PAMPILHOSA DA SERRA: Misericórdia aposta em Unidade Intermédia

Ao fim de 20 anos a Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra regista um aumento patrimonial de mais de 3 milhões de euros

Os Irmãos da Santa Casa da Misericórdia da Pampilhosa da Serra aprovaram, por maioria – quatro votos contra e seis abstenções – na última Assembleia Geral, a compra da unidade hoteleira “Villa Pampilhosa Hotel”, num investimento que ascende os 4 milhões de euros, destinado à instalação da nova Resposta Social – Unidade Intermédia Autónoma.

Em declarações à A COMARCA, e como “ponto prévio”, o Provedor da instituição começa por lembrar que as Misericórdias existem há mais de 500 anos porque sempre tiveram a capacidade de se ir adaptando àquilo que é a história, à dinâmica das comunidades onde estão inseridas, pelo que (…) «compete-nos a nós fazer o mesmo».

António Sérgio Martins recorda que, depois de anos de inactividade, a Misericórdia da Pampilhosa da Serra começou com um lar de idosos, mas, se hoje só tivesse esta valência (…) «seria uma instituição condenada ao fracasso». «Teve que ter o cuidado, o arrojo e, sobretudo, a grande visão de se ir adaptando àquilo que são as necessidades da comunidade onde se insere e àquilo que são as necessidades do sector social em geral. E daí que foi criando várias respostas para responder a essa procura», apontando para o leque das “respostas sociais” (ver caixa) que actualmente “consolidam” a sua presença no território.

A decisão da compra do “Villa Pampilhosa Hotel”, salienta, vem ao encontro daquilo que a própria Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho, confirmou como uma prioridade política nacional – “arranjar uma solução para as chamadas altas hospitalares”. «Nós analisámos, de facto, o que é que estava em causa, quais eram as condições, e vimos que tínhamos essas condições no nosso território. Digo que sim, surge este edifício que reúne, de facto, todos os requisitos que eles nos pediam», para além da “grande vantagem” (…) «de nos possibilitar abrir a um dia e ao outro estarmos a gerar receita», evitando toda a morosidade processual.

«É uma oportunidade única para a Misericórdia e para o território»

Para além de se tratar de um edifício que reúne todas as condições exigidas, António Sérgio Martins sublinha que estava fora de questão perder (…) «uma oportunidade única», salientando que as condições de pagamento (…) «também são interessantes» quando comparadas com as outras.

Tratando-se de uma questão estrutural e sensível (…) «todo o processo foi explicado ao mais ínfimo pormenor sobre o que é que estava em causa, e tivemos um cuidado extremo na explicação dos números. Era importante explicar os números, o que é que está em causa, porque muitas vezes nestas questões há sempre muita desinformação».

«Felizmente tivemos uma aprovação de 75% de votos favoráveis de todos os presentes, e 4 votos contra e 6 abstenções. Estamos a falar de um investimento de cerca de 4 milhões de euros e de um edifício com uma volumetria de cerca de 5 mil metros».

Hotel dá lugar a Unidade Intermédia Autónoma

Visionário, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia aponta para (…) «alguns ganhos muito interessantes» em termos de escala, proporcionando uma oferta cada vez mais diversificada (…) «e o mais transversal possível naquilo que a área social diz respeito». «Para além disso, e vendo já mais além, não só pela dinâmica que vamos criar, não só para a Misericórdia, não só para a comunidade, mas até para a região, porque esta Unidade Intermédia Autónoma vai permitir criar oportunidades para outras respostas sociais que possam surgir».

Ainda que sem data prevista de abertura, António Sérgio Martins lembra, contudo, que (…) «existe essa necessidade e a necessidade é, de facto, urgente», anunciando também que (…) «já fomos visitados pela Segurança Social e pela própria Saúde», numa visita técnica que fizeram ao edifício, após a qual foi informado que “tem todas as condições para acolher a unidade”.

Ou seja, assim que a nova Unidade Intermédia Autónoma (UIA) esteja em funcionamento, todas as pessoas que sejam aí colocadas – após alta clinica -, a Misericórdia tem seis meses para as colocar nas chamadas respostas tradicionais, aliviando assim as unidades hospitalares. «Portanto, é um óptimo canal de entrada para todas as instituições que, aqui à volta, não só na comunidade, como eu disse, mas até na região, possam connosco interagir», sublinha.

