
Designado como incêndio de Arganil, começou no Piódão, de imediato galgou fronteiras, estendeu-se em várias frentes a outros concelhos, Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital (distrito de Coimbra), Seia (Guarda) e Castelo Branco, Fundão e Covilhã (Castelo Branco), deixando atrás de si a destruição, bens reduzidos a cinzas, casas ardidas, a desolação, o drama e os momentos de desespero e impotência das populações vividos para enfrentar um perigoso inimigo à solta que, desenfreado, durante dias percorreu montes e vales ficando o negro, a terra queimada em todo este vasto território.
É ver para querer. Seria e será mesmo impossível, por palavras, relatar e dar a conhecer ou fazer o balanço dos prejuízos causados pela tragédia. As causas, os culpados ou aqueles que não têm culpa, o porquê de em cada ano os incêndios teimarem em continuar a “atacar” e a deixar em cinzas estes nossos territórios, apenas restando o que fomos vendo e ouvindo, os lamentos e a revolta das pessoas, as críticas, tantas críticas que o tempo acaba por fazes esquecer, enquanto continuamos ainda a ver (e a cheirar) o fumo que continua a sair da terra queimada e ficando à espera que para o ano – ou daqui a alguns anos – tudo volte a acontecer porque, isso sim, parece que é cíclico. Talvez porque nada foi feito.
E no meio e perante a tragédia, tantos, tantos comentários (!) e, em nossa opinião, alguns se aproveitam, não deixam de ser pertinentes, como aqueles que ouvimos de dois ou três presidentes de Câmara que, sem estarem preocupados com as cores, tiveram a coragem de chamar os bois pelos nomes, de por o dedo na ferida e a apelar a um pacto de regime (que talvez não interesse a alguns) para que, de uma vez por todas, possa ser encontrada a solução para o problema dos incêndios.
Um problema que foi tema do Conselho de Ministros, reunido em Viseu (noutra local da presente edição) e do qual saíram medidas que, a serem cumpridas, poderão atenuar os efeitos nefastos trazidos pelas chamas (e queremos acreditar nisso), mas não podemos esquecer o que se passou depois do trágico incêndio de 2017, só para falar deste, de que tanto se falou também, tanto se escreveu, tantas reuniões ao mais alto nível para tomar medidas concretas para evitar que a tragédia se voltasse a repetir, mas o que é facto é que, quase uma década passou… e tudo voltou a acontecer, agora com maior dimensão porque o designado incêndio de Arganil e segundo os especialistas, já foi considerado o maior de sempre em Portugal.
“Continuam a brincar com as pessoas do interior, (…) não posso ter outro sentimento que não seja o de revolta”, considerou um autarca da nossa região ao olhar para a terra queimada, mas não podemos esquecer também e mais uma vez, a perda de vidas causadas por esta autêntica “guerra” que, a continuar assim, não sabemos se no futuro poderá voltar a acontecer como em 2017 e que levou algumas dezenas de pessoas à morte. E a vida humana não tem preço. E isto já para não falar nos feridos, nas casas destruídas, “a Região Centro teve uma dezena de casas de 1.ª habitação destruídas” e cuja reconstrução o Governo se compromete a comparticipar até ao limite máximo de 250 mil euros. O concelho de Oliveira do Hospital contabiliza o maior número (cinco), seguido da Lousã (dois). A Câmara de Oliveira do Hospital tem em curso um plano de levantamento dos danos provocados pelo incêndio, sustentado em três pilares fundamentais – pessoas, segurança e prejuízos – que já está no terreno, enquanto o presidente da Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra, Jorge Custódio, anunciou a intenção de aprovar propostas com medidas de apoio com o intuito de mitigar alguns efeitos provocados pelo incêndio que afectou o território. Como o fizeram outros autarcas.
É isto que queremos que volte a acontecer? E perante esta interrogação, perguntarão alguns: e de quem é a culpa? Não sabemos responder, o que sabemos é que é que além da responsabilidade ser de todos e cada um de nós, sabemos também que com a desertificação (que é uma realidade nas aldeias deste nosso interior) as florestas foram sendo abandonadas, os matos, as silvas, toda a vegetação foi crescendo desordenadamente sem que, politicamente, fossem tomadas medidas que levassem ao tão falado (desde há muitos) ordenamento florestal, que não existe. E mais, e mais e não deixamos de saber ainda, mais do que as palavras os resultados estão à vista, falam por si com incêndios cada vez maiores e que, ano após ano, vão acabar por deixar áridos os nossos montes e vales, as nossas lindas serras.
