela muito querida para José Dias Coimbra, atendendo ao seu empenho em “cuidar, preservar e conservar” este espaço florestal. “Sempre lhe dedicou uma atenção especial”, mencionou Assumpta Coimbra, frisando que o seu pai sempre se preocupou com a “preservação da biodiversidade”. Por outro lado, salientou que o seu progenitor “assumiu uma cidadania ativa, responsável e, sobretudo, humana”, dedicando-se “aos outros” e à natureza” com uma abordagem assente em “valores éticos”.

Jaime Marta Soares também acompanhou de perto o percurso de José Dias Coimbra. Amigos de longa data, conforme aludiu o antigo presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares, possuíam uma rivalidade saudável enquanto autarcas. “Quantas vezes, ele dizia que era melhor do que eu. E eu dizia-lhe que era melhor do que ele (…) e lá andávamos nesta discussão amiga”, revelou, completando que as picardias surgiam porque ambos queriam o melhor para os concelhos que representavam. “Enriqueci os meus conhecimentos, a minha forma de ser, a minha forma de estar (…) aprendi muito com o professor Coimbra”, declarou o também ex-dirigente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Conheceram-se “antes do 25 de abril”, quando Dias Coimbra assumiu a presidência da Câmara Municipal de Arganil pela primeira vez, nascendo aí uma amizade que perduraria “anos e anos”, explicou Jaime Marta Soares. Por mais do que uma vez, percorreram o “mundo” à procura de benefícios para os seus concelhos, tendo admitido que precisava de estar “sempre atento” aos passos do seu amigo. Caso se descuidasse, corria o risco de José Dias Coimbra “levar tudo” o que conseguisse para “Arganil”, deixando Vila Nova de Poiares sem nada. Apesar destas picardias saudáveis, recordou-o com “saudade”. “Não acreditava que alguma vez o professor Coimbra desaparecesse, porque eu precisava que ele estivesse sempre presente”, lamentou.

“É com profundo reconhecimento e gratidão, pelo seu percurso e legado, que o município de Arganil se associa a esta homenagem à memória do professor José Dias Coimbra”, começou por dizer Luís Almeida, vereador da Câmara Municipal de Arganil. De acordo com o autarca, trata-se de uma “personalidade que marcou, profundamente, a vida do concelho ao longo de várias décadas”, tendo sido um “homem com convicções firmes”, com uma “grande capacidade de trabalho” e uma “forte ligação às causas públicas, sociais e à comunidade”. Neste sentido, enalteceu a “marca própria que deixou” em Arganil, dada a sua capacidade para “mobilizar vontades, concretizar projetos e defender instituições que considerava essenciais para o progresso e para a coesão do território”.

Francisco Rolo, presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, também discursou na cerimónia, tendo afirmado que José Dias Coimbra foi “um dos grandes promotores e consolidadores do conceito, e da ideia, de Região da Beira Serra”. Na sua visão, este termo que abrange “Arganil, Góis, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra e Tábua”, desde logo, serviu para “unir” estes concelhos em “vários projetos”. Através das suas “empresas e instituições”, este “conjunto de municípios contribuiu para a riqueza e a diversidade da atual [Comunidade Intermunicipal da] Região Metropolitana de Coimbra”, que se encontra em “consolidação”.

Por fim, Francisco Rolo lembrou que “José Dias Coimbra e o médico Fernando Valle, muito provavelmente, não estiveram no mesmo lado da barricada, antes do 25 de Abril”. No entanto, apesar das potenciais divergências políticas entre ambos, a “Unidade de Cuidados Continuados, da Santa Casa da Misericórdia de Arganil, tem o nome de Fernando Valle”, por sugestão de Dias Coimbra, reconhecendo a importância daquela figura para o concelho e para a região. “Faz-se a história, passam-se as épocas, e os Homens devem unir-se naquilo que é importante”, finalizou.

O presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo, José Miguel Ramos, também proferiu algumas palavras. No entender do autarca, “ao longo das últimas décadas, Portugal tem vindo a delapidar a importância da ação pública e da política”, o que tem “afastado muitos daqueles que são os melhores quadros da sociedade”. Desta forma, em virtude da “diminuição do respeito pela autoridade de quem ocupa [cargos públicos], as pessoas que estão “à frente das Juntas de Freguesia, das Câmaras Municipais, das entidades regionais e nacionais, dos ministérios e, por vezes, na liderança do próprio Governo”, em alguns casos, enfrenta dúvidas quanto ao seu “mérito” para “desempenhar esse tipo de funções”, argumentou.

José Miguel Ramos apontou várias causas para este fenómeno, nomeadamente as pessoas que exerceram cargos relevantes no Estado e “não colocaram a causa pública à frente de todos os outros interesses”, o “contexto” informacional e tecnológico atual, assim como a forma como “alguns casos, de grande dimensão mediática, têm vindo a ser geridos pelos tribunais portugueses”. No entanto, confessou que figuras como o “professor Coimbra são uma referência” para si, dado que se “entregavam às suas terras” e “às causas que abraçavam”, com uma “dedicação enorme” para “transformar o país”, apesar das dificuldades que enfrentavam.

Terminados os discursos, a Santa Casa da Misericórdia de Arganil inaugurou, no Jardim Condessa das Canas, um busto em homenagem a José Dias Coimbra, com o intuito de ajudar a perpetuar a sua memória. Recorde-se que o anterior provedor foi também responsável por dar uma nova vida ao jornal A Comarca de Arganil, cerca de dois anos depois de o título ter sido suspenso, a 10 de junho de 2009.

Na sessão, apresentada pelo vice-provedor da Misericórdia de Arganil, Nuno Gomes, falaram também a presidente da Associação Filarmónica de Arganil, Alexandra Novais; Martim Coimbra, presidente da Comissão Política da JP de Arganil; José Miguel Nunes, presidente da Comissão Política do PS de Arganil; Paulo Cordeiro, em representação da presidente da Comissão Política do PSD de Arganil, Elisabete Oliveira; Rui Silva e Ricardo Pereira Alves, anteriores presidentes da Câmara Municipal de Arganil; Lucas Pio, reitor da paróquia de Arganil; António Sérgio Martins, presidente do Secretariado Regional de Coimbra da União das Misericórdias Portuguesas; e Carlos Andrade, vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas.

Além das instituições mencionadas, estiveram presentes várias Misericórdias do distrito de Coimbra, assim como o Rancho Infantil e Juvenil da vila arganilense, que foi fundado no dia 13 de junho de 1960, por José Dias Coimbra.

PEDRO CUNHA – Estagiário