Recorde-se que a Unidade Intermédia Autónoma terá capacidade para 100 camas.

Impacto da UIA no desenvolvimento

António Sérgio Martins explica que tudo foi estudado ao pormenor e transmitido aos Irmãos. «Estudámos todas essas questões antes de avançarmos: quais eram os custos com o pessoal, quais eram os custos com o financiamento, quais eram os custos com todos os fornecimentos e qual era a receita. E o saldo é extremamente positivo».

Mas qual será o impacto? «Respondendo directamente à sua questão, cada vez mais este tipo de respostas provocam aqui uma dinâmica muito significativa. Isto tem um impacto directo. Desde logo na criação de postos de trabalho, que serão mais de 40 directos, e depois, naturalmente, por toda a envolvência que isto cria, desde fornecedores, desde os familiares, que diariamente vão vir à Pampilhosa da Serra, vão com certeza consumir, portanto, é de uma forma directa uma promoção do desenvolvimento local, que acho que deveria ser orgulho de todos os pampilhosenses e não só».

«Acredito que vamos criar uma dinâmica muito interessante na própria comunidade. E por isso é que eu acho que deveria ser um desígnio de todos e uma alegria para todos».

“Forças alinhadas” na resiliência

Nesse sentido o Provedor dá nota que a Assembleia Geral destinou-se única e exclusivamente a ver os impactos positivos e negativos que isto teria para a Santa Casa e para a comunidade da Pampilhosa da Serra. «Nem poderia ser de outra forma», assegura.

«Quero acreditar que todos estejamos alinhados nesse desiderato. É naturalíssimo que surjam questões. As Assembleias servem precisamente para isso, e nessa medida, quero acreditar que todos os que estiveram presentes estiveram preocupados única e exclusivamente com a Santa Casa da Misericórdia e não com outro ruído colateral que nada acrescenta», aponta.

«Como já referi, trata-se de um salto significativo. Trata-se de um desafio significativo. E, para isso, temos de contar com todos para, de facto, o conseguirmos ultrapassar. Não vai tudo ser um mar de rosas, naturalmente. Mas as Misericórdias, nestes 500 anos, tem uma característica de muita resiliência e de capacidade de resistência e capacidade de adaptação. E este é mais um investimento, como foram todos os outros que a Misericórdia fez», destaca.

António Sérgio Martins recorda, a título de exemplo, que a Unidade de Cuidados Continuados, quando foi construída, esteve três anos fechada (…) «porque coincidiu com a entrada da Troika em Portugal e, de um momento para o outro, unilateralmente, não nos deixaram abrir a resposta. Isso, sim, foi um enorme desafio». «Estávamos a pagar em cargos financeiros que assumimos para terminarmos a obra e não tínhamos qualquer tipo de receita em contrapartida». «Se a isso adicionarmos – localmente toda a gente percebe – que tínhamos o edifício do Centro de Saúde que estava alugado ao Estado, arrendado ao Estado, por 5 mil euros ao mês, e que, de um momento para o outro, também perdemos essa receita… sim foi um período muito difícil», sublinha.

Inversão do paradigma

Optimista qb, o Provedor assegura que a nova resposta social (…) «tem a grande vantagem de, quando abrir, começa logo a gerar receita. Esta é uma diferença muito significativa. Aliás, na história da Misericórdia nunca tivemos esta possibilidade. Sempre construímos, sempre disponibilizámos ao Estado. Dizemos, temos aqui esta resposta, por favor ajudem-nos e dêem os protocolos de cooperação. Agora inverteu-se um modelo. É o Estado que nos procura, nós precisamos que nos ajudem nesta resposta e temos aqui já a solução».

Na prática, sendo de facto um investimento significativo (…) «não fugimos à questão, mas é uma oportunidade única da Misericórdia de começar logo a gerar receita a partir do momento que toma essa decisão. E isso é inverter aqui um bocado o paradigma daquilo que é a história, daquilo que é a forma como sempre foram feitos os investimentos», deixa claro.

Assim, perante isto, estão reunidas as condições para a Misericórdia agarrar com toda a sua força esta oportunidade, afirma António Sérgio Martins, para quem esta oportunidade (…) «é muito boa para a Misericórdia e pode ser através desta resposta que consigamos libertar também a capacidade de tesouraria e capacidade de investimento para acudirmos a outras necessidades que a Misericórdia ainda tanto precisa», conclui.