Uma aridez que é dramática, com o verde a dar lugar ao negro, depois às pedras, como não deixa de ser dramático o que ouvimos de um emigrante ao dizer não tem vontade de voltar à sua terra, à sua aldeia de origem e onde regressa em cada ano para matar saudades, para conviver, para descansar. E muitos desses emigrantes não tiveram descanso no combate às chamas que rondavam as suas casas. Os momentos dramáticos vividos. Que férias… e por isso compreendemos o desabafo, a revolta e mesmo a falta de vontade de voltar, porque até as tradicionais festas de Verão tiveram de ser canceladas…
Drama, terror, prejuízos incalculáveis é o que resta. E por isso, apetece-nos dizer que, no meio de tudo isto, de bom resta apenas… a solidariedade. Para com as populações afectadas, para com os bombeiros, porque perante a tragédia e muito mais importante que os comunicados, até mesmo os aproveitamentos políticos, de imediato se faz sentir a generosidade do nosso povo, de gente anónima, das empresas, das instituições, das associações no apoio àqueles que ficam sem nada, que ficaram até sem o alimento para os seus animais, ou apenas com a roupa que traziam vestida.
Agora é tempo de balanço e neste momento, os técnicos no terreno fazem um “levantamento de uma forma rigorosa e exaustiva”, mas ainda “vai demorar alguns dias”, como referiu o presidente da Câmara Municipal de Arganil, Luís Paulo Costa, “é preciso fazer a identificação de tudo aquilo que são os prejuízos agrícolas, os prejuízos nas habitações, os prejuízos nas infraestruturas. É um processo que tem de ser absolutamente rigoroso, para que também não subsistam dúvidas”, considerando ainda que no sector do turismo “é um impacto que vai perdurar no tempo e que também já sinalizámos ao Governo como uma das áreas críticas” na sequência da reunião realizada em Trancoso e onde reiterou a necessidade de que os apoios cheguem de forma célere ao concelho. A articulação entre as autoridades locais, regionais e nacionais constitui, por isso, um eixo essencial para assegurar uma resposta eficaz às freguesias atingidas.
Mas agora também é tempo de solidariedade, é tempo de o ajudar quem ajuda desde as forças de segurança a todos aqueles envolvidos no combate às chamas, aos bombeiros esses sim, verdadeiros heróis que tudo dão sem nada pedir em troca, que precisam ou precisaram também de água, muita água para beber, de sumos, de alimentação, um pouco de tudo que possa ajudar a minorar o desgaste, a falta de descanso, que não regressavam às suas casas, ao seio das famílias.
E os gestos de solidariedade voltam a ser exemplo, por mais simples que sejam e que se repetiu e repete um pouco por toda a parte. Até naquele abraço da criança aos bombeiros da sua terra. E particularmente às Corporações de Bombeiros, como tivemos oportunidade de assistir na de Arganil, com a Fundação MAPFRE, representada pela gerente da sua Loja de Coimbra, Cláudia Pinto, a trazer ao quartel bens alimentares para ajudar nas refeições servidas aos bombeiros. E antes esteve em Pampilhosa da Serra.
“São uns verdadeiros HERÓIS nesta luta!”, considerou Cláudia Pinto, que com Inês Borges, da Argocontas agente da MAPFRE Seguros em Arganil e com loja na Rua Oliveira Matos, quiseram prestar homenagem a esses heróis através da doação que tem o nome de Euro Solidário e que “é um compromisso de todos nós com a sociedade, ajudar aqueles que precisam de ajuda”, desde a infância, juventude, na deficiência, na educação e que, como referiu ainda, “este ano passa também para os Bombeiros que vivem a tragédia dos incêndios” .
E por isso “a MAPFRE Seguros – Loja Coimbra está em Bombeiros Voluntários Argus de Arganil”. Esteve com os Bombeiros Voluntários de Pampilhosa a Serra.
Mas neste dia da passada quinta-feira, também a Académica de Coimbra, representada pelo seu presidente, Joaquim Reis; pelo vice-presidente, João Pereira Belo; pelo treinador, António Barbosa; e pelo capitão da equipa, Leandro Silva, estiveram em Arganil, no quartel, a prestar a sua “homenagem aos bombeiros”, com a entrega de palete de águas do seu patrocinador oficial, a empresa H2OPE, e a bolo autografada por toda a equipa, utilizada no primeiro jogo oficial da época, com a vitória da Académica frente ao Santarém.
“Isto é um misto de homenagem e uma chamada de atenção àquilo a que vocês estão sujeitos ano após ano”, disse o presidente da Académica, tendo o comandante Fernando Gonçalves, em nome do Corpo Activo, “destes homens e mulheres que têm sido incansáveis neste e noutros incêndios e em quem temos muito orgulho”, agradecido o gesto, “estes gestos só nos dão forças”, sem deixar de aproveitar ainda o momento para dar a conhecer que “há muitos equipamentos que nos fazem falta, como máscaras” e que “esta casa tem uma Escola de Infantes e Cadetes” deixando o pedido para que estas crianças e jovens pudessem entrar com a equipa em campo e assistir, no seu campo, a um jogo da Académica.
“Fica desde já prometido”, disse o presidente da Académica, como ficou prometida pelo comandante e pelo presidente da direcção, Tiago Mateus, toda a disponibilidade dos Bombeiros de Arganil para com a Académica de Coimbra e os agradecimentos “pelo vosso gesto. Muito obrigado”